Vivenciamos, atualmente, uma continuada perda da memória biocultural, uma sabedoria milenar de valor imensurável (TOLEDO, 2015). A dinâmica da globalização, que se acentuou nas últimas décadas, trouxe transformações profundas na forma como produzimos, processamos, vendemos, compramos e manipulamos os alimentos e, portanto,como nos
alimentamos. Se, por um lado, a Revolução Verde aumenta a produção de alimentos e o consumo total de calorias, por outro lado, leva à conversão de lavouras para poucas culturas que se tornaram básicas (notadamente, arroz, trigo e milho), em detrimento das culturas tradicionais, diminuindo, assim, a diversidade alimentar (PINGALI, 2015).
Podemos identificar a existência de distintos regimes alimentares ao longo dos séculos, tendo o primeiro durado dos anos 1870 a 1930, quando havia a importação de bens alimentares tropicais, como grãos advindos de colônias para a Europa. Um segundo regime compreendeu as décadas de 1950 até 1970, e reorientou fluxos de alimentos dos Estados Unidos para países aliados do chamado “Terceiro Mundo” pós-colonial. É nesta época que ocorre a Revolução Verde a partir da exportação do modelo estadunidense. Por fim, há o debate sobre um terceiro regime alimentar que se iniciaria na década de 1980, persistindo nos dias atuais. Ele seria caracterizado pelo aprofundamento dos processos predecessores, incorporando novas regiões à cadeia de proteína animal e coloca a indústria de processamento em posição de destaque. Para McMichael, o terceiro regime alimentar caracteriza-se pela hegemonia das corporações. Neste novo regime, novas estratégias corporativas emergiram, os mercados ganharam importantes feições regionais e globais e os sistemas de produção e distribuição perceberam uma intensa inter-relação entre capital local e transnacional, implementando inúmeros casos de fusões e aquisições de capital. Compreendendo a relevância política, social e econômica deste debate, jogaremos luz às transformações territoriais ocorridas na cidade do Rio de Janeiro, em consonância com o modelo desta regulação privada dos alimentos, tendo o poder corporativo como elemento disparador da nossa análise.
As noções de sistema agroalimentar e regimes alimentares são chaves para nossa reflexão, sendo a produção teórica de Friedmann e McMichael nosso ponto de partida. Delas, partiremos para outros mergulhos teóricos, como no caso da teoria da regulação (AGLIETTA, 1979) e outras produções que analisam transformações no mundo da economia e da política, em nível internacional, tais como Amin, Arrighi, Cox, Bernstein, Clapp, Goodman, dente outros. Para o caso da bibliografia brasileira, destacamos as contribuições de Wilkinson e Maluf.
O estudo dos regimes alimentares nos permite compreender, dentro da perspectiva histórica e geográfica, o papel da agricultura e dos alimentos no processo de acumulação do capital. No contexto da economia globalizada e financeirizada, da qual os sistemas agroalimentares também fazem parte, abre-se um debate sobre a possível o aprofundamento
do regime alimentar baseado nas corporações. Nele, a gestão da segurança alimentar ficaria nas mãos não dos estados, mas das corporações transnacionais. Tanto no nível da produção como na comercialização, assistimos a transformações e reestruturações radicais. As gigantes corporações da alimentação e do varejo transformaram a economia agroalimentar, no
que Friedmann (1993) denomina regulação global privada (GOODMAN & WATTS, 1997, p.3). O processo de reestruturação do sistema agroalimentar pode ser compreendido em sentido múltiplo, na medida em que se dá de forma distinta a depender do país, do setor produtivo e demais especificidades.
Como a problematica do regime das corporações territorializa-se a partir das ações destes atores nos territórios? Que diferenciações geográficas acarretam disto? A escala como conceito nos parece chave na elaboração deste tema de pesquisa. Sob o ponto de vista espacial, Marafon e Seabra (2014) destacam o papel chave da circulação de alimentos no que
tange às conexões entre cidade e campo.
As relações entre campos e cidades, quando analisadas pelo prisma da
comercialização agrícola, evocam interações espaciais entre diversas
escalas, resistências e permanências, cooptações e consentimentos,
diversos atores, múltiplas formas, ações hegemônicas e contra- hegemônicas. Na prática, compreender a distribuição de gêneros
agrícolas dessa forma permite a análise das relações de (re)produção
do espaço a partir da interação entre produtores, operadores logísticos,
supermercados e consumidores, todos integrados pelos arranjos
reticulares e articulando normas e ações hegemônicas aos processos
sociais e históricos produtores de uma espacialidade repleta de
temporalidades. As grandes redes de supermercado,como
centralizadores logísticos em interação com o sistema CEASA-Rio,
em sintonia (ou não) com operadores logísticos e buscando acessar os
consumidores na área metropolitana do estado do Rio de Janeiro,
tecem uma trama complexa envolvendo elementos simbólicos,
econômicos, relações trabalhistas, técnicas logísticas e produtos, que
circulam por redes geográficas sobrepostas e atravessadas por normas
e poderes transversais/transescalares (MARAFON; SEABRA, 2014,
p.29-30).