Nos anos 1960 e 1970, a produção de mercadorias sofreu mudanças que pareciam apontar para a redução massiva do trabalho industrial, ocasionando o fim das sociedades fundadas no trabalho. Esta aparente redução do trabalho, sobretudo em países do norte ocidental, inflamou os debates sociológicos no sentido da caracterização da sociedade pós-industrial, um tipo de sociedade que seria estruturalmente distinto da sociedade industrial baseada no trabalho manual-fabril e que surgiria como alternativa societária.
No entanto, nos últimos anos, vemos um tipo de organização da produção e dos serviços que, em vez de fundamentar novos modelos de sociedade, parece reproduzir a lógica capitalista de produção de mercadorias, ao reorganizar as bases de exploração do trabalho.
Quais seriam estas novas formas de organização da produção, do trabalho e tecnológicas que em um só movimento inovaram e ao mesmo tempo conservaram a estrutura social capitalista? Para procurar responder a esta indagação se mostra necessário compreender o que há de novo no que se refere à produção, ao trabalho, à gerência e ao controle do trabalho, bem como em relação às formas de organização política dos trabalhadores e de vida dentro e fora do ambiente de trabalho que surgem exatamente por conta da difusão da novas tecnologias da informação e comunicação (NTICs) e da internet.
Além disso, analisar criticamente como se estrutura a produção e o trabalho imaterial (intangível) impõe. entretanto, um cotejamento com a produção material (tangível). Isto é, entender quais seriam as peculiaridades da produção imaterial remete a um cotejamento com a produção material no sentido de compreendermos como, dentro da lógica capitalista de produção e reprodução sociais, as novas formas de organização do trabalho poderiam ser realmente descritas como balizadoras de uma nova era social. Isto é, é preciso, do ponto de vista do trabalho concreto, diferenciar o trabalho do programador de software do trabalho do operário da indústria de agronegócios; o trabalho da digitadora do trabalho do ferramenteiro da fábrica de carros; o trabalho do teleoperador do trabalho da operária das indústrias de eletrodomésticos e da operária da indústria têxtil. O programador, a digitadora, e o teleoperador, operam com matérias-primas e meios de produção intangíveis, isto é, o conhecimento, a informação e a comunicação; enquanto, de outro, o operário agrícola, o ferramenteiro, a operária da indústria de eletrodomésticos e a operária da indústria têxtil operam a terra, máquinas de cultivo, ferramentas físicas e máquinas, ou seja, matérias-primas e meios de produção tangíveis.
Procurando aprofundar a discussão sobre a produção e o trabalho imaterial, sobretudo, de como são organizados os coletivos de trabalho para sua exploração, temos como objetivo desta comunicação, analisar as condições de trabalho de duas categorias profissionais inseridas no universo da produção imaterial.
Partindo de uma comparação entre os desenvolvedores de software e dos teleatendentes, discutiremos em que medida o trabalho imaterial rompe ou não com preceitos antigos à produção e, sobretudo, à gerência capitalista do trabalho tais como o controle sobre o trabalho e sobre a autonomia do trabalhador, as formas de (des)estímulo à participação nas decisões, os contrastes entre rigidez e flexibilidade produtiva e a relação entre os tempos de trabalho e não trabalho. Nesse sentido, procuraremos analisar particularmente as “metodologias ágeis” de organização do trabalho, tais como o Lean, o Agile, o Scrum e o Extreme Programming os contrastando com as formas de organização típicas dos call centers, baseadas no script (roteiro). Estes dispositivos de organização dos processos de trabalho são comumente definidos da seguinte forma: LEAN (Gestão inspirada em práticas e resultados do Sistema Toyota, caracteriza-se por uma estrutura de processo onde há uma tentativa de minimizar o risco e o desperdício. AGILE: (Gestão repetitiva, focada na diminuição do tempo de trabalho, que permite construir um produto passo a passo e por peças). SCRUM: (Método de trabalho repetitivo sintetizado por um conjunto de práticas, papéis, designações, comandos e regras projetados para orientar a equipe na execução do projeto).
Nesse sentido, objetivamos compreender as particularidades deste tipo de produção tanto no Brasil quando fora dele, problematizando dentre outros temas, as seguintes questões: 1. Como novas ocupações produtivas impactam na organização do trabalho? 2. O que há de novo nas formas de trabalho virtuais quando analisamos o tempo de trabalho? E, por fim, 3. O que há de atual nas formas de gerência e controle do trabalho na produção imaterial?