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Resumen de ponencia
Representação da Sexualidade no Novo Cinema Pernambucano

*Diôgo Souza Lima



Após o fechamento da Empresa Brasileira de Filmes Sociedade Anônima, Embrafilme, que tinha a função de fomentar a produção e distribuição de filmes brasileiros, em 1990, a produção cinematográfica não só pernambucana, mas nacional sofreu uma grande crise. O filme considerado marco da retomada do cinema de Pernambuco após esse período é Baile Perfumado, de 1997, dos diretores Lírio Ferreira e Paulo Caldas, que conta a história de um fotógrafo que conseguiu se aproximar do grupo de Lampião e filmá-lo pelo sertão. Desde então, houve um aumento no número de obras produzidas no Estado de Pernambuco, que atualmente, é o terceiro polo cinematográfico brasileiro, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro e São Paulo, segundo informações do Centro Cultural Banco do Brasil.
Surge então o Novo Cinema Pernambucano, abrangendo desde a retomada até a produção hodierna. Essa denominação, pode ser tomada para efeito de pesquisa devido ao fato deste cinema apresentar semelhanças significativas em suas formas representacionais, pois a questão da tradição/modernidade perpassa as obras fílmicas da retomada do cinema no estado de Pernambuco. Isso não resulta em homogeneidade quanto a temas e estilos cinematográficos dos diversos diretores implicados na criação deste “novo cinema”.
Levando-se em consideração essa problemática, esse estudo pretende-se uma análise da estética sociológica das obras ficcionais Tatuagem (Hilton Lacerda, 2013) e Baixio das bestas (Cláudio Assis, 2007). Os dois filmes, integrantes do Novo Cinema Pernambucano, apresentam uma carga de discussão muito forte acerca da sexualidade, dessa forma, esse estudo busca compreender a representação de comportamentos sexuais em conflito com padrões estabelecidos e a repressão da sexualidade nas obras citadas. A questão norteadora deste cinema, a do questionamento das relações patriarcais diante da emergência da modernidade, tanto em termos culturais quanto econômicos, encontram-se fortemente presentes nas obras a serem estudadas, ao interporem rural e urbano, repressão e liberdade.
Os filmes escolhidos serão analisados a partir da formulação de estética sociológica de Roger Bastide, partindo do entendimento da arte enquanto produto do social, e que mesmo os gênios, para criarem, partem do que já existe no social. Bastide afirma que as obras de arte só são possíveis e só vivem através das representações coletivas. O artista só poderá criar quando, de alguma maneira, se encontrar possuído do entusiasmo e da fé coletiva. O autor afirma que como a arte tem raízes sociológicas, torna-se por sua vez documento e técnica de análise e auxilia o sociólogo, mais do que qualquer outra abordagem, a penetrar nos aspectos os mais difíceis e obscuros do social. Para o artista, o exterior é o meio e o momento em que vive, é a civilização à qual pertence, e suas ideias não poderão deixar de exprimir esse contexto. Theodor Adorno aponta que a arte cria uma outra realidade a partir do mundo, a arte é criação e enquanto tal traz elementos próprios que não podem imediatamente nos reconduzir a realidade, a não ser de forma mediatizada, a representação fílmica se dá como recriação do mundo pelo cineasta, de forma que se unificam elementos subjetivos do indivíduo que cria o filme e elementos objetivos que estão dados na sociedade. Assim o filme aponta para o mundo que lhe é exterior e permite refletir sobre ele, mas ao mesmo tempo é uma criação nova que se impõe a este mundo.
A técnica utilizada para a análise dos filmes será a découpage, citada por autores como Marcel Martin (2013), Ismail Xavier (2008), Jacques Aumont e Michel Marie (2004), que consiste na fragmentação de cenas para uma análise mais detalhada, e no seu reagrupamento a posteriori para uma continuidade da análise e interpretação do todo.
O filme Baixio das bestas foi lançado em 2007, com direção de Cláudio Assis. A exploração, prostituição, dominação, incesto, entre outros temas se desenrolam em cenas quase explícitas na história de Auxiliadora, uma jovem, menor de idade, explorada por seu avô, Heitor, que a exibe nua todas as noites, em troca de dinheiro, no posto de gasolina de um pequeno povoado da Zona da Mata pernambucana, onde moram os personagens, mas a mantém presa em casa durante o dia, obrigando-a a realizar todas as atividades domesticas. Na cidade, Cícero, um jovem pertencente a uma conhecida família local, e seu amigo Everardo, promovem orgias violentas na casa de Dona Margarida, onde moram as prostitutas do povoado. Cícero sente atração por Auxiliadora, ao passo que Maninho, um trabalhador humilde, é apaixonado pela jovem, mas precisa enfrentar o avô dominador que não deixa a neta ter contato com nenhum homem. As vidas de todos se entrelaçam em um drama sobre a condição da mulher naquela região.
Baixio das bestas nos permite analisar ao mesmo tempo as classes mais abastadas de um Pernambuco urbanizado e as classes mais desprivilegiadas de uma localidade ainda extremamente rural, e a relação entre essas classes auxilia o desenvolvimento da narrativa. Além de elaborar representações das expressões de sexualidade nesse contexto social.
Já Tatuagem conta com roteiro e direção de Hilton Lacerda, foi lançado em 2013. A obra nos leva para a Recife de 1978, período de ditadura militar no Brasil. A trupe teatral Chão de Estrelas, um grupo de artistas que provoca o poder e a moral estabelecida com seus espetáculos e interferências públicas em shows repletos de ironia e nudez, indo de encontro à moralidade da época, ensaiam resistência política a partir do deboche e da anarquia e conta com um tradicional público de homossexuais. Clécio Wanderley é o líder da trupe e mantém um relacionamento conturbado com Paulete, estrela da equipe. O jovem interiorano Fininha, apelido do soldado Arlindo Araújo de 18 anos, que presta serviço militar obrigatório na cidade, é namorado da irmã de Paulete, ao visitá-lo, se encanta com o universo criado pelo Chão de Estrelas e se sente atraído por Clécio. Logo, iniciam um relacionamento, que o coloca em um paradoxo: ao mesmo tempo em que faz parte do exército que reprime o Chão de Estrelas, ele é também quase um integrante do grupo, e precisa lidar com a repressão existente na sociedade e no próprio meio militar no qual está inserido. A obra faz uma bela discussão acerca da repressão e da censura, situados especificamente na ditadura militar, perpassando por conteúdos artísticos, pela liberdade sexual, etc.
Partindo do entendimento que o corpo é simultaneamente biológico e social, uma vez que as sociedades moldam os corpos de acordo com suas necessidades, desenvolve-se também na sociedade interdições às práticas sexuais que não estejam adequadas aos seus padrões dominantes. Isto acarreta sanções para os que estão à margem das normas, essas sanções podem compreender desde a violência simbólica até interdições da liberdade ou mesmo o suplício físico. Por outro lado, há indivíduos e grupos sociais que desafiam as formas de representação e práticas que conformam o corpo ao padrão dominante, buscando vivencia-lo de forma alternativa. Considero, ao mesmo tempo, ser necessário compreender o papel da repressão sexual na civilização e, no caso específico desse objeto de estudo, como o cinema a refigura, por isso a crítica de Marcuse à categoria da repressão sexual em Freud, nos permite pensar os limites impostos ao exercício da sexualidade e um horizonte de uma sexualidade mais livre.




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* Souza Lima
Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais - Universidade Federal da Bahia PPGCS - UFBa. Salvador, Brasil