Bastante controverso, o nome de Alejandro Jodorowsky está sempre associado a grandes polêmicas no mundo cinematográfico. Desde o lançamento de seu primeiro longa-metragem Fando y Lis (1967), as peculiaridades de seu trabalho chamaram atenção do público e da crítica. A polivalência do diretor que permeia pelas distintas linguagens artísticas é outro elemento que chama atenção em sua obra. Alejandro Jodorowsky iniciou a carreira como poeta em Santiago (Chile) em meados dos anos 40, depois veio a tornar-se também mímico, ator, diretor de teatro, músico, escritor, diretor de cinema, escritor de revistas em quadrinhos e guru espiritual.
Insatisfeito com os rumos políticos e a perseguição que artistas sofriam no Chile durante a ditadura de Carlos Ibañez, Jodorowsky muda-se para Paris. Inicialmente atua sobre a égide do movimento surrealista, mas juntamente com outros artistas funda um coletivo denominado Movimento Pânico (Mouvement panique), cujo nome faz menção ao deus grego Pã. O Movimento Pânico se propunha a fazer performances que chocassem o público e criassem o caos quebrando a passividade dos espectadores, através da realização de atos sexuais, iconoclastas e a utilização de animais vivos e mortos.
Sob a ótica do Movimento Pânico, Jodorowsky desenvolveu peças de teatro e filmes que tiveram importante repercussão no circuito alternativo de cinema. Nos anos 90, resolve abandonar o cinema devido às dificuldades em conseguir financiamento para suas produções. Então, dedica-se à elaboração de revistas em quadrinhos e tarologia. O filme A dança da realidade (2013) marca o retorno do cineasta após um hiato de vinte e três anos e anuncia uma produção diferente de tudo que o diretor já havia feito. Nessa obra há uma ruptura com alguns elementos da estética do Movimento Pânico. Ao observar filmes anteriores são perceptíveis diferenças nas “relações” que o cineasta constrói com o público. Inicialmente, produzia um tipo de cinema cuja estética estava associada ao grotesco, com o intuito de causar um choque no público. Assim, ele apresenta uma preocupação maior com um encantamento estético que com o choque. Nesse sentido, o presente trabalho se insere no campo da sociologia da arte e tem por objetivo analisar como são representados procedimentos de repressão social no contexto do Chile dos anos 1930/1940, no filme A dança da realidade (2013).
É importante salientar que apesar de enquadrar-se no escopo do cinema da América Latina, na obra a ser estudada, Jodorowsky produz um cinema mágico, que carrega particularidades frente à produção contemporânea de outros diretores latino-americanos.
Durante os anos 1930, período, aproximadamente, em que se passa o filme, o Chile passou por anos bastante conturbados politicamente. Durante o final dos anos 1920, o país vivia um grande crescimento econômico. Em 1927, Carlos Ibañez del Campo assume provisoriamente a presidência após Emiliano Larraín renunciar. No mesmo ano é candidato único ao cargo e é eleito. Segundo Luz e Lira (2013) ele era considerado bastante autoritário e repressivo, perseguia seus opositores e restringiu as liberdades democráticas como, a de imprensa que passou a ser vigiada. A economia chilena era baseada em exportações de comodities como cobre e nitrato. Com o crash da Bolsa de Valores de Nova York em 1929 foi fortemente atingido pela Crise econômica de 1929 e viveu uma grave depressão.
De acordo com Blakemore (2002), o país passou a ter uma grande taxa de desemprego, corte nos salários dos servidores públicos e fim de programas e direitos sociais. Grandes manifestações começaram a ocorrer contra as medidas de austeridade do governo. Em resposta a isso, Ibañez aumentou a repressão, o controle da imprensa, prisão e tortura de seus opositores. Em julho de 1931, estudantes da Universidad de Chile tomam a casa central desta, iniciam uma greve geral estudantil que possui grande apoio popular e desencadeia mais protestos no país. Poucos dias após esse incidente Carlos Ibañez del Campo é obrigado a renunciar e vai se exilar na Argentina.
Com direção e roteiro de Alejandro Jodorowsky, o filme A Dança da Realidade (La Danza de la Realidad), foi lançado em 2013 no Festival de Cannes. Esta película marcou o retorno de Jodorowsky ao cinema após um intervalo de vinte e três anos sem produzir filmes. Ele é a primeira parte do projeto do cineasta de elaboração de uma série de cinco filmes que irão contar a estória de sua vida.
A trama se desenvolve em Tocopilla, pequena cidade no interior do Chile em meados dos anos 1930, e retrata a infância conturbada da personagem Alejandro. A forte crise econômica que o país estava submerso serve de plano de fundo para retratar problemas políticos, sociais e familiares. “Alejandrito” vive em um lar conflituoso onde ele e sua mãe, Sara, são reféns do autoritarismo e repressão de Jaime (pai). A película apresenta o processo de descobertas, os principais “embates” da infância de Alejandro e as dificuldades dele em superá-las. Destaca-se a interlocução entre o jovem Alejandro (Herskovits) e sua versão madura (o próprio Jodorowsky) nestes momentos conflituosos. Outro elemento que tem destaque na obra é a repressão imposta por Jaime a Alejandro para que se enquadre em um “padrão de comportamento” da masculinidade.
O foco da trama muda quando apresenta a trajetória de Jaime para tentar assassinar o presidente Carlos Ibañez del Campo. Neste momento a história do Chile e a vida pessoal do cineasta se entrelaçam. Ao longo da “jornada” de Jaime, entram em cena, como uma crítica à atuação do partido comunista (o qual este era dirigente), sobre hipocrisia da Igreja católica e a representação autoritarismo do governo, demonstrada pela tortura a qual Jaime é submetido após protestar contra este. São abordados através de alegorias e representações mágicas problemas sociais do contexto chileno, como a pobreza, os mineiros mutilados e os atingidos pela “peste negra”.
A presente análise fundamenta-se nas teorias sociológica, estética e do cinema. Constrói-se uma metodologia que compreenda o filme a partir de suas características intrínsecas, englobando a percepção do mundo que é apresentada a partir da forma cinematográfica. Segundo Casseti e Di Chio (1998) podem-se utilizar os instrumentos da sociologia, enfrentando o filme como uma representação “mais ou menos completa” do mundo em que atuamos, como um espelho e, ao mesmo tempo, como um modelo do social. No âmbito da técnica de análise, aplica-se a decupágem (découpage).
Parte-se da definição de Casseti e Di Chio (1998), entendendo a análise como um conjunto de operações aplicadas em um determinado objeto e consistente em sua decomposição e sua posterior recomposição, para melhor identificar os componentes, arquitetura, movimentos, dinâmicas, dentre outros, ou seja, os princípios de construção e operação do cinema. Essa análise e interpretação da obra, além de ser embasada em referências de técnicas cinematográficas, utiliza autores da sociologia que debatam as temáticas a serem observadas e pesquisadas.
Não obstante, além da análise estética e técnica da película, acrescenta-se também a inserção social do filme, o que significa compreender os elementos exteriores, como o contexto de elaboração da obra e as perspectivas ideológicas que são expressas nela. Nesse sentido, é proposta a contextualização a partir uma análise histórica, as críticas de arte acerca da obra, entrevistas com diretor e outras informações que possibilitem esse processo. Salienta-se que esses elementos externos são importantes, mas não determinantes sobre a obra.