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Resumen de ponencia
Florestan Fernandes, marxista

*Keila Carvalho



As relações contraditórias que Florestan Fernandes estabeleceu ao longo de sua longa trajetória foram repensadas num momento tardio, quando também realizou um balanço dos mais de trinta anos de sua atuação como intelectual e sociólogo. Neste trabalho, não tenho a pretensão de apresentar, com absoluta exatidão teórica, o sentido do pensamento sociológico de Fernandes, menos ainda de esgotar a experiência biográfica desse sociólogo. O objetivo proposto consiste em resgatar as inflexões presentes na trajetória biográfica e sociológica de Florestan Fernandes em direção à sua adesão ao marxismo e a legitimação, no interior da ciências sociais brasileiras, de uma “sociologia crítica e militante” que combinou um novo discurso teórico e uma nova prática política de resistência.
Para desenvolver o sentido da sociologia crítica e militante de Fernandes, resgato alguns traços fundamentais que condensam, de forma contundente, as orientações gerais que o autor vai considerar nesse último momento de sua trajetória – o isolamento da vida universitária em decorrência da aposentaria compulsória e a (re)construção de novas vias de comunicação e de engajamento com um público amplo, que vai perdurar até o final de sua vida.
A sociologia crítica e militante de Fernandes parte de uma nova relação que o autor estabeleceu entre a sociologia e o socialismo. O conhecimento sociológico passa a ser entendido não como uma força sociocultural em si mesma, mas como parte da história em processo, convertendo-se em força ativa a partir do momento em que orienta grupos e classes sociais, por meio das teorias e categorias de pensamento, em direção à prática política explicitamente revolucionária. Ao mesmo tempo, não faria sentido que, nessa acepção, a sociologia se restringisse ao enquadramento institucional, limitada aos muros da universidade, mas sim que se orientasse para romper as barreiras e propiciasse novas formas de comunicação com a sociedade.
Ou seja, a fim de evitar um radicalismo intelectualista que beira a “fabulação”, o sociólogo precisa acompanhar, no plano teórico, os delineamentos, no terreno da prática, por grupos e classes sociais. Isso significa que não existiria mais espaço para “confiar na democracia” ou “lutar pela revolução nacional” nos termos de uma reforma dentro da ordem burguesa. Dito de outro modo, Fernandes busca apontar um deslocamento em relação aos referenciais que fundamentaram sua teoria sociólogica anterior, devedores, especialmente, de Karl Mannheim.
O horizonte democrático da sociedade burguesa no Brasil foi desacreditado por Fernandes na medida em que o golpe de 1964 fechou o espaço político na forma de uma “autocracia burguesa” e inviabilizou os papéis que o autor outrora havia demarcado para os intelectuais, particularmente os sociólogos. Restava a Fernandes, portanto, repensar o horizonte político e demarcar novas tarefas. A sociologia crítica e militante – identificando o socialismo como horizonte político – deveria se debruçar sobre a necessidade e a possibilidade de uma revolução nos quadros de um capitalismo periférico e dependente. Essas perspectivas resultaram na impossibilidade de compatibilizar, politicamente, capitalismo e democracia.
Em setembro de 1964, em virtude de um inquérito policial-militar instaurado na Universidade de São Paulo (USP), Fernandes foi convocado para depor e permaneceu preso por alguns dias. Em decorrência do processo inquisitório que sofrera, Fernandes se afastou do país e ocupou o cargo de professor visitante na Universidade de Columbia entre 1965 e 1966. Retornando ao Brasil e à USP, Fernandes participou ativamente do movimento universitário contra o golpe, até que teve decretada, por força do Ato Institucional n. 5, sua aposentaria compulsória em 1969, permanecendo fora do país até 1972. Foi nessa ocasião, na Universidade de Toronto, que Fernandes se reconheceu assumidamente um sociólogo marxista, em uma tentativa de reverter a sobreposição de papéis e condensar o sociólogo e o socialista em sua pessoa. Florestan Fernandes retornou ao Brasil em fins de 1972 e foi, nesse momento, que concluiu a redação final de A revolução burguesa no Brasil.
Em Florestan, a ruptura institucional com a USP, que reverberou em uma “crise psicológica”, representou posteriormente um afastamento da figura do sociólogo profissional em direção a um envolvimento mais estreito da sociologia engajada. Com a formulação de sua “sociologia crítica e militante”, o sociólogo brasileiro se esforçou para realizar uma unidade possível entre sociologia e revolução ou, em outros termos, entre conhecimento do mundo e sua transformação. Talvez resida aí o elemento fundamental que ajuda a amparar seu engajamento: no escopo de sua teoria sociológica, Fernandes considerou a agência dos indivíduos e o papel positivo de criação política do engajamento.
Em um momento tardio da trajetória de Fernandes, o horizonte político socialista passa a ser entendido como alternativa histórica, ou seja, não deve ser meramente descartado se não for realizado no curto ou no médio prazo. O que pretendo demonstrar é que, no caso do sociólogo brasileiro, existe uma teoria sobre o engajamento público dos sociólogos no interior de sua sociologia crítica e militante. Entretanto, os resultados das reflexões revelam que Fernandes justificou seu engajamento “tardio”, bem como as “abstinências” anteriores, com um viés determinista, esvaziando o conteúdo das ações e escolhas em favor da determinação das condições sociais que, segundo ele, eram desfavoráveis ao engajamento público vinculado a uma perspectiva política de revolução “fora da ordem”.
A trajetória intelectual e biográfica de Florestan Fernandes esteve diretamente associada à sua inserção nos espaços da universidade. O afastamento das atividades de militância no Partido Socialista Revolucionário (PSR), em início dos anos 1950, esteve relacionado à sua dedicação integral à vida acadêmica e à ocupação sucessiva de espaços de notoriedade na estrutura hierárquica da USP. Do mesmo modo, Fernandes só se retirou da universidade após ter sido cassado e privado de seus direitos universitários, com a aposentadoria compulsória amparada pelo Ato Institucional n. 5 do regime civil-militar. A perseguição política a Fernandes, com interrogatórios, prisão, expatriação, inclusive, foi justificada pelas recusas de colaboração direta com o regime e pelas lutas que estava travando, cabe destacar, no interior da academia, e não fora dela. A ruptura dos vínculos institucionais e orgânicos com a universidade esteve relacionada, por seu turno, ao engajamento na vida política e a uma adesão aberta ao marxismo. Em que medida essas movimentações denunciam certo “reboquismo” em relação à academia, especialmente à USP, é uma questão a ser examinada.
Ao mesmo tempo, busco demonstrar que as posições e perspectivas de classe que Fernandes adota não são entendidas como o produto final de uma “evolução” biográfica, mas sim como processos dessas trajetórias. As análises sugerem que essas perspectivas e posições foram “materializadas” nos seus engajamentos públicos, que se tornam especialmente visíveis a partir de um contexto profundo de crise social – compreendendo tal contexto como mecanismo “detonador” desse engajamento. Esse é o panorama que descortinou a “sociologia crítica e militante” de Fernandes em seus diferentes matizes.
Estudos recorrentes sobre as condições intelectuais costumam demonstrar que momentos de crise das formas e relações sociais, muitas vezes relacionados a derrotas políticas e culturais, são propícios ao questionamento do intelectual sobre o mundo e ao autoquestionamento do intelectual sobre sua própria condição. Além do caso exemplar de Émile Zola por ocasião do processo contra Alfred Dreyfus, podemos nos referir também a Antonio Gramsci e a ascensão do fascismo na Itália, a Theodor Adorno e o nazismo na Alemanha, e a Jean-Paul Sartre durante a Segunda Guerra Mundial. Florestan Fernandes realizou, especialmente em uma fase tardia, seus questionamentos e autoquestionamentos da condição intelectual também a partir de um momento crítico de sua existência social, que se tornou parte constitutiva de sua própria trajetória. Florestan estive imerso em períodos de crise e de redefinições societárias que certamente o atingiu na forma de lidar com a teoria sociológica e com a prática política. Essas questões apareceram narradas com intensidade em ocasiões em que Fernandes se deteve com mais afinco à autoanálise. É interessante observar como essas transformações societárias condicionaram diferentes tipos de sociologia, aliados ao núcleo fundamental de suas formulações sociológicas, que estiveram, com mais ou menos intensidade, relacionadas ao enfrentamento político e público dessas contingências históricas.
O enraizamento desse debate no interior da teoria social contempoânea está apoiado em uma compreensão de um aprofundamento do “profissionalismo”, no sentido que buscamos resgatar de Edward Said. Esse processo, de ordem mais geral, está relacionado com a formação e a atuação de intelectuais desvinculados da intervenção pública. Embora reconheçamos essa tradição na sociologia brasileira, seria inadequado caracterizar o atual estado da sociologia no país tão somente em função de seu passado – ainda que não seja tão longínquo. Desse modo, não podemos fechar os olhos para o fato de a sociologia contemporânea ser marcada por certa “profissionalização” e descolamento entre a produção sociológica e o engajamento público, o que torna o debate em torno desse tema profícuo para os caminhos da sociologia não somente no Brasil, mas em outros países.




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* Carvalho
Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca CEFET-RJ. Rio de Janeiro, Brasil