Em 1988, mulheres do Morro do Sapé, como era e ainda é conhecido o território quilombola de Fátima localizado na cidade de Ponte Nova, no estado de Minas Gerais/Brasil, inspiradas pelos blocos afro-baianos criaram o Grupo Afro Ganga Zumba. Inicialmente o principal objetivo do grupo era afirmar e divulgar a cultura negra local por meio da dança afro-brasileira. Algum tempo depois, ampliaram o repertório de ações incorporando linguagens artísticas e culturais como o canto, percussão, congado, capoeira, confecção de estandartes, roupas e figurinos afro-referenciados, além da realização de encontros comunitários que debatiam os efeitos do racismo para a emancipação social, econômica e política da comunidade. Desde então, estas mulheres em movimento e ações coletivas compartilham e enunciam suas histórias de luta por meio de memórias ancestrais e diaspóricas trazidas ao corpo, narradas em forma de dança, canto, sons de tambores, e ensinadas à comunidade de Fátima enquanto práticas de existência, resistência coletiva e enfrentamento às diferentes formas de exploração/dominação/opressão a que são confrontadas. As mulheres de Ganga disputam a memória, a narrativa e a paisagem local. Grafam o corpo negro, e de forma especial da mulher negra quilombola, na história do Vale do Rio Piranga subalternizado pelo poder colonial desde o século XVIII. Interrogam com suas práticas artísticas e culturais a lógica subalternizante monocultural, monorracial e hetero-patriarcal, reivindicam a afirmação e o reconhecimento de suas epistemologias, corpos e práticas no espaço público. É nesse contexto que nasce a pesquisa apresentada, fruto de minha trajetória junto às mulheres de Ganga, enquanto educadora e artista popular. Há pouco mais de uma década partilhávamos uma experiência criativa enraizada nas memórias de resistência da população negra pontenovense. Nos laboratórios de criação, as experiências atravessadas pelo racismo, machismo e diferentes formas de dominação/exploração vivenciadas por nós, mulheres negras periféricas, foram evidenciadas por corpos que, ao dizer de si evocavam uma existência rizomática. Ao trazer para o meu corpo memórias de resistências que atravessam os limites do tempo/espaço e remetem a uma ancestralidade simbólica requerida, ao recriá-las no presente incorporando elementos culturais, estéticos e poéticos de uma experiência social racializada, deparei-me com a dimensão política e conturbadora das práticas artístico-culturais recriadas e ensinadas pelas mulheres de Ganga. Assim, a pesquisa em fase inicial de doutoramento pretende analisar a partir de, e com as mulheres de Ganga, os tensionamentos e deslocamentos gerados pelas práticas artístico-culturais protagonizadas e ensinadas por elas nos últimos 30 anos. A principal indagação é que epistemologias e narrativas são enunciadas através das memórias incorporadas e o que informam sobre a ação política e pedagógica destas mulheres? Pressupomos que as ações empreendidas por elas são fundamentais para compreender os desafios, as conquistas e os avanços do movimento negro e quilombola na Zona da Mata de Minas Gerais. A relevância da proposta se enraíza nas potencialidades que se abrem no campo epistêmico, político, artístico-cultural e acadêmico, a partir da recolocação no contexto atual de questões sobre o saber-fazer-sentir coletivo protagonizado por mulheres quilombolas no confronto cotidiano às colonialidades. A experiências artístico-culturais do Grupo Afro Ganga Zumba tencionam a invisibilidade produzida sobre a população negra da região, desestabilizando lugares de memória e de poder. O território quilombola de Fátima se destaca, ensina e se articula aos demais que hoje compõem uma rede de saberes dos povos quilombolas cuja uma das pautas é uma educação diferenciada, enraizada nas experiências quilombolas da região. São as mulheres de Ganga que representando uma coletividade, articularam vozes silenciadas para além de seu território, interrogaram a história cristalizada sobre quilombos e mobilizaram a participação política da comunidade vinte anos antes do reconhecimento jurídico do território, certificado pela Fundação Cultural Palmares no ano de 2007. Por meio da pesquisa participante e das contribuições dos estudos decoloniais, pós-coloniais e feministas buscaremos retomar a história do Grupo Afro Ganga Zumba a partir da escuta e reescrita de memórias orais e corporais das mulheres de Ganga. Estas memórias tencionam e desestabilizam a narrativa hegemônica que insiste em invisibilizar, silenciar e folclorizar práticas e conhecimentos produzidos ao longo de séculos de reexistência.