Resumen de ponencia
ENCONTROS NA CURA: RELAÇÕES ENTRE PESQUISADORES E ANIMAIS NA PRODUÇÃO DE ANTIDOTO
*Jackeline Silva Jeronimo De Souza
Nas últimas décadas, os estudos da ciência, tecnologia e sociedade, vem questionando as fronteiras que até então se estabelecia entre a noção de ciência, do fazer cientifico e do social. A observação da ciência na prática, tal qual se faz nos laboratórios, vem mostrando a associação de elementos heterogêneos que compõem também o social - materiais e ideais, humanos e não-humano, rompendo com as bifurcações entre natureza/sociedade – sujeito/objeto. Nesse sentido, o sociólogo Michel Callon em seu artigo A agonia de um laboratório pergunta: “Que papel particular os laboratórios desempenham no desenvolvimento do conhecimento e mais particularmente na construção dos fatos científicos? ”. Essa interrogação dá indicação acerca de um dos elementos fundamentais presentes em tais estudos: fatos científicos - então e talvez ainda hoje - tomados como dados são resultado do trabalho prático de cientistas em seus laboratórios, local em que entidades heterogêneas se encontram e se fazem reciprocamente.
Nessa perspectiva as ciências sociais, principalmente a partir da segunda metade da década de 70, passam a ter crescente interesse pelos estudos sobre a produção de ciência e tecnologia. Em grande medida, esse interesse se deve tanto à crescente presença de artefatos científicos e tecnológicos na contemporaneidade quanto ao surgimento de um senso de que a tecnologia não indica necessariamente um progresso, mas também uma série de riscos. Ao lado disso, a crença na "pureza" da ciência começa a ser questionada e os sinais da influência de fatores políticos e sociais na produção de conhecimento científico passam a ser investigada.
O presente texto se utiliza em grande medida de uma abordagem que deriva desses estudos sobre ciência realizados em laboratório: a Teoria Ator-Rede ou sociologia da tradução. Seus principais autores são Bruno Latour, Steve Woolgar e John Law, um dos seus argumentos fundamentais é que fatos científicos são construções produzidas por todo um coletivo de pessoas, equipamentos, técnicas, materiais que são gradualmente estabilizados até se tornarem fatos inegáveis para toda a comunidade cientifica.
Segundo Sabina Leonelli e Rachel A. Ankeny (2013), em seu artigo “What makes a model a organism? ” (O que faz um organismo modelo?), organismos-modelo geralmente são definidos como espécies não – humanas que são estudados como forma de compreender os fenômenos biológicos. Assim com a perspectiva de que os dados, modelos e teorias geradas serão aplicáveis a outros organismos mais complexos, esta abordagem conforme as autoras são modelos selecionados e usados para uma gama de sistemas e processos que ocorrem em organismos vivos, incluindo genética, desenvolvimento, fisiologia e ecologia, sendo assim permite promover a busca de um trabalho comparativo em grande escala entre espécies através de abordagem disciplinares. Ambas citam os primeiros estudos de organismos - modelos; A partir da cobaia que foi inicialmente adotada para investigar estruturas anatômicas, e mais tarde para o estabelecimento da teoria dos germes, a descoberta da vitamina C e vacinas, e em toxicologia. É o modo como animais são incorporados ao trabalho na ciência o tema desta pesquisa. Se o veneno de cobra se torna antidoto e remédio, também tem outras consequências. Picadas de cobra não são um problema negligenciável. No Brasil, de acordo com dados do Ministério da Saúde, só no ano de 2016 ocorreram 26 mil incidentes ofídicos .
Há dados nacionais de que existem em torno de 250 espécies de serpentes, destas 70 são peçonhentas (Ministério da Saúde). Na Bahia a serpente mais comum é a Jararaca. Seu veneno possui um dualismo: o primeiro é que uma pessoa que sofre uma picada pode morrer por causa desse veneno e o segundo é que o mesmo serve para diversos medicamentos, como o Captopril, que são usados para pacientes com hipertensão e com insuficiência cardíaca geralmente. As cobras são vistas e retratadas como animais perigosos e que se devem manter distância, seu veneno que pode trazer danos à saúde humana, como também pode trazer benefícios.