Este trabalho parte de uma investigação realizada para um trabalho de monografia, e o objetivo aqui proposto é fazer um apanhado sobre as políticas de incentivo à leitura literária que estão sendo realizadas dentro das escolas públicas no município de Fortaleza, Ceará, e observar sua utilização em sala de aula. Os objetos do estudo são os programas de alfabetização na idade certa (PAIC e PAIC +5), do Governo do Estado do Ceará, mais especificamente, a atuação do Eixo de Literatura Infantil e Formação do Leitor; o Programa Nacional de Livros Didáticos (PNLD), uma vez que este distribui obras literárias complementares à formação do aluno, e o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), estes dois últimos propostos pelo Ministério da Educação, pasta do Governo Federal brasileiro. A análise é justificada pela Sociologia da Literatura, do Livro e da Leitura, uma vez que tem seu princípio no estudo das relações sociais que se configuram em torno dos livros e de seus leitores, e para isto, os espaços sociais como a escola são primordiais no desenvolvimento da formação da criança e de seu apreço pela leitura literária. Os programas não só auxiliam na formação do leitor, mas também são essenciais para o avanço do mercado editorial brasileiro, que firmou suas bases com o apoio do Estado nas compras de materiais didáticos e paradidáticos, e atualmente, sofre com a demanda cada vez menor de compras pelo governo. Outro “porém” encontrado na investigação se encontra no campo de pesquisa que está localizado em uma zona de baixa escolaridade e de grande violência urbana na cidade de Fortaleza, apresentando dificuldades na efetivação das políticas públicas de promoção da leitura. Casos como famílias associadas ao tráfico de drogas, roubos, abusos sexuais e violência doméstica são recorrentes na escola escolhida. Para que o estudo seja feito, a metodologia de análise foi dividida em três momentos. No primeiro serão discutidos o surgimento e os objetivos dos programas PAIC, PAIC +5, PNLD e PNBE, bem como a importância do livro e da leitura. No segundo momento serão vistos os problemas que circundam os programas, como por exemplo, as complicações orçamentárias e as principais críticas dos profissionais da educação e do mercado editorial brasileiro que depende das compras governamentais. É apenas no terceiro momento que será explicada a aplicação dos programas dentro de uma escola pública na periferia da cidade de Fortaleza, no Ceará - onde os quatro programas atuam em conjunto - e assim, serão analisadas as dificuldades na plena efetivação da formação literária das crianças. As salas de aula investigadas são do 2° e 3° ano do Ensino Fundamental I, que abrangem crianças entre 7 a 10 anos de idade. Verifica-se as desigualdades na transmissão parental de disposições e práticas entre as crianças através de indicadores sociais como níveis de instrução, origem social, ou mais precisamente, a estrutura da relação familiar, expondo a dificuldade de alguns estudantes em adquirir as capacidades exigidas pela escola, uma vez que eles não possuem os habitus inerentes à instituição escolar para conseguir decodificar os códigos necessários e tornarem-se crianças “promissoras”, e para obter tais capacidades, precisam de um esforço além do que já inserem nas atividades escolares. Isto é, o ethos que a escola exige nem sempre é um ethos parecido com o que a família desenvolve. Observa-se então a necessidade de discutir sobre leitura, livro e literatura dentro da escola pública e compreender os processos econômicos e sociais aos quais os livros estão imersos. Conforme observa Leão (2012) as práticas de leitura e a circulação da cultura possibilitam que o sociólogo enfrente o problema das desigualdades sociais de acesso aos bens simbólicos. Em vista disto, a análise teórica corresponde a discussões que ocorrem dentro da Sociologia, da História da Leitura e da Literatura, tendo em foco autores como Pierre Bourdieu, Bernard Lahire, Roger Chartier, Leonardo Arroyo, Marisa Lajolo e Regina Zilberman.