A epígrafe “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”, de Ensaio sobre a Cegueira (2003) remete ao ideário essencial da produção de Saramago, que, por artística, é também política: o chamamento para consciência humana, para enxergar os problemas da sociedade como eles realmente são, e então trabalhar para consertá-los, transformá-los. Esta mesma ideia pode ser lida de forma ainda mais explícita na epígrafe da História do Cerco de Lisboa (1989), que diz: “Enquanto não alcançares a verdade, não poderás corrigi-la. Porém, se não a corrigires, não a alcançarás. Entretanto, não te resignes.” Assim, antes de tudo, a literatura de José Saramago (1922-2010) pode ser entendida como provocante, na acepção mais própria de significado da palavra, que é o de trazer para fora, deslocar, fazer mover em direção contrária.
As fórmulas jornalísticas, por sua vez, tendem a tornar o discurso da mídia hegemônica cada vez mais monológico, a despeito das estratégias de interatividade com o espectador/leitor/ouvinte, que são responsáveis, segundo Adorno e Horkheimer (1985) pela falsa sensação de escolha que se tem diante dos produtos da Indústria Cultural que são na verdade, fruto de uma mesma coisa.
Um país marcado por um golpe institucional contra uma presidenta legitimamente eleita e pela prisão sem prova de crime do maior líder popular do país, em que a mídia vem atuando ao arrepio da opinião pública ao apoiar um governo ilegítimo e com índices históricos de desaprovação popular. Este apoio vem, senão diretamente como foi no caso da Reforma da Previdência, por meio do silêncio a respeito da volta do Brasil ao Mapa da Fome ou do aumento das taxas de mortalidade infantil que vinham em decréscimo há duas décadas. Sobre a violência e a corrupção enquanto dois dos principais problemas do país no momento, o tratamento maniqueísta e superficial dos temas, dá abertura para propostas que flertam com o totalitarismo.
Ao reconhecermos este intertexto que a obra e a vida do autor tem com as questões da comunicação, assumimos como objetivo deste trabalho, considerar a visão alegórica que Saramago constrói da mídia em seus romances e os apontamentos que este autor fez a respeito do tema como aporte para refletirmos sobre a realidade que se impõe ao cenário atual, em particular o brasileiro, que, visto como destroçado, torna-se terreno fértil para uma leitura crítica por meio de alegoria.
Nas pesquisas biográficas e bibliográficas, é possível perceber que há uma presença constante da figura da mídia na obra Saramaguiana, de um viés crítico: é analisada como um agente de manutenção do poder e status quo elitista, principalmente no Ensaio sobre a Lucidez, no qual, nas primeiras páginas da narração, Saramago (2004) utiliza o arquétipo do jornalista para transpor a voz desesperada e aturdida da classe política perante a onda de votos em branco que saía das urnas; em Ensaio sobre a Cegueira, o rádio, que o cego da venda consegue levar para dentro do manicomio onde ficaram segregados os primeiros acometidos da cegueira branca por ordem dos governantes que posteriormente também seriam acometidos do mesmo mal, aparece como único elo dos cegos com o real que se desfaz rapidamente tanto pelo fato de o aparelho ser a pilha quanto porque os locutores ficaram todos eles também cegos; em Levantado do Chão, por outro lado, Saramago alude à força transformadora e revolucionária da comunicação contrahegemonica e ao medo dos poderosos em relação à aquisição de informação pelo povo por meio da metáfora fabulosa de uma lebre que, por curiosa em ler as notícias num jornal, acaba caindo naquilo que era uma armadilha.
Neste sentido, é válido ressaltar que sob a aparência de uma mídia diversa, o que o Brasil tem, na verdade é uma mídia que carece de pluralidade, já que são cinco famílias da elite tradicional direitista que estão no comando dos meios de comunicação.Frente à gravidade dessas questões, urge a necessidade de se estabelecer outras formas de diálogo no campo das mídias, que levem a novas compreensões quanto a problemáticas essenciais como a da democracia.
Notamos, nesse sentido, que para Habermas (1984, p. 44), “a esfera pública política provém da literária; ela intermedeia, através da opinião pública, o Estado e as necessidades da sociedade ”e, em um contexto como o brasileiro atual, cujo debate público se pauta sobretudo virtualmente e caracteriza-se pelo empobrecimento do discurso, reduzido À manifestação de ódio, se faz necessária uma reflexão de natureza estética, como a que propomos a partir de Williams (1979).
Em obras como Levantado do Chão (1996), ele nos convida a acompanhar a história de um povo campesino que, sob o mando dos grandes donos de fazendas, blindados pelo poder público e pela Igreja, se levanta contra as injustiças que impunham a eles a fome, o frio e a privação da terra e do trabalho; na Cegueira, o mal branco que acomete a visão de todas as pessoas num lugar indeterminado é desencadeador do caos e da barbárie; na Lucidez o convite provocante é para que imaginemos uma eleição cuja maioria dos votos depositados nas urnas é que está em branco. Com sua profícua obra, Saramago convida a uma reflexão sobre o humano por meio das figuras que sua linguagem poderosa evoca.
A trajetória de José Saramago o inscreve na história do século XXI como uma relevante voz do debate público em torno das questões relacionadas ao exercício efetivo da cidadania, aos direitos humanos, à defesa da cultura, da justiça social e democracia, que fez-se ouvir mediante uma atuação habilidosa nos meios de comunicação, usados como plataforma de exposição de suas ideias. Pautado por uma visão de mundo avessa ao neoliberalismo econômico e crítico feroz da alienação dos cidadãos do processo político no atual modelo democrático “representativo”, Saramago assumiu posições hoje impossíveis de serem descoladas da sua obra, esta impossível de ser descolada da própria condição humana como parte da literatura universal que intermedeia nossa relação com a construção simbólica do real e nos faz reconhecer.
É certo que o campo midiático tem lugar privilegiado nas buscas dos diversos grupos de interesse por espaços que fomentem a construção de discursos ideológicos, convertendo-se, para Habermas (1984), numa arena de disputas políticas por poder. Essas disputas, no entanto, tornaram-se desiguais na inexorável dualidade classista que marca as sociedades capitalistas, ficando clara a desproporcional correlação de forças entre as camadas populares e os conglomerados de comunicação. Uma mídia como a brasileira formada num contexto ditatorial e o jornalismo oriundo dessa mídia, financiado pela publicidade das grandes empresas interfere de forma premeditada no debate público, comprometida com a ideologia dominante (CHAUÍ,2008). Em paralelo, com as inovações tecnológicas que marcam o ambiente comunicacional desde a virada dos séculos 20 para o 21, especialmente no que se refere ao advento das mídias sociais, redimensionou-se a exclusividade da produção de conteúdo informativo das mãos das grandes corporações, com os coletivos de mídia alternativa provocando uma ruptura no ciclo tradicional pelo qual a notícia era processada e publicitada à sociedade. Inserem-se no debate público novas formas ideológicas de tratar os dados da realidade, novas vozes proferem suas ideias no diálogo público. As minorias, historicamente silenciadas pela mídia tradicional brasileira imbricada com valores conservadores das elites, vão à luta por visibilidade, reconhecimento e representatividade nesse novo campo midiático, servindo-se das facilidades técnicas trazidas pelo desenvolvimento da tecnologia, como a Mídia Ninja e os Jornalistas Livres. No entanto, o público médio brasileiro que não está na internet, anda tem na televisão e no rádio seus principais meios de acesso a informação.
Hoje configura-se como pauta essencial da defesa dos Direitos Humanos as crescentes reinvindicações dos diversos movimentos sociais em pressão pela regulamentação dos meios de comunicação de modo a promover a pluralidade e diversidade na mídia brasileira a partir do novo governo que se avizinha, caso os processos democráticos ocorram normalmente, descentralizando o poderio da comunicação para outros grupos sociais. Pode ser o caminho para erguermos do chão um sentido nacional perdido entre mentiras e não-ditos.
A garantia do acesso democrático à comunicação, no sentido de radicalização da democracia que Saramago propõe, nos parece uma via pela qual deve-se empreender a luta pela ocupação dos espaços de poder. A promoção de um novo discurso, a ampliação das vozes, os microfones para vozes silenciadas têm a possibilidade de redimensionar o discurso em torno da luta pelos direitos humanos, do tratamento das questões políticas e do exercício da cidadania no Brasil e no mundo. Se temos um avanço assustador do conservadorismo, expresso na via social, pela via religiosa e pela via política, e pela via institucional, e, isso pode estar refletido numa mídia que muito pouco espaço abriu para uma abordagem dialógica e plural, que fosse transformadora dessa realidade em direção à mediação de soluções comuns para problemáticas que nos afligem a todos.
Referencias:
ADORNO, T; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro; Zahar, 1985
MEDINA, Cremilda de Araújo. Entrevista- o diálogo possível. 1ed. Série Princípios. Ática. São Paulo:1989.
HABERMAS, J. Mudança Estrutural na Esfera Pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984
CHAUÍ, MARILENA. O que é Ideologia. 2 ed. Brasiliense: Coleção Primeiros Passos. São Paulo: 2008
SARAMAGO, José. Ensaio sobre a Cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
_. Ensaio sobre a Lucidez. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
__. Levantado do Chão. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
__. História do Cerco de Lisboa. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
WILLIAMS, R. Marxismo e Literatura. Trad. de W. Dutra. Zahar Editores Rio de Janeiro: 1979