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Resumen de ponencia
Desobediência epistêmica e lugar epistêmico na teoria da História

*Ana Carolina Barbosa Pereira



O ponto de partida das reflexões que pretendo compartilhar é o reconhecimento de que no Brasil e em outros países do chamado Sul Global o modo como ensinamos e desenvolvemos pesquisa em teoria da História nos coloca em posição de consumidores(as) de uma bibliografia canônica produzida em alguns países do Norte Global, especialmente a França, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos. Não quero com isso sugerir que devamos assumir uma postura de recusa imprudente, ou de rejeição irrefletida de um cânone. O que estou sugerindo é, em primeiro lugar, que o debate sobre a geopolítica da produção do conhecimento que há décadas tem sido desenvolvida entre cientistas sociais seja travado também entre teóricos(as) da História e historiadores(as) em geral. Em segundo lugar, quero sugerir a necessidade de extrapolar a categoria de lugar social, muito utilizada pelos(as) historiadores(as) para descrever as relações de poder nos bastidores da produção historiográfica, e de considerar a existência de um a priori epistêmico que o antecede, regula e condiciona.
Por se tratar de um priori epistêmico, estamos diante de um fenômeno difícil de ser percebido. Contestá-lo pode, inclusive, parecer absurdo e até mesmo soar contra o “bom senso”. É através da naturalidade e “obviedade” deste a priori epistêmico que se funda e também se retroalimenta um conjunto de textos de leitura e citação obrigatórias. Além disso, esse a priori epistêmico também funciona como critério silencioso no ranqueamento das universidades, programas de pós-graduação e demais instituições de ensino e pesquisa, possibilitado por dispositivos de medição como as taxas de citação, contagem da produtividade acadêmica ou fator de impacto das revistas. (CONNELL, 2016)
Diferentes tradições intelectuais têm se ocupado desta temática no campo das teorias sociais e também da filosofia. Somam-se, por exemplo, os esforços de Syed Hussein Alatas e seu filho Syed Farid Alatas, pensadores envolvidos com os chamados estudos subalternos como é o caso de Dipesh Chakrabarty e outros autores pós-coloniais da Índia e do Caribe, filósofos críticos dos estudos africanistas, da filosofia da consciência e da etnofilosofia, como Paulin Houtondji, Achille Mbembe e Valetin Ives Mudimbe, pensadores(as) decoloniais como Aníbal Quijano, Ramón Grosfoguel, Catherine Walsh, Fidel Tubino, Yuderkys Espinosa, a australiana Raewyn Connell, dentre outros(as).
O objetivo desta proposta é trazer para a teoria da História a discussão que autores(as) como os(as) supracitados(as) têm desenvolvido em outros campos da produção do conhecimento. A partir do diálogo com estas perspectivas e do rico instrumental teórico-conceitual que oferecem, concordo com com a proposta de Raewyn Connell de considerar o processo de produção de conhecimento como uma dentre outras formas de trabalho. (CONNELL, 2011) Ao compreendê-lo desta forma podemos enxergar as relações de poder que o envolvem, notadamente as que têm origem na divisão social, sexual e racial do trabalho.
Replicando, no plano da produção do conhecimento, a conhecida dinâmica das relações entre metrópole e colônia nos planos político e econômico, essa divisão é observável em cada etapa do processo da produção científica, desde a coleta de dados, passando pelo processamento teórico desses dados até a disseminação/aplicação dos seus resultados. (CONNELL, 2011) Essa dinâmica é condicionada por uma geopolítica do poder em que se criam e se aprofundam assimetrias entre centro e periferia.
Constatando que um dos efeitos de toda teorização e criatividade conceitual é a reificação de certas experiências sociais, Connell aponta para o fato de que as teorias produzidas pela metrópole tendem a reificar experiências sociais do Norte e projetá-las como toda experiência humana possível. É por meio do conceito de metrocentrismo que a autora caracteriza esse processo de universalização da experiência euro-americana e de consequente negligência ou até mesmo indiferença em relação às experiências sociais que infirmam esse universalismo. Desdobramento desta desta tendência, o metrocentrismo do Norte se projeta para as universidades do Sul, originando o que Syed Hussein Alatas (2000) denominou “mentalidade cativa”, isto é, um comportamento servidão intelectual em relação às autoridades intelectuais do Norte. (CONNELL, 2011)
Em resumo, apresento aqui o meu objetivo de trazer para a teoria da História um debate que há décadas tem sido feito por cientistas sociais na Ásia, na América Latina, na África e na Oceania. Me refiro ao debate sobre a divisão imperial do trabalho intelectual, segundo Connell, sobre o “imperialismo intelectual”, a “mentalidade cativa” e a “dependência acadêmica”, segundo Syed Hussein Alatas e Syed Farid Alatas, sobre a extroversão, segundo Paulin Hountondji, e sobre a colonialidade do saber, segundo Aníbal Quijano, Maldonado Torres, Ramón Grosfoguel, Catherine Walsh, Yuderkys Espinosa e outros(as) intelectuais latino-americanos(as).
A minha posição é a de considerar a confluência destes conceitos como critério de legitimidade para uma postura de desobediência epistêmica. Em outras palavras, o fato de autores(as) de diferentes partes do globo, localizados(as) fora da Euro-América, terem desenvolvido conceitos diferentes para nomear um mesmo conjunto de fenômenos é a maior expressão das assimetrias entre o Norte e o Sul neste processo de produção e difusão do conhecimento.
No caso específico da teoria da História essas assimetrias ficam explícitas quando dimensionados o alcance de algumas abordagens contemporâneas do tempo histórico. Associadas, por exemplo, a nomes como Reinhart Koselleck, Jörn Rüsen e François Hartog essas teorias têm sido mobilizadas por intelectuais em todo o mundo. Conceitos como “tempo histórico”, “consciência histórica” e “regimes de historicidade” como num passe de mágica converteram-se em instrumento de reflexão aplicável a todas as tradições, inclusive as não ocidentais. Afinal, também neste campo nos habituamos a consumir referenciais teóricos euro-americanos numa relação de servilismo acadêmico. Também por aqui fomos formados(as) e seguimos formando para receber instruções das instituições euro-americanas, assim como reproduzimos agendas de pesquisa norte-globais, aplicando estas referências teóricas à nossa realidade. Enfim, também por aqui seguimos fornecendo dados e consumindo modelos teóricos.




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* Barbosa Pereira
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA UFBA. SALVADOR, Brasil