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Resumen de ponencia
Jeffrey Alexander e a busca pela Multidimensionalidade na Lógica Teórica

*Jayme Gomes Neto



Resumo:

Dentre as chamadas ciências humanas, a sociologia é provavelmente aquela que mantém uma relação mais próxima com seus teóricos clássicos. Visto por alguns como sintoma de uma suposta falta de amadurecimento científico, esse fato pode ser compreendido, entretanto, como uma espécie de vantagem hermenêutica a partir da qual o teórico das chamadas ciências humanas − irremediavelmente imersas em uma pluralidade de paradigmas − pode atribuir uma ordenação temporal a seu discurso. Talvez por conta dessa percepção a sociologia experimente, mais do que outras disciplinas, um movimento de constante redescoberta e revisita de sua própria história e seus proponentes clássicos.
A história da sociologia, entretanto, pode ser contada e recontada de várias formas possíveis. Pois tal tarefa é sempre dependente de processos de reconstruções teórico-metodológicas que privilegiam determinados aspectos no interior dos programas de investigação − seja seu contexto, suas "descobertas" empíricas, seus modelos de análise, seus esquemas teóricos ou mesmo do seus pressupostos metateóricos. O presente trabalho toma como ponto de partida de sua discussão o modelo de reconstrução teórica promovido por Jeffrey Alexander durante os anos 1980, isto é aquele no qual se elege como grade de leitura ou princípio reconstrutivo o desenvolvimento da lógico teórica e seus respectivos pressupostos metateóricos.
Nesse contexto, perguntar-se pelos pressupostos metateóricos em jogo na história da sociologia equivale a perguntar quais são, por trás das observações empíricas, modelos de análise e esquemas conceituais, as respectivas imagens a respeito da ação humana e seu concurso mobilizadas pelo sociólogo em sua construção teórica. O mapeamento de Alexander sugere que tudo depende de quais os elementos são privilegiados pelo analista no interior da explicação/compreensão da ação (se ela, por exemplo é tomada partir de sua dimensão instrumental ou valorativa) e da ordem social (se é tomada de maneira individualista ou se é concebida como dotada de propriedades emergentes). Uma vez que sejam elencados determinados fatores explicativos/compreensivos (que podem ser ideias ou matérias), por um lado, e determinadas orientações cognitivas em relação aos vários níveis de análise (individualismo ou holismo), por outro, o conjunto de pressupostos metateóricos se mostra como que fornecendo algumas possibilidades lógicas de desenvolvimento e combinatória.
As ambições teóricas de Alexander ao promover esse tipo de mapeamento geral das condições de possibilidade teóricas são estruturalmente idênticas àquelas de Talcott Parsons e tomam por modelo a reconstrução metateórica executada em seu primeiro grande livro, A estrutura da ação Social, de 1937. Nesse caso, trata-se de promover não uma simples exegese de textos − no que o metateórico seria capaz de apontar os deslizes de cada uma das teorias e seus respectivos pontos cegos − mas uma verdadeira síntese multidimensional capaz de incorporar os ganhos teóricos precedentes e, ao mesmo tempo, superá-los mediante a construção de uma quadro teórico unificado.
Ao fim e ao cabo, a multidimensionalidade da lógica teórica tomada como grade de leitura permite uma compreensão especifica da história da teoria. A partir desse conceito e das oposições instaurada por ele o desenvolvimento da teoria passa a ser contada mediante um tipo de oscilação pendular entre sínteses e fragmentações, com seus respectivos movimentos de convergência, unidade, esgotamento e dispersão. Eis o modo como Alexander parece ler a história da teoria sociológica: a) convergência dos clássicos mediante a tentativa de resolução de antinomias sociológicas fundamentais; b) superação dos clássicos mediante a síntese parsoniana; c) o esgotamento das ambições universalistas do estrutural funcionalismo; d) a fragmentação e o entrincheiramento teórico por meio de novas divisões entre micro-macro, objetivismo-subjetivismo. Ao fim desse ciclo, é claro, surge uma nova convergência de larga escala a qual Alexander dá o nome de "novo movimento teórico".

Objeto e objetivos

O presente trabalho busca discutir o conceito de lógica teórica multidimensional proposto por Jeffrey Alexander durante os anos 1980 tendo em vista seu potencial crítico e sua capacidade propositiva. Se ele de fato serviu à construção de uma narrativa capaz de mapear criticamente − isto é, delineando a fundamentos, alcances e limites de direito de − as teorias anteriores em suas respectivas ambições epistêmicas, por outro lado, o conceito não parece ter sido forte o suficiente para permanecer na agenda da teoria sociológica das décadas subsequentes: ao momento de pretensa ou suposta unidade sintética vivenciada pelo "novo movimento teórico" dos anos de 1980 parece ter sucedido novamente um esgotamento e uma posterior fragmentação do campo teórico. Mais do que a alegada fragmentação em torno de uma multiplicidade de programas de pesquisa concorrentes, as próprias discussões em teoria social parecem ter sido parcialmente tomadas de assalto por autores − influenciados pelo pós-estruturalismo e pelos "cultural studies" − cujas raízes intelectuais passam ao largo do referencial canônico da sociologia teórica.
Mas se a grade de leitura proposta por Alexander guarda ainda alguma pertinência então é provável que o diagnóstico do fim da "grande" teoria social − que aparece, em parte, como um eco do suposto fim das metanarrativas − não seja senão também uma fase passageira a espera de um novo "novo movimento teórico". Dito isso, o presente trabalho tem por objetivo analisar duas questões fundamentalmente interligadas: primeiramente, por quais razões substanciais a ambição a sintética dos anos 1980 encontrou seu esgotamento? Nesse caso, é claro, não seria suficiente recorrer uma espécie de "movimento natural" de esgotamento, mas apontar as causas (contextuais e conceituais) dessa tendência que se realizou naquele momento e que parece ainda permanecer. Em segundo lugar, trata-se de analisar as possíveis rotas de correção metateórica do suposto multidimensional de Alexander com vistas a futura superação.
Embora estas questões sejam − e provavelmente continuarão a ser durante algum tempo − questões abertas, algumas pistas prévias podem ser fornecidas. Do ponto de vista do esgotamento teórico parecem haver ao menos duas possibilidades de incompletude ou falência teórica. A primeira delas refere-se a uma falência formal do esquema: do ponto de vista de uma teoria da ação, por exemplo, é possível que se argumente que binômio das ações "estratégias" vs. "não estratégicas" talvez deva ser substituído por um trinômio (ou um polinômio) que contemple outros elementos tomados na condição de categorias propriamente positiva. Hans Joas, por exemplo, parece insistir mais recentemente na necessidade de uma reformulação da teoria da ação com vistas a incorporação positiva de seus elementos estético-expressivos. Mais ainda, é provável que a também a mudança social (assim como a ação e a ordem sociais) devesse receber um tratamento multidimensional no qual sejam positivadas variáveis distintas daquelas já presentes enquanto elementos explicativos/compreensivos da ação e da ordem (materialismo x idealismo, individualismo x coletivismo).
Para além das possibilidades de correções formais, há ainda a possibilidade de o novo movimento teórico proposto por Alexander dever ser corrigido em termos substantivos. Na verdade, no interior da economia argumentativa dos textos o formalismo da lógica teórica multidimencional corre o risco de sugerir definições demasiado negativas, tendo um papel metateórico apenas corretivo. Somando-se isso ao fato de que Alexander parece aliar sob uma rubrica geral séries de desdobramentos distintitos − lembre-se que nomes como Giddens, Bourdieu e Habermas aparecem como nomes que participariam de um mesmo acordo tácito geral − pode-se perguntar se parte de suas dificuldades não teriam sido justamente as de tornar explícita uma concepção substantiva específica e convincente a qual o seu esquema formal corresponderia. Mais ainda, no caso de empreitadas que procedem por meio de reconstruções formais, é possível (e até provável) existam pontos de tensão e contradições entre as definições iniciais e os desenvolvimentos substantivos da teoria informada também por meio de sua pesquisa empírica. Seja como for, somente uma analise mais detalhada pode contribuir para o esclarecimento desse conjunto de questões.

Referências sintéticas:

ALEXANDER, Jeffrey C. Formal and Substantive Voluntarism in the Work of Talcott Parsons: A Theoretical and Ideological Reinterpretation. In: American Sociological Review, v. 43, n. 2, p. 177-198, 1979.
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______. (ed.) Neofunctionalism. California: Sage, 1985.
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______. The New Theoretical Movement. In Neil J. Smelser (ed.) Handbook of Sociology. Newbury Park, CA: Sage, 1988a. p. 77–101.
______. Neofunctionalism and After. Malden, MA: Blackwell, 1998.
JOAS, H. "The Antinomies of Neofunctionalism: A Critical Essay on Jeffrey Alexander". In: Pragmatism and Social Theory. Chicago and London: The University of Chicago Press, 1993, p. 188-213.
JOAS, H & KNÖBL, W. Social Theory: Twenty Introductory Lectures. New York: Cambridge University Press, 2009 [2004].
PARSONS, Talcott. The Structure of Social Action. New York: Free Press, 1968 [1937].




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* Gomes Neto
Programa de Pos-Graduaçao em Sociologia. Instituto de Filosofia e Ciencias Humanas. Universidade Federal de Rio Grande do Sul - PPS/UFRGS. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil