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Resumen de ponencia
A articulação em rede como forma de resistência popular na comunicação

*Vivian Neves Fernandes



O atual momento histórico pode ser definido como a Era da Informação, como denominado por Castells (2000), entendendo que a base das relações é estabelecida por meio da informação – produção e processamento de conhecimentos –, e que a principal forma de organizá-la é em torno de redes. E, sendo o desenvolvimento dos meios de comunicação um importante traço da modernidade, o tema das redes é fundamental para se analisar as formas de relação, organização e produção de processos comunicacionais. Nas palavras de John B. Thompson (1998): “O desenvolvimento dos meios de comunicação se entrelaçou de maneira complexa com um número de outros processos de desenvolvimento que, considerados em sua totalidade, se constituíram naquilo que hoje chamamos de ‘modernidade’” (p. 12).
É a partir desse pano de fundo que este texto se ancora para analisar como as redes, para além de estruturas de manutenção do pensamento e do poder dominantes na Economia Informacional e Global (CASTELLS, 2000), podem ser entendidas também como base para espaços de resistência e de contrainformação e contrapoder.
Para tanto, busca-se recuperar historicamente a ideia de redes, bem como a análise dos fluxos globais de informação e suas consequentes desigualdades; por fim, pretende-se apresentar a construção de resistências em processos comunicacionais por meio de redes – em específico, tomar-se-á como exemplo a Associação Latino-americana de Educação Radiofônica (ALER).
Primeiro, parte-se da obra “Sociedade em Rede”, primeiro volume da trilogia “A Era da Informação – Economia, Sociedade e Cultura” (CASTELLS, 2000), para analisar o atual período histórico, que acarretou em mudanças na produção, na organização, na interação e nas relações em sociedade. Tendo como pressuposto de que “a tecnologia é a sociedade” – que não a determina nem só responde aos seus interesses, mas que é preciso entender a sociedade à luz das ferramentas tecnológicas –, vivemos em um momento em que a Internet e suas lógicas assentam as relações sociais e de produção.
Assim, a “arquitetura de rede” da Internet, na qual não há um centro único de controle, mas milhares de nós autônomos conectados de diversas maneiras, impedindo a derrubada geral do sistema, é o que caracteriza “uma rede de comunicação horizontal global”, e que foi apropriada de diversas maneiras ao redor do mundo com diferentes usos e objetivos, tanto para continuidade da reprodução do capital quanto para resistência a esse modelo, como pelos indígenas zapatistas no Sul do México, desde os anos 1990 (CASTELLS, 2000: 26).
Na reestruturação do modo de produção capitalista, a partir do final do século XX, o novo sistema econômico e tecnológico é chamado por Castells de “capitalismo informacional”, e o modo de desenvolvimento de “informacionalismo”. Entre as características do capitalismo informacional está a de um “esforço mais decisivo a favor da desregulamentação, privatização e do desmantelamento do contrato social entre capital e trabalho” (Ibid.: 36).
Ainda que o telégrafo elétrico já possibilitasse a formação de “uma rede de comunicação, conectando o mundo em larga escala” (Ibid.: 56), Castells defende que somente a partir da década de 1970 “as novas tecnologias da informação difundiram-se amplamente, acelerando seu desenvolvimento sinérgico e convergindo em um novo paradigma” (Ibid.: 58). Desta forma, o novo paradigma da tecnologia da informação tem como uma de suas características a “lógica das redes”, que pode ser adotada em diversos tipos de processos e organizações.
Apesar disso, vale ressaltar que o processo de formação de redes de comunicação não é uma novidade da modernidade, apesar de ser nela que ocorre a sua intensificação. Antes mesmo da imprensa, como apontou Thompson, “um número de redes regulares de comunicação tinha sido estabelecido através da Europa” (1998: 63), com exemplos nas redes de comunicação da Igreja Católica, as no interior e entre os Estados modernos e as ligadas à expansão da atividade comercial; depois os serviços postais regulares e, já no início da era moderna, “o uso da imprensa na produção e disseminação de notícias” (Ibid.: 64).
Posteriormente, com as “indústrias da mídia”, nos séculos XIX e XX, que ampliam a comercialização de produtos midiáticos, com inovações técnicas que permitiam o aumento da capacidade reprodutiva e o uso da energia elétrica e de sistemas de telégrafo e transmissões radiofônicas, via ondas eletromagnéticas – o que depois vemos se acentuar com os satélites e a internet, como já trabalhado acima.
Um importante traço que foi se desenvolvendo é a globalização da comunicação, que, ainda no século XIX, adquire um caráter mais extensivo e organizado, tendo como modelo as agências internacionais de notícias. No século XX, as principais empresas do ramo “concordam em dividir o mundo em esferas de operação mutuamente exclusivas, criando assim um ordenamento multilateral de redes de comunicação que eram efetivamente globais em alcance” (THOMPSON, 1998: 139).
Ao passo que as agências de notícias controlam a circulação mundial de informação, consequentemente elas promovem um desequilíbrio no fluxo comunicacional. E, nos anos de 1970, este desnível se tornou uma questão central no âmbito da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Assim foi criada a Comissão Internacional para o Estudo dos Problemas da Comunicação, presidida por Sean MacBride e composta por intelectuais e especialistas de todo o mundo. Como resultado, foi lançado o que ficou conhecido como Relatório MacBride: “Um mundo e muitas vozes”, em 1980 (a edição brasileira data de 1983).
No documento, a comunicação é entendida como tendo um papel central na organização e na consolidação dos modos de vida e como um espaço fundamental de constituição da sociedade moderna e das relações entre indivíduos, grupos sociais e nações; além de se apresentar como um local de disputas políticas, econômicas e culturais. Logo, as desigualdades ocasionadas nesta área – em função da falta de construção democrática e de liberdade de expressão e participação – são tratadas como uma problemática interna dos países e entre as nações.
Assim, o Relatório MacBride propôs uma Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação (NOMIC) – que não foi aceita por muitos países, em especial os EUA e a Inglaterra, que se retiraram da entidade –, para que houvesse uma maior participação dos países em desenvolvimento (como os latino-americanos e africanos) no fluxo internacional da comunicação. Entre as propostas levantadas pelo relatório, estaria a de “estimular o desenvolvimento de várias formas de cooperação entre os assim chamados países do Terceiro Mundo, incluindo a expansão de novas agências regionais não alinhadas na África e em outros lugares” (THOMPSON, 1998: 141).
Como experiência latino-americana que emerge em meio a esse cenário de discussões, está a Associação Latino-americana de Educação Radiofônica (ALER), como uma articulação em rede de rádios populares na América Latina. Fundada em 1972, a ALER promove o encontro, a formação e a produção de conteúdos para e entre emissoras comunitárias, alternativas e populares da região, tendo como eixo a missão de “educar e comunicar a paixão pela vida e o compromisso com a felicidade dos povos latino-americanos” (2018).
Ao longo de sua trajetória, reafirma-se a ideia de que a Associação e suas afiliadas “seguem se alinhando explicitamente aos interesses dos setores populares” (ALER, 1996: 58). E esse caráter se acentua sob a visão de que “os meios de comunicação popular devem assumir um papel central na geração de uma nova cidadania, que assegure o aprofundamento da vida democrática na América Latina” (loc. cit.: 58).
Para alcançar seus objetivos, a ALER e suas atuais 84 rádios afiliadas, além de outras receptoras e difusoras de conteúdo, fazem uso de ferramentas de tecnologias da informação e da comunicação, por meio das quais a Associação “tem um serviço radiofônico de conexão intercontinental, cujos suportes principais são o satélite e a internet”, permitindo o acesso de centenas de milhares de ouvintes desde o México até a Patagônia argentina.
Com base nessa descrição, propõe-se compreender a ALER enquanto uma rede que possibilita a construção de narrativas e visões populares comuns entre as suas associadas, comunicadores e ouvintes de distintos países. Por meio dessa construção de trocas de notícias, informações e formações em rede, é possível fortalecer o objetivo expresso em sua linha editorial – representar os sujeitos e organizações sociais populares, que muitas vezes se encontram excluídos e com pouca visibilidade nos meios de comunicação hegemônicos.
Além disso, em rede, o rádio pode ir além do discurso localista – uma das características mais marcantes desse meio – e compor a modernidade informacional global: “De um modo fundamental, o uso dos meios de comunicação transforma a organização espacial e temporal da vida social, criando novas formas de ação e interação, e novas maneiras de exercer o poder, que não está mais ligado ao compartilhamento local comum” (THOMPSON, 1998: 14). Logo, entendendo que os meios de comunicação são fundamentais para a organização do poder em sociedade, e pode-se indicar que também o são para a construção de contrapoder e experiências populares de resistência.

ALER. Acerca de ALER. 2018. Disponível em: . Acesso em: 18 junho 2018.
ALER. Un nuevo horizonte teórico para la radio popular. Quito: ALER, 1996.
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. (A era da informação: economia, sociedade e cultura; v.1). São Paulo/SP: Editora Paz e Terra, 2000.
THOMPSON, John B. A Mídia e a modernidade: Uma teoria social da mídia. Petrópolis/RJ: Vozes, 1998.
UNESCO. Um mundo e muitas vozes – Comunicação e Informação na nossa época (Relatório MacBride). Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1983.




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* Neves Fernandes
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo ECA-USP. São Paulo, Brasil