Pesquisas de opinião pública, nos últimos anos, já apresentavam indícios de instabilidade política nos regimes democráticos da América Latina, uma vez que os cidadãos apresentam baixa identificação com os partidos políticos, uma crescente desconfiança da população com relação as instituições políticas e um desinteresse dos mesmos com a participação política (MOISÉS, 2002 e 2010; GONZÁLEZ, 2016). Tal instabilidade era argumentada na medida em que se considera que a presença de atitudes políticas que possibilitem o sentido de eficácia dos governos democráticos é fundamental para funcionamento das próprias democracias. O que pode se agravar quando atitudes democráticas de desconfiança, satisfação com os regimes podem diminuir o apoio democrático entre as gerações mais jovens.
Almond e Verba (1965) argumentam que a cultura cívica possui os elementos necessários para o desenvolvimento das democracias. Isso porque sua característica central provém de uma congruência entre as atitudes e os comportamentos dos cidadãos, caracterizado por orientações culturais participativas. Desta forma, a existência desta cultura cívica evidencia atitudes que permitiriam a consolidação de estruturas de mediação política, organizando as reivindicações políticas da população. Nesse sentido, Almond e Verba, destacam que é através do processo de Socialização Política em que ocorre a formação dos componentes que irão definir a cultura política das próximas gerações, entre eles, valores democráticos, atitudes políticas, participação política e sofisticação política (CONVERSE, 1964; CASTRO, 1994; BORBA, 2005; ALMOND e VERBA, 1965; BAQUERO e GONZÁLEZ, 2011). Nesse processo, atuam quatro agências que possibilitam essa transmissão, apontadas como as principais pela teoria clássica de socialização política, a família, a escola, a mídia e os grupos de referências (ALMOND, VERBA, 1963).
Mcleod (2000) alertou que o processo de socialização política atual recebe uma influência muito grande da mídia, o que aponta para a importância de considerar os novos meios de comunicação e as redes de amigos no processo de socialização. Assim, a autora recomenda que sejam pesquisas as combinações de agencias de socialização política, e não somente suas ações isoladas. Thompson e Hickey (2005), argumentam que as novas tecnologias agem de forma diferente dos outros meios de socialização terciários – televisão e outros agentes de mídia, como rádio, jornais e etc. –, isto porque as novas tecnologias não favorecem transmissão de informações, pelo contrário isolam ainda mais o indivíduo. Entretanto, ainda pouco se sabe sobre a influências das novas mídias no processo de socialização dos indivíduos jovens.
As pesquisas que introduzem o conceito de socialização política no campo da ciência política foram produzidas em grande medida nos Estados Unidos dentro da perspectiva culturalista (HYMAN, 1959; EASTON, 1965; DENNIS, 1971, SIEGUEL, 1989, ALMOND et. al, 2008). No Brasil, pesquisas sobre o processo de socialização política são realizadas desde os anos 1990 (BAQUERO, 1997 e 2016; SCHMIDT, 2001, LUCAS, 2003; NAZZARI, 2003; CUNHA, 2005; SILVEIRA, 2005, FUKS, 2012). Tais estudos possuem como foco apenas as agências de socialização políticas tradicionais, e ainda são escassos os conhecimentos a respeito do impacto que tais redes sociais podem gerar na formação das atitudes democráticas dos indivíduos jovens.
Neste trabalho, apresenta-se os resultados de uma pesquisa sobre processo de socialização política em duas regiões bastante distintas economicamente, tendo como parâmetro desigualdades econômicas e sociais presentes no Índice de Desenvolvimento Humano. As análises são comparativas entre as duas regiões, a fim de compreender o processo de socialização política com relação as atitudes políticas desses jovens. Considerando-se, principalmente, o impacto do uso das redes sociais sobre as predisposições políticas democráticas, e tendo como variável interveniente a condição econômica desses jovens.
Apresenta-se como hipótese que as atitudes políticas desses jovens são influenciadas pela condição de vida disponível pela sua condição econômica. Assim, tende a ser de apatia política entre os moradores das cidades mais pobres, enquanto os alunos moradores das cidades mais ricas possuem atitudes políticas mais congruentes com uma cultura política com atitudes em prol da democracia. A fim de atingir os objetivos deste trabalho construiu-se pesquisa amostral entre os alunos do Ensino Médio dessas duas regiões.