Um ponto de partida fundamental para a compreensão da relação entre as ideias que permeiam a sociedade, o papel dos intelectuais e de como ambos se relacionam com a esfera política, é o primeiro tópico: o papel e o poder da ideia. Disso surge algumas indagações. A primeira delas seria se “ideia” possui importância na sociedade. Neste sentido, o posicionamento ideológico do intelectual é um fator relevante? As ideias possuem um papel importante, pois elas têm uma influência relevante no processo decisório escolhido pelos atores políticos, tal como “manobreiros que determinam os trilhos pelos quais a ação é impulsionada pela dinâmica dos interesses” (WEBER, 1981, p.280, apud PERISSINOTO; MICHELLI, 2017). Esse modo de interpretar a sociedade valoriza as pesquisas que buscam compreender a relação entre ideia e poder, valorizando o papel do indivíduo dentro da instituição, em oposição às interpretações do institucionalismo, que por sua vez interpreta que os valores institucionais possuem um papel determinante na construção dos valores do indivíduo. Se as ideias são valiosas, pois influenciam aqueles que detêm o poder decisório, sendo consideradas recurso vital na política, logo serão objeto de intensa disputa em nossa sociedade. De modo que as ideias são utilizadas em processos decisórios como armas ou instrumento de luta e convencimento, buscando legitimar decisões, posicionamentos, bem como visando afetar a credibilidade de posições opostas. As ideias, portanto, dependem dos aspectos culturais vigentes na sociedade para ganharem espaço e repercutirem, como valores políticos, religiosos e outros, que se alteram com o decorrer da história, de modo que ideias que em um período não encontravam condições apropriadas para crescer, podem encontrar um ambiente mais propício em outros momentos.
Um modelo de instituição que busca atuar no processo de consolidação de uma ideia na sociedade é os think tanks. O termo advém da esfera militar, significando centros de reflexão ou locais de discussões estratégicas sobre questões vitais (BARBOSA, 2016). Esse modelo institucional pode ser separado em três áreas de atuação: governamental, científico e ideológico. A dificuldade de se estudar esse modelo institucional reside no fato de que essas distinções se entrelaçam na realidade, principalmente os think tanks científicos e ideológicos, pois ambos se utilizam do discurso cientifico para defender uma interpretação da realidade.
Os think tanks começaram a ganhar força entre as décadas de 50 e 60, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos da América (RICH, 2004; TEIXEIRA, 2007). Nos primeiros anos, seu modelo institucional indicava seus objetivos, atuando de maneira a encontrar soluções para os problemas sociais que permeavam a sociedade. Portanto, havia um comprometimento público em busca de solução para os problemas sociais, tanto aqueles que eram atrelados ao Estado, quanto aqueles de originários da sociedade civil. Para Teixeira (2007), os think tanks são agrupamentos privados, que se dedicam a pensar e produzir ideias, de modo separado da administração pública, congregando pensadores das mais diversas origens – em especial, os intelectuais oriundos da esfera acadêmica. A relação entre os think tanks e as instituições de ensino é de extrema importância, devido ao fato de que a qualidade e a legitimidade da produção dos mesmos sempre estão atreladas à verdade científica como legitimadora do próprio discurso. É devido a essa importância que Teixeira (2007), chama a atenção para a utilização da verdade cientifica pelos think tanks, pois esta possui o poder de produzir sua própria verificação, caso consigam impor a crença coletiva e criar, por sua virtude mobilizadora, as condições de sua própria realização. Além da utilização da verdade científica, os think tanks dependem de outro fator para que possam atingir seus objetivos: o processo democrático. Pois a existência dos mesmos supõe a existência de um regime democrático, sendo que, por levar em conta a visão de diferentes setores organizados da sociedade sobre o tema em pauta, há maior legitimidade das decisões de um dado governo, quando esse se baseia nos conhecimentos produzidos pelos institutos. Portanto, acabam utilizando de dois fatores que tornam sua produção legitimada pela sociedade: a verdade científica e o processo democrático, pois suas produções estarão pautadas em ambos parâmetros. Outro fator relevante para a legitimação da produção de um think tank se refere ao papel dos intelectuais nessas instituições, pois, como aponta Rich (2004), estão entre os mais ouvidos e lidos da atualidade. As instituições catalisadoras de ideias e os intelectuais possuem uma relação de retroalimentação de legitimidade, onde os intelectuais acabam funcionando como ferramenta para legitimar ideias, ao dar prestígio a uma determinada instituição e, serem, enfim, aqueles que funcionam como gateskeppers . Esse processo de legitimação da instituição através dos grandes intelectuais que a ocupam possui, também, um efeito reverso, onde a instituição, já detentora de certa legitimidade, alcançada a partir da utilização da razão científica, do processo democrático e a partir dos próprios intelectuais já consagrados, atua como legitimadora de novos intelectuais. Esse processo pode ser comparado com uma espécie de “fábrica de intelectuais”, onde intelectuais consagrados legitimam instituições, sendo que estas, por sua vez, em um segundo momento legitimam novos intelectuais. Esse modelo de instituição possui meios para atingir seus objetivos, alguns sendo comuns a várias instituições, mas é importante ressaltar que cada uma delas se adapta à realidade na qual estão inseridas, pois cada sociedade e cada tempo criará condições para certas ideias e certas abordagens. Desse modo, cada think tank é diferente e único. Para criar um fluxo de ideia, essas centrais geram novos pensamentos e interpretações, treinando peritos para atuarem no governo, oferecendo opções de política, bem como um lugar alternativo de debate e de criação de ideias, educando os cidadãos sobre o mundo e fornecendo mediação para partes em conflito, agindo, muitas vezes, onde o próprio governo não poderia agir. Para Abelson (2006) os think tanks podem atuar na validação de projetos, programas e governos, atuando a partir de citações na mídia e, inclusive, com presença na mesma, com publicações, depoimentos no Congresso (como ocorre nos Estados Unidos da América), consultoria direta às agências oficiais, ou através da composição de cargos preenchidos nos governos.Devido à atuação dos think tanks, principalmente em território americano , é possível afirmar que “gastar com think tanks e seus intelectuais é a forma mais fácil, econômica, discreta e sem aborrecimento de produzir e espalhar suas ideias” (TEIXEIRA, 2007, p. 144). Ainda mais devido ao fato de que esse modelo de instituição, quando não possui vinculo financeiro com o Estado, é enquadrado junto com instituições de cunho beneficente, religioso, educacional, cientifico, literário e dentre outras, de modo que possuem isenção fiscal, o que contribui para os recursos disponíveis. Devido a essa disposição legal, aqueles que financiam os think tanks são classificados como doadores, sendo que estes recebem tax credit, como aborda Teixeira (2007, p. 155), o que constitui mais um dos motivos positivos para contribuição daqueles que desejam financiar esse modelo de instituição. Para se conferir uma noção sobre o impacto dos think tanks na política americana, em 1997 foram doados mais de US$ 79,2 milhões para a construção e fortalecimento de uma ampla rede de think tanks neoconservadores, dos quais US$ 64 milhões foram para instituições com foco nas questões domésticas e US$ 15,2 milhões para aquelas voltadas para os interesses de Segurança Nacional, Política Externa e negócios globais; foram doados US$ 9,3 milhões para apoiar uma rede de think tanks locais e estaduais. Em outro estudo , dessa vez com recorte temporal entre 1999 e 2001, as doações totalizaram US$ 252 milhões, feitas por 79 fundações conservadores para 350 organizações políticas sem fins lucrativos, sendo que desse valor, 46% das doações se destinaram a think tanks. Esses números só expõem que a atuação dos think tanks tem chamado a atenção daqueles que desejam atuar em conjunto com essas instituições, envolvendo um alto capital para que possam atingir seus objetivos.
O presente trabalho busca compreender a atuação dos Instituto Millenium (IMIL), think tank ideológico brasileiro, que se auto intitula um think tank defensor dos valores liberais, de modo que se busca expor o seu modo de atuação na sociedade brasileira, quais meios institucionais se utiliza para atingir seus objetivos, tanto da defesa dos valores almejados, como na formação de quadros de intelectuais. Um enfoque maior é feito na análise da atuação desse think tank na temática da educação, onde é analisado quais são os valores educacionais defendido pelo Instituto Millenium, quem são os intelectuais que atuam nesse tema e seu background educacional e profissional e quais são os meios midiáticos que disseminam a produção do IMIL, observando sua relação com as instituições financiadores do think tank.