Os indivíduos que frequentam estádios são atravessados por diferentes narrativas sobre futebol e masculinidade em suas construções enquanto sujeitos torcedores de futebol. Para este trabalho, tentarei apresentar representações sobre mulheres nos estádios de futebol. Como os homens narram essa participação. Para tanto, utilizarei falas da imprensa esportiva sobre a presença de mulheres no estádio, além de apontar manifestação de torcedores entrevistados quando da realização de uma etnografia para uma tese de doutoramento na Arena do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense (BANDEIRA, 2017), além de uma passagem de machismo do treinador do Sport Club Internacional ao conceder uma entrevista, durante o Campeonato Brasileiro da série B, em 2017.
Gênero e suas relações com o esporte
Em nossa cultura, gênero é um elemento definidor de inteligibilidade: “não se pode dizer que os corpos tenham uma existência significável anterior à marca do seu gênero” (BUTLER, 2003, p. 27). Gênero é um processo sem origem nem final, mas que se constrói em ato, ou melhor dito, em uma sequência de atos que está sempre ocorrendo. Ser homem ou ser mulher é algo que ‘fazemos’ e não algo que ‘somos’.
O conceito de gênero com o qual trabalho está ancorado nos Estudos de Gênero Pós-Estruturalistas e nos Estudos Culturais (LOURO, 2004). O conceito de gênero, nessa perspectiva, aponta para quatro desdobramentos importantes (MEYER, 2003). O primeiro destaca a permanente construção dos sujeitos de gênero. O segundo desdobramento do conceito demonstra a diversidade de masculinidades e feminilidades variando em diferentes tempos e espaços e dentro de uma mesma cultura. A relação entre os sujeitos de gênero é a terceira implicação do conceito. As construções de masculinidades possuem nas feminilidades o seu oposto, seu limite, sua fronteira. A última implicação do conceito de gênero nos mostra como as diferentes instituições sociais são atravessadas por pressupostos de masculinidade e de feminilidade. Elas são produzidas por pressupostos de gênero ao mesmo tempo em que participam das produções de gênero (MEYER, 2003).
Os esportes em geral, e o futebol em específico, acabam trabalhando fortemente na circulação e na produção de valores e de representações associados a masculinidades. Eles podem ser lidos como uma das instituições generificadas e androcêntricas de nossa cultura. As práticas recebem ou não adjetivação a partir do sexo de seus praticantes. Os homens jogam futebol, enquanto as mulheres jogam futebol feminino.
Como os homens representam as mulheres nos estádios de futebol
Os estádios de futebol se constituíram, historicamente, como um espaço legitimado para homens. As práticas culturais como as que acontecem nos estádios acabam fazendo circular diferentes representações de gênero e do torcer. É a partir dessas representações que dialogam com o circuito mais amplo da cultura que se autorizam a entender se uma prática torcedora, de masculinidade ou de feminilidade está sendo ‘adequadamente’ performatizada, “a representação inclui as práticas de significação e os sistemas simbólicos por meio dos quais os significados são produzidos, posicionando-nos como sujeito” (WOODWARD, 2004, p. 17).
A presença das mulheres nos estádios teve um aumento quantitativo e qualitativo, desde a valorização dessa presença até a constituição de figurinos específicos. Apesar disso, a participação das mulheres nos estádios ainda é tratada de forma bastante caricata. Em 2008, o Internacional jogou no dia 8 de março (Dia Internacional da Mulher) e realizou uma promoção que liberava as mulheres da compra de ingressos. Todos os jornais que comentaram aquele jogo enfatizaram a presença maciça da torcida feminina no Beira-Rio. Paulo Roberto Falcão, em Zero Hora, destacou em uma matéria intitulada Perfume na arquibancada que os repórteres no Beira-Rio apontavam um aroma diferenciado no estádio. (BANDEIRA, 2009, p. 93-94).
A presença das mulheres poderia colocar novas moralidades na prática do torcer. Fábio entendia que a mulher “até já está superior. Eu me policio, mas tem horas que o cara solta um palavrão, mas a gente nota que a mulher que está ali por perto não está nem aí” (DC 9). Essa é uma interpretação recorrente que acaba marcando no corpo uma expectativa de comportamentos diferenciados. A presença de mulheres, que segundo os jornalistas em 2008 acrescentaria perfume às arquibancadas, também poderia reduzir o número de palavrões proferidos.
Alan entendia que o estádio já foi um ambiente mais hostil às mulheres. Ao mesmo tempo, a marcação de pertencimento de participação das mulheres é avaliada na relação com os homens, “tem muita mulher aí que entende de futebol mais do que homens. Aquela guria da Band, a Renata Fan, ela dá um banho em muita gente” (DC 13). Pensar no aumento da presença de mulheres no estádio não deveria igualar-se a uma diminuição imediata do machismo. Wender, mesmo reconhecendo a ampliação da presença de mulheres e, aparentemente, favorável a ela acabou citando uma definição que interpreto como bastante atravessada por discursos machistas, “tem uns amigos meus que dizem que não precisa mais nem ir em festa para procurar mulher, é só vir no jogo do Grêmio,(...) o que tem de mulher no jogo do Grêmio e mulher linda e maravilhosa” (DC 35).
No dia 18 de julho de 2017, após sua equipe vencer o Luverdense Esporte Clube, pelo Campeonato Brasileiro da série B, o treinador do Internacional de Porto Alegre, Guto Ferreira, respondeu a pergunta de uma jornalista de maneira machista. A jornalista Kelly Costa perguntou se os erros dos atacantes do time aconteciam por problemas psicológicos ou técnicos. O treinador tinha como estratégia de reposta começar devolvendo uma pergunta aos jornalistas. Ele afirmou:
Desculpe, eu não vou te responder com uma pergunta porque você é mulher e talvez não tenha jogado [futebol], mas todo jogador que joga tem dificuldades de ter uma tensão a mais no lance final. Precisa acertar para ter confiança. Se você já jogou para perceber isso.
Após uma enxurrada de críticas pelas redes sociais e de diversos colegas da jornalista Kelly Costa, o, então, treinador do Internacional procurou diferentes meios de comunicação para desculpar-se. O jornalista Maurício Saraiva tentou ‘explicar’ a fala do treinador colorado:
Guto Ferreira gosta de mulher, é casado, não sei se tem filha, mas certamente não tem nada contra mulheres. (...). O mundo da bola ainda é assim. Muito homem junto, mulheres recém começando a ocupar a arquibancada e muitas ainda mais atentas ao bonitinho do que ao bom jogador. Também as mulheres estão na transição de gostar do futebol pelo futebol, capazes de ir ao futebol sem marido, amigo ou namorado. Então, todos em aprendizado.
Novamente o jornalista separa o que seria ‘natural’ do que demandaria novos aprendizados.
Breves considerações
A legitimação masculina nos estádios de futebol faz com que suas práticas apareçam fora de questionamento. Essa legitimidade do lugar masculino nas práticas torcedoras nos estádios de futebol, do jornalismo esportivo e da atuação no futebol profissional lhes dá, também, a possibilidade de produzir representações sobre as mulheres que tentam atuar nesse espaço.
Os conhecimentos femininos no futebol são marcados e hierarquizados na comparação com os homens. Tomando a construção das masculinidades e feminilidades como complementares e não como polos opostos, uma maior legitimação da participação das mulheres poderia desestabilizar esse lugar naturalizado dos homens no futebol. Esse é um jogo que parece estar ainda em seu começo, mas parece que é bastante visível que elas virão jogá-lo! Quem será capaz de imaginar que as mulheres não tomarão para si a possibilidade de produzir discursos e representações sobre sua participação no contexto futebolístico?
Referências
BANDEIRA, Gustavo Andrada. Do Olímpico à Arena: elitização, racismo e heterossexismo no currículo de masculinidade dos torcedores de estádio. 2017. 342 f. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, UFRGS, Porto Alegre, 2017.
BANDEIRA, Gustavo Andrada. “Eu canto, bebo e brigo... alegria do meu coração”: currículo de masculinidades nos estádios de futebol. 2009. 128 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, UFRGS, Porto Alegre, 2009.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis: Vozes, 7ª ed., 2004.
MEYER, Dagmar E. Estermann. Gênero e educação: teoria e política. In: LOURO, Guacira Lopes; NECKEL, Jane Felipe; GOELLNER, Silvana Vilodre. (Orgs.). Corpo, gênero e sexualidade: um debate contemporâneo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003, p. 9-27.
WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu da. (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 3ª ed., 2004, p. 7-72.