O Wallmapu (território Mapuche) está doente. Ele sofre de uma modalidade de bruxaria pela qual os Mapuche são cada vez mais vitimados: o awinkamiento. Esse fenômeno consiste num processo de perda de controle sobre si, sobre o que se é e sobre o que se pensa, levando ao conflito e à divisão dos grupos de parentesco e das comunidades territoriais. Ao mesmo tempo, o awinkamiento corresponde a qualquer prática que esteja associada a um devir winka (não Mapuche; chileno). Se não devidamente tratada, a vítima de awinkamiento terá dois destinos possíveis: tornar-se um wekufe, um espírito perigoso, ou um winka.
Os wekufe mobilizados no awinkamiento têm suas origens no colonialismo e no nacionalismo chileno. Para interromper o controle do wekufe sobre a pessoa, deve-se realizar um ritual xamânico de cura. Executado pela machi (xamã), é nele que ela recolocará os termos da História e participará da diplomacia cósmica que lhe permite combater e negociar com os espíritos coloniais, possibilitando ao Mapuche doente recobrar o controle sobre si mesmo e evitando, assim, seu devir winka ou wekufe.
Encarando o xamanismo mapuche como uma forma de ação ameríndia, um tipo de política cuja a intenção seria tanto a de curar os corpos Mapuche do awinkamiento, e através deles, por contiguidade, o território em si mesmo, quanto a de fazer perceptível quem são os Mapuche, trataremos de buscar o modo em que a política xamânica é capaz de extrair e eliminar os princípios e as potências coloniais que os impede o winka de humanizar o mapuche. Tal leitura se centra, portanto, num tipo de “pacificação do branco” que passaria por uma política da “contra-” ou da “antimestiçagem”. É sobre os termos de um esquema de pensamento e um índice produtor de efeitos que esta comunicação se coloca, indicando uma intersecção entre o poder ritual, o regime de pensamento e a produção poético-estética para pensarmos a analogia entre xamanismo e descolonização.
Se o xamanismo Mapuche é “bom para curar” a bruxaria de tipo awinkamiento, a intenção desta comunicação é encará-lo como uma plataforma “boa para pensar” a subversão do binarismo estático entre colonizador e colonizado, isto é, como uma medida de descolonização. Ao passo em que posiciona a questão pós-colonial não unicamente em termos extensivos, de diferenças externas e fixas, mas internalizáveis, as categorias nativas de “bruxaria” e “xamanismo” se tornam vetores para que com elas pensemos os efeitos persistentes do colonialismo que, entre outras coisas, consistiria na internalização e incorporação do conflito colonial. Pretende-se explorar e especular, através do material etnográfico disponível, a possibilidade cosmopolítica de subverter o colonialismo como uma força de captura, devoração e transformação de almas, corpos e territórios nativos.
Na constante reconstituição desse processo com fins cosmopolíticos, as machi assumem um papel fundamental: elas são as responsáveis por recolocarem as condições históricas que estão no âmago das relações com o Estado e a sociedade chilena, por um lado, e do ser e pensar como Mapuche, por outro. Isso corresponde a uma ação política ameríndia que não obedece e nem supõe as divisões ontológicas entre natureza, sociedade e sobrenatureza. Trata-se, antes, de uma cosmopolítica: a multiversalidade das esferas do conhecimento e do ser que decorrem da pluralidade de entidades que habitam o mundo e que, apesar de nem sempre convergentes, podem dialogar e negociar diplomaticamente. A cosmopolítica trata de um alargamento e de uma desestabilização da noção clássica e estadocêntrica de política e, no âmbito das pesquisas etnológicas, indica a articulação entre esferas como a fabricação corporal, o xamanismo e a relação com os Estados e as sociedades nacionais, entre muitas outras coisas, como constituintes de um mesmo domínio.
Em especial, o xamanismo ameríndio aparece como uma instância de mediação através da qual se opera a diplomacia cósmica. As xamãs são as mestras do esquematismo cósmico e, sendo responsáveis por administrar “perspectivas cruzadas, estão sempre aí para tornar sensíveis os conceitos ou inteligíveis as instituições” (Viveiros de Castro). Em mundos marcados pelo potencial da transformação, isso diz respeito à interpenetração entre o “eu” e o “outro” em relações de subjetividades pronominais. Nos termos de Tânia Stolze Lima, é justamente a interpenetração aquilo que permite a emergência da virtualidade que está no “eu”, virando-o pelo avesso. Assim, o xamanismo é, entre outras coisas, uma tecnologia que faz sensível ao “outro” o ponto de vista do “eu”: uma interlocução ativa no diálogo entre diferentes que, através da tradução, transforma a própria diferença. Por tradução entendemos aqui o nexo geral e sintético entre integração, intermediação, desencadeamento e similares.
Essa tradutibilidade potencial é que faz com que os fenômenos equívocos (1) “o Estado chileno coloniza os territórios ao sul do Biobío” e (2) “Wallmapu sofre de awinkamiento” possam ser transpostos para o um campo equívoco e político de ação e produção em que o um se atualiza na virtualidade do outro.
Tendo em vista que o xamanismo é uma ação produtiva estética, poética e performática, então esses campos são eminentemente políticos mas de uma política de e para a diferença. É neste sentido que nos preocupa a produção relacional que se desdobra da política xamânica do pós-colonial. Há que perguntar-se com o que se preocupam e o que esperam os Mapuche ao produzirem metaforizações xamânicas. Em termos equívocos, podemos especular, poderia se tratar de uma descolonização por via do sensível; uma desestabilização da matriz colonial através da estética e da poética cosmopolítica do xamanismo. Pensada através das operações xamânicas, a proposta é explorar a “cura” do conflito pós-colonial em chave nativa, isto é, adentrar nas teorias nativas do Estado e do colonialismo para entender como se opera e o que faz um xamanismo “contra o Estado”. Em suma, interessa compreender o conflito pós-colonial através do pensamento xamânico.