Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
Camponeses e Comunistas no Brasil: a Conferência dos Flagelados (Ceará, 1953)

*Frederico De Castro Neves



As relações entre as organizações de orientação comunista e o campesinato foram consideradas pela historiografia como marcadas pelo preconceito e pela subordinação. Segundo as concepções clássicas da esquerda, frequentemente reproduzidas pela historiografia, os camponeses não teriam como desenvolver uma mentalidade revolucionária e deveriam ser politicamente subordinados às instituições operárias, caracteristicamente proletárias e urbanas, como o BOC (Bloco Operário Camponês). No entanto, os estudos historiográficos tem demonstrado que a experiência desenvolvida por militantes comunistas, em sua prática cotidiana (buscando espaços de legitimação entre os setores populares), permite uma aproximação com as lutas e com as formas peculiares de consciência política dos camponeses, ampliando a atuação das instituições influenciadas por comunistas no sentido da construção de práticas políticas novas e originais, contradizendo muitas vezes a orientação da direção partidária, em momentos específicos da luta política e das contradições próprias da vida partidária. No Ceará, essa aproximação foi possível nos anos seguintes à abertura política com a queda do Estado Novo (1945), quando o Partido Comunista foi legalizado e sua militância partiu em busca de possibilidades de atuação política e social entre as camadas populares. O jornal O Democrata, como órgão de divulgação e formação da orientação comunista, nestes anos, constituiu-se, assim, em instrumento de veiculação dos interesses e das opções dessa militância e, para o historiador, na principal fonte para o exame dessas práticas. Por meio da análise de suas matérias, podemos perceber o investimento político realizado pelos comunistas na região norte do estado, inclusive por conta de uma tradição já consolidada de lutas no porto de Camocim, desde 1930, que possivelmente se ampliou para outras cidades próximas. Em Itapagé, por exemplo, as denúncias se multiplicam, tanto no que diz respeito à corrupção entre os políticos e autoridades locais, como também enfatizando as lutas e problemas dos homens do campo. A necessidade de uma reforma agrária, assim como problemas no controle das águas dos açudes locais, predominam entre as matérias do jornal, que, assim, constrói e dá visibilidade a um canal de diálogo entre a militância comunista e os camponeses locais. Nos anos iniciais da década de 1950, com a seca que se manifestou no estado, a presença dos militantes comunistas se intensificou, inclusive no apoio às ações diretas de ocupação da prefeitura local e na negociação com autoridades para obtenção de alimentos e postos de trabalho. Em dezembro de 1953, uma Conferência da Seca e dos Flagelados foi organizada na capital do estado, Fortaleza, com o objetivo de debater e propor mecanismos de amenização ou solução dos problemas enfrentados pelos camponeses em momentos de seca. Possivelmente idealizada e organizada pelos comunistas, a conferência reuniu cerca de 400 delegados escolhidos em assembleias realizadas nas cidades do interior ou nos locais de trabalho ou representantes de sindicatos e associações populares. Contudo, a imprensa local desconheceu o evento e sua importância. Somente o jornal O Democrata noticiou o fato. O objetivo dessa comunicação é examinar os significados dessa Conferência no contexto das relações entre comunistas e camponeses, em momentos específicos de calamidade pública, como as secas. De um lado, é possível investigar a organização da Conferência em seus aspectos práticos: os mecanismos políticos de escolha dos representantes entre os “flagelados” e seus resultados – as propostas surgidas após os debates como propostas para melhoria das condições de vida dos homens do campo. De outro lado, pode-se indagar sobre o lugar dessa conferência no interior do grande programa de realização de uma “Conferência Nacional pela Emancipação”, bandeira encampada pelos jornais comunistas de todo o país, a ser realizada nos meses iniciais de 1954. Mesmo clandestina, essa conferência nacional visava a articulação de uma proposta ampla de (re)direcionamento das campanhas de esquerda para a solução dos problemas nacionais e para a formação de um grande programa de lutas em direção a uma revolução nacional e popular, no contexto internacional das lutas anti-imperialistas e de posicionamento diante da Guerra Fria.




......................

* De Castro Neves
Universidade Federal do Ceará UFC. Fortaleza, Brasil