O presente trabalho visa trazer um breve olhar sobre os conflitos com os quais a pessoa que sofre abuso (PSA) tem de lidar ao compartilhar sobre a violência sofrida. A pesquisa do qual se originou este e outros escritos foi feita com mulheres com idade entre 18 e 38 anos, brancas e negras. No Brasil, o fato de que o número de pessoas que falam pouco, ou não falam sobre abuso sexual ser sempre maior do que o número de pessoas que falam espontaneamente sobre tal assunto evidencia a visão do abuso sexual como tabu. O receio de ser julgada, desacreditada e culpabilizada pelo abuso que sofreu (IPG, 2016, p.40) são, aqui, o suficiente para que se pense bem antes de compartilhar qualquer informação relacionada ao assunto. Dentre as razões apontadas por pesquisadores para que o registro não seja efetuado estão: temor, vergonha, sentimentos de auto responsabilização, temor em enfrentar o fato perante os tribunais, carga emocional e física da agressão e desconfiança sobre o sistema, estimando-se que o procedimento judicial é ineficaz para esclarecer os fatos e passar por eles acarreta mais danos do que benefícios.” (IPG, 2013, p. 3)
É de suma importância afirmar que violências categorizadas como sexuais carregam consigo não só a dimensão física mas também moral. A dimensão física pode deixar marcas visíveis ou não, sendo que a partir destas marcas, por vezes, pode ser incontestável, que é o caso de estupros e outros tipos de abuso que deixam ferimentos graves. É nela que os processos jurídicos mais se baseiam, transformando marcas em provas. Já a dimensão moral não é contemplada da mesma forma pois por conta de sua imaterialidade muitas vezes não é concebida. Como reparar uma agressão psicológica? Como, juridicamente, diminuir danos a algo de caráter imaterial? As respostas para tais questões não estão ao alcance do judiciário, sendo necessário primeiro um processo de amparo que se inicia no âmbito intrafamiliar e posteriormente em um acolhimento que se dá em esfera pública com auxílio, inclusive, do judiciário. Muitas PSAs procuram primeiro alguém próximo, geralmente da família, para contar sobre as violências sofridas. Não como denúncia, mas para suprir a necessidade de compartilhar, de ser escutada, de falar. Deste primeiro contato, a pessoa que recebeu a informação conta para os outros integrantes da família ou incentiva a própria PSA a contar, o que vai despertar uma série de conversas e discussões sobre o que aconteceu que podem ser feitas perante ou não a PSA. Diante disso, quais são as ações da família posteriormente?
Depois dos conflitos gerados pela informação, o assunto pode ser dado como encerrado, e a probabilidade deste caso ser notificado é quase nulo. Uma outra possibilidade, dentre muitas, é a família dar importância ao aspecto moral da violência, logo, se tornando o principal núcleo de incentivo a notificação. Para observarmos essas possibilidades se fez necessário de minha parte a definição de quatro categorias. São elas: Reação, Amparo, Negação, Apagamento.
Primeiro quando falo de reação me refiro a miscelânea de sentimentos que os indivíduos do grupo intrafamiliar expressam verbal e corporalmente quando recebem o relato, exemplos comuns de reação são; negação, choro, indignação, discussões, acusações e desentendimentos, que nem sempre incluem um diálogo com a PSA. Determino amparo o auxílio, apoio e ajuda prestada a PSA, por exemplo, credibilizar e ouvir o relato, dar afeto e atenção à PSA, se mobilizar para encontrar uma solução que minimize os danos causados à PSA. A negação, é a não aceitação de que o relato é real, é a recusa de acreditar que a violência aconteceu ou que o agressor é quem a PSA diz ser, é negação que vai mover o grupo a produzir o apagamento.
Em seu trabalho sobre etnicidade e cultura (Barth, 2007) Frederick Barth discorre sobre apagamento e silenciamento das experiências pessoais que fujam do modelo cultural de determinado grupo. No presente trabalho muno-me destas duas categorias analíticas para definir determinadas ações da família da PSA que sucedem a um supostamente esquecimento sobre o abuso. Evitar falar sobre o ocorrido, discutir sempre que o assunto surgir, e repreender a PSA sempre que falar sobre o que passou são aparelhos ativos na produção do apagamento. Se a família não der abertura para o compartilhamento de detalhes, a PSA será a única a ter informações exatas e específicas, que por conseguinte, para evitar conflitos ela guarda para si, e com o passar dos anos este silenciamento implícito produz gradativamente o apagamento.
A importância de ouvir e credibilizar a PSA se dá justamente por ser uma expressão de reconhecimento e manifestação de consideração. Perceber a falta destas coisas e a produção de silenciamento e apagamento como uma produção de sofrimento, e portanto, uma agressão, é também explicitar a necessidade de reparação. Convido-lhes a observar algo. Uma de minhas interlocutoras, em entrevista, me disse: “ Eu só queria que minha mãe tivesse acreditado em mim ”; tal frase pode ser usada como exemplo de uma necessidade de expressão de reconhecimento. O vazio presente no lugar onde supostamente estaria o amparo, é preenchido então pelo sofrimento e pelo silenciamento, que é implícito em sua maior parte pois não é sempre verbalmente posto que não se deve falar sobre o assunto. O mais comum é a família simplesmente parar de falar sobre, como se realmente não houvesse acontecido, e com o tempo a própria PSA se policía a não
tocar no assunto, produzindo, desde o início o sofrimento, e a longo prazo, o apagamento.
O Amparo é o que todas as pessoas esperam receber. É o que acreditamos que toda família pratica ao saber que qualquer forma de violência aconteceu com um membro de seu grupo. Porém a realidade brasileira expressa o oposto. A negação, o apagamento e o silenciamento produzem na pessoa que sofreu ou que sofre abuso sensações de dor e sofrimento inferindo diretamente em sua saúde psicológica dentre outros prejuízos. Observar a descredibilização que ocorre em muitos casos como uma forma de produção de dor e sofrimento é de extrema importância para começarmos a (re)pensar formas de acolher essas pessoas em hospitais, delegacias e outros órgãos públicos, e colaborarmos para sua recuperação física, moral e psicológica.
Referências Bibliográficas:
Frederick Barth - Etnicidade e o conceito de cultura in antropolítica : revista contemporânea de antropologia e ciência
política . Universidade Federal Fluminese , 2005 Editora EdUFF.
Instituto Patrícia Galvão. Dossiê Violência contra a mulher. Disponível em http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/dossie/. Acesso em 05/07/17
KÜBLER-ROSS, Elizabeth. Sobre a Morte e o Morrer: o que os doentes terminais têm para ensinar a médicos, enfermeiras, religiosos e aos próprios parentes. São Paulo: Martins Fontes,2008.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Notificação de violências interpessoais e autoprovocadas. Brasília (DF): 2017
MINISTÉRIO DOS DIREITOS HUMANOS. Balanço das Denúncias de Violações de Direitos Humanos. Disponível em: http://www.sdh.gov.br/disque100/balanco-2016-completo