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Resumen de ponencia
Sorriso: Uma experiência coletiva de aproximação entre famílias e escolas

Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável - CIEDS (Brasil)

*José Claudio Da Costa Barros
*Marcia De Souza
*Nathacha Monteiro Ferreira



As condições de vulnerabilidade que as desigualdades sociais promovem junto a grande parte das famílias, cujas crianças e jovens estão na escola pública, ao lado de uma visão estigmatizada que considera a família “desestruturada” e culpabilizada pelas deficiências de aprendizagem dos estudantes, faz com que um abismo cada vez maior se coloque entre escolas e famílias. De um lado deste abismo, famílias que não se sentem mais legitimadas e capazes de apoiar o processo educacional de seus filhos e que, nem sempre, se sentem acolhidas e à vontade no espaço escolar. De outro, uma escola que não consegue mobilizar e criar laços de comunicação com as famílias e, muitas vezes, com seus estudantes.
Concebido a partir das aprendizagens na temática, a experiência se propôs a reconstruir estes laços de comunicação e interação entre famílias e escolas. As ações realizadas possuíram como premissa a construção coletiva a partir da customização por território. A customização consiste na valorização dos diferentes saberes locais e reconhecimento das práticas de pessoas e instituições presentes no território. Esta diretriz favorece a identificação, reconhecimento e integração de possibilidades muitas vezes ocultas de potenciais educativos e sociais do território facilitando a promoção de uma rede local de direitos e proteção voltada para o estudante, familiares e a própria escola. Um importante elemento da experiência foi o protagonismo da Rede no desenho e implementação das estratégias tendo a equipe de gestão da secretaria de educação e gestores das escolas como as principais lideranças deste processo.
A parceria com a Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Sorriso/SEMEC/MT se caracterizou como oportunidade de aplicar uma experiência piloto referendada pela construção coletiva e atuação direta com os gestores dos diferentes segmentos da rede pública de educação. Para a elaboração da proposta de parceria foi necessário recuperar as aprendizagens que refletiam a multiplicidade de iniciativas das escolas que primaram pela interlocução com instituições locais complementares ao contexto educacional. O desafio era: como avançar para uma ação de rede, respeitando as especificidades locais e alinhando-as entre si como proposta de política pública?
A experiência de Sorriso se constituiu como importante laboratório para reflexão - e ação - em torno desta questão e para produção de aprendizagens significativas para a estruturação de um programa de fortalecimento das relações entre escolas e famílias. O presente trabalho evidencia os principais elementos que constituíram esta experiência trazendo os principais conceitos e pressupostos norteadores, estratégias implementadas e aprendizagens produzidas. Mais do que o registro de uma experiência, consideramos que este trabalho seja referencial e balizador para novos caminhos para a qualidade da educação através da aproximação entre escolas e famílias.
Estratégias e caminhos selecionados
Premissas metodológicas

Para avançar no desenho do percurso a ser percorrido com a Rede, uma série de reuniões colaborativas com a equipe técnica da secretaria de educação foram realizadas. A estratégia inicial era fortalecer na equipe da Secretaria a compreensão do percurso a ser trilhado e motivá-la para um processo permanente de construção coletiva. O caminho a ser percorrido seria fundamentado a partir de 04 premissas: O Alinhamento de visões e concepções; o Cascateamento para garantir escutas e respeito à diversidade escolar; a construção participativa e colaborativa em rede; e a Avaliação processual e norteadora de passos.

ALINHAMENTO de visões e concepções - Neste diálogo inicial com a equipe técnica da secretaria de educação e com profissionais das escolas, foi possível perceber as divergências de percepção sobre a relação da tríade - família, escola e comunidade. Enquanto para alguns, a aproximação da família era importante no contexto da família como parceira do processo educativo, alinhado aos princípios da gestão democrática e tendo como referência as diferentes configurações presentes na concepção moderna de família, para outros a concepção de família ainda era visto dentro de uma perspectiva tradicional de pai, mãe e filhos e o que fugia a esta construção era visto como “desestruturado” conduzindo ainda uma visão culpabilizadora da família. Para estes, o papel da família na escola era de apenas cumprir o que a equipe escolar considerasse que fosse o seu papel, sem autonomias ou construções conjuntas. Neste sentido, alinhar este entendimento com a equipe da secretaria e com os profissionais da rede foi fundamental para que os resultados esperados da proposta fossem desenhados coletivamente.

CASCATEAMENTO para garantir escutas e respeito à diversidade escolar - O fato da rede pública ser constituída por 32 unidades escolares, da educação infantil ao ensino fundamental II, distribuídas por áreas urbanas e rurais, apesar de representar uma rede pequena, indicava uma diversidade em termos de características territoriais e públicos atendidos pelas escolas. Esta diversidade foi um ambiente propício para experimentar pontos de maturação das iniciativas do Programa com aspectos metodológicos agregados de outros de outras experiências, como o processo de cascateamento. O processo de cascateamento é uma construção progressiva e inclusiva de encontros que começa com as lideranças da secretaria, avançando para as lideranças das escolas e conclui na comunidade escolar. Dentro desta lógica, o processo de construção participativa ocorre em todos os níveis fortalecendo as autonomias de cada segmento, em especial da equipe da secretaria que, dentro deste processo, passa a se perceber co-responsável e autora da construção.

CONSTRUÇÃO PARTICIPATIVA e colaborativa em rede - Associado ao cascateamento, estava o uso de metodologias participativas que representaram para a rede de Sorriso uma grande inovação em seu processo de formação continuada. Acostumados a participar de palestras sem espaços de interação e construções conjuntas, sempre sentados em formato auditório, os profissionais da rede passaram a sentar em roda e grupos circulares e se viram participando de processos onde suas vivências eram valorizadas e sua voz se somava a outras na construção autoral de processos. O uso de estratégias de mapeamento afetivo, metaplan (visualização de tarjetas móveis), educomunicação, além de dinâmicas que fortalecesse a interação e comunicação do grupo perpassaram todos os encontros.

AVALIAÇÃO PROCESSUAL e norteadora de passos - A cada encontro, um processo de avaliação da caminhada era desencadeado tanto para validar estratégias escolhidas quanto para subsidiar a construção de novos encontros e etapas do programa. Em especial as rodas foram momentos importantes para colher percepções de aprendizagens e novos olhares manifestados em depoimentos pelos profissionais da rede. Os resultados eram partilhados com as lideranças da secretaria para tomada conjunta de decisões e encaminhamentos.
Pressupostos Metodológicos da Formação
O caráter formativo não contemplava a “entrega” de receitas “mágicas” de resolução de problemas com as famílias. Ao contrário, a proposta pretendia oferecer parâmetros para construção de novos olhares sobre a relação entre escolas e famílias. Para tal, todas as atividades seguiram alguns pressupostos metodológicos determinantes:
Acolhida e amorosidade
Da mesma forma que uma família ao chegar na escola deve se sentir acolhida ao ponto de estar à vontade para permanecer e contribuir para os processos de aprendizagem, também era importante que os profissionais da rede encontrassem um espaço acolhedor, agradável e que os fizesse se sentirem valorizados.
Respeito à diversidade
Permitir que todas as ideias tivessem espaço nos encontros era fundamental para que também houvesse a oportunidade de refletir sobre o quanto as famílias também são diversas, seja na sua configuração, seja na sua visão de escola, educação, juventude, moral e família. Visões estas também diversas entre os profissionais da educação. Permitir que esta diversidade de opiniões apareça e demonstrar respeito e abertura para diálogo é o primeiro passo para que a diversidade presente também nas famílias e nos estudantes seja respeitada e acolhida na comunidade escolar.
Diálogo e parceria no território
A vulnerabilidade que afeta grande parte das famílias pobres impacta diretamente no processo de aprendizagem e no tipo de relação que o estudante e sua família terá com a escola. A compreensão das diferentes variáveis que afetam este contexto familiar implica em reconhecer o limite da ação da escola e que apenas no trabalho articulado localmente e intersetorial será possível promover resultados mais consistentes na aproximação familiar da escola. Ajudar a escola a conhecer seu território, ter novos olhares para o território, mapear e identificar parceiros e fortalecer sua capacidade de dialogar e construir localmente ações parceiras é fundamental para ampliar suas possibilidades de ação na relação com famílias.
Intersetorialidade e integração de ações públicas
Compreendendo que o contexto de vulnerabilidade das famílias é determinante para sua condição de acompanhar mais ou menos a vida escolar de seus filhos e que a escola possui limites para sua intervenção no contexto social das famílias, é imprescindível a parceria com outros atores que lidem com diferentes variáveis desta realidade.




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* Da Costa Barros
Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável CIEDS. Rio de Janeiro, Brasil

* De Souza
Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável CIEDS. Rio de Janeiro, Brasil

* Monteiro Ferreira
Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável CIEDS. Rio de Janeiro, Brasil