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Resumen de ponencia
TRABALHO E MECANIZAÇÃO NO SETOR SUCROALCOOLEIRO ALAGOANO: UMA VISÃO INTRODUTÓRIA SOBRE O PERÍODO 2008 A 2015

*Jose Rodolfo Tenorio Lima



INTRODUÇÃO
O setor sucroalcooleiro tem suas marcas históricas diretamente relacionadas ao processo de colonização do Brasil, como também: com a formação social, espacial, econômica, das relações do trabalho e cultural do país. Atualmente o Brasil é o maior produtor mundial de cana de açúcar com uma produção de 594,3 milhões de toneladas.
Entretanto o setor sucroalcooleiro, assim como outros, vem sofrendo alterações no seu sistema de produção frente as modificações ambientais, como: modificações na legislação trabalhista, avanço da tecnologia, ampliação do mercado concorrencial e problemas climáticos. O processo de modernização tem-se desenvolvido também por questões ligadas as diretrizes de sustentabilidade que o mercado internacional impõe, como também, pressões sociais que o setor enfrenta, principalmente pelas características inerentes ao seu processo produtivo, que é marcado por grande impacto ambiental e social. O processo de mecanização vem a gerar uma relação inversa com a quantidade de trabalhadores que são absorvidos nesta atividade, tendo em vista que uma colheitadeira acaba por representar a produtividade média de 100 cortadores de cana, para “cana queimada” e até 200 para “cana crua”.
Diante do avanço da mecanização da colheita em todas as regiões produtoras do país, e, especificamente, a falta de investigações sobre o contexto alagoano para essa situação, que é recente, tem-se a necessidade de uma melhor compreensão de como os canavieiros vivenciam essa nova realidade. A proposta de discussão, apresentada nesta pesquisa, se propõe a investigar o processo de mecanização da colheita canavieira no estado de Alagoas a partir de uma revisão da literatura e do acesso a dados secundários produzidos por órgãos governamentais e de representação do setor. Cabe destacar que essa pesquisa se encontra em fase de desenvolvimento. Tem-se aqui uma visão introdutória sobre o processo de mecanização no setor alagoano no período 2008 à 2015.
MECANIZAÇÃO DA COLHEITA CANAVIEIRA: UMA RELAÇÃO TRABALHADORES VERSUS MÁQUINAS
A substituição do trabalho vivo pelo morto, em termos marxianos, também chega a área agrícola do setor sucroalcooleiro, com mais intensidade, a partir da mecanização da colheita. Cabe destacar que em outros momentos já houve a inserção de máquinas no campo, pois os tratores e caminhões passaram a ser utilizados, facilitando o escoamento da cana cortada, como também o preparado da terra para o processo de plantio. Porém, a mecanização da colheita é mais impactante, pois na área agrícola é a colheita que demanda mais postos de trabalho.
Os custos produtivos que envolvem a área agrícola também são considerados no processo de adoção das novas tecnologias. Marx (2008 p. 449) destaca “Se a máquina custa tanto quanto a força de trabalho que substitui, o trabalho nela materializado será sempre muito menor que o trabalho vivo por ela substituído”. A partir dessa relação conflituosa entre trabalho x capital; o avanço tecnológico das colheitadeiras; a necessidade de melhorar a imagem diante do mercado externo; e a busca por uma maior competitividade, tendo em vista a desregulamentação sofrida na década de 1990; a mecanização aparece como uma das saídas encontradas pelo setor. O processo de mecanização tem-se intensificado. Esse processo não tem evoluído de forma heterogênea em todas as regiões produtoras. A principal região em que a mecanização avançou é o centro-sul do Brasil. Os dados fornecidos compreendem o período das safras 2007/08 até 2014/15 e demonstra que a evolução vem ocorrendo mais intensamente na região centro-sul. Esta região apresentou na safra 2007/2008 28,6% da sua colheita realizada de forma mecanizada e na safra de 2014/2015 esse percentual foi para 84,2%. A região nordeste é a que apresenta a menor evolução no que diz respeito ao percentual total do processo de mecanização da colheita, porém segue a mesma tendência de crescimento. (CONAB, 2017)
A REALIDADE DA MECANIZAÇÃO DO CORTE DE CANA EM ALAGOAS
Alagoas, que foi um dos primeiros locais a ser terreno para o desenvolvimento da cultura da cana de açúcar no país, atualmente ocupa a 7ª posição na produção nacional. Entretanto o estado, que já foi o segundo maior produtor nacional, ainda é o maior produtor do Norte-Nordeste e concentrou, na última safra (2016/2017), 36% da produção da região (UNICA, 2017).
O estado de Alagoas também tem seguindo, mesmo que de forma tardia e lenta, a tendência de mecanização do seu processo de colheita (17,8% na safra 2014/15), porém em um menor número se comparado aos outros principais produtores do país. Esse fato tem como um dos fatores o tipo de declividade encontrada na geografia canavieira do estado de Alagoas. Uma boa parte da área produtiva do estado é situada em regiões com declividade acentuada, ou seja, acima de 12 graus de inclinação. Além disso a crise que atinge o setor nos últimos anos, pelos fatores climáticos e mercadológico, tem alterado a área plantada e, desta forma, tem reduzido a velocidade de investimentos na mecanização. Santos (2017) destaca que há, em fase de experimentação, novos protótipos para possibilitar a mecanização em regiões em que a declividade é elevada. Fato esse que no futuro poderá acarretar em uma maior redução da demanda por trabalhadores.
A revista Canavieiros (2014) apontou que o incremento da mecanização da colheita de cana, na região dos “tabuleiros costeiros” alagoanos, gerou uma redução de aproximadamente 20% nos custos de colheita em comparação com a colheita manual. Além disso a instalação de uma indústria, que produz etanol a partir da palha da cana, tem sido outro atrativo para o uso da mecanização da colheita. Pois a palha que antes era queimada, no sistema manual, agora passa a ser comercializada como insumo produtivo para essa indústria. Outro fator de intensificação da mecanização é que essa indústria tem disponibilizado colheitadeiras para usinas e fornecedores de cana.
Diante desta realidade há, mesmo que lentamente em comparação com outras regiões produtoras, um incremento no uso de colheitadeiras na cultura canavieira. Na safra de 2008/09 haviam apenas 9 máquinas colheitadeiras operando no setor produtivo alagoano. Entretanto na safra de 2014/15 esse número foi de 65. Cabe destacar que das 135 máquinas que operavam no Nordeste na safra de 2014/15 a maior parte, 48%, estava localizada em território alagoano. Outro ponto de reflexão é que a guinada da mecanização ocorreu na safra 2008/09 em que houve um salto de 9 máquinas na safra anterior para 30 na safra seguinte. Um novo incremento de colheitadeiras ocorreu na safra 2013/2014 e posteriormente há uma certa estabilização no incremento de novas máquinas.
Pode-se destacar que ainda há uma grande área passível de mecanização dentro da configuração produtiva alagoana. De acordo com Nascimento (2009) apud Santos (2017) a área com aptidão a mecanização em Alagoas é de 50% da área de cultivo atual. Esse percentual se dá devido a configuração do terreno produtivo que possui declividades acima do que a tecnologia atual permite explorar, principalmente na região produtora localizada no norte do estado
A retração na demanda por trabalhadores para o corte já pode ser percebida nos anos em que a mecanização avançou. Entretanto a área plantada sofre um processo de expansão, ou seja, a redução ocorrida na demanda por trabalhadores passa a ser absorvida pelas novas máquinas implantadas na fase de colheita. A redução mais abrupta do período ocorre na safra 2012/13, neste período são contratados cerca de 21.481 trabalhadores e tem-se a operação de 60 máquinas. Cabe destacar que a redução na contratação de trabalhadores alocados no corte da cana não se deve apenas a inserção das colheitadeiras. Algumas unidades produtivas do estado foram fechadas diante da crise financeira que afetou o setor a partir da política de congelamento de preços dos combustíveis e da queda do valor do açúcar no mercado internacional. Além destes fatores mercadológicos ocorreram também problemas de ordem climática que afetaram diretamente o cultivo da cana.
Pode-se perceber que o avanço da mecanização é uma realidade em todo o setor, independente da região na qual o mesmo está inserido. Os dados demonstram que o Centro-Sul tem taxas de mecanização maiores que as demais regiões produtoras e que tal processo avanços enormemente nos últimos 10 anos. O Nordeste ainda possui um baixo percentual de mecanização, porém diante da concorrência produtiva a mecanização será um caminho a ser seguido, principalmente visando a redução dos custos produtivos, melhoria da imagem organizacional e, consequentemente, um incremente na competitividade mercadológica.
O que tem acontecido com o mundo do trabalho canavieiro alagoano, que já chegou a possuir mais de 100 mil trabalhadores e, na safra de 2012/2013, esse número foi de aproximadamente 21 mil; deve ser melhor analisado. Há uma grande escassez de dados que possam descortinar a realidade do setor, assim como, dos trabalhadores que possuem a sua reprodução social associada a tal segmento.
REFERÊNCIAS
MARX, K. O capital: crítica a economia política - livro I. 25. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
CONAB. Perfil do setor do açúcar e do álcool no brasil: edição para a safra 2014-2015. Brasília: Conab, 2017.
UNICA (São Paulo). Evolução da produção de cana de açúcar: safra 2006/07 à 2016/17. 2017. Disponível em: . Acesso em: 11 jul. 2017.
SANTOS, J. P. Tendências e impactos da mecanização do corte da cana sobre os canavieiros em Alagoas. Maceió: Ufal, 2017
CANAVIEIROS (São Paulo). Usinas dos 'tabuleiros costeiros' de Alagoas investem em mecanização. 2014. Disponível em:






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* Lima
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS UFSCAR. São Carlos, Brasil