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Resumen de ponencia
Como os assassinatos de lésbicas são veiculados em dois grandes portais de notícia online?

*Camila Bonin Liebgott



O presente trabalho pretende discorrer sobre os objetivos, a metodologia, os procedimentos adotados e os resultados de uma pesquisa cujo propósito foi analisar, de maneira quali/quantitativa, como são veiculadas notícias sobre lésbicas em dois portais da internet – G1, portal de notícias online da rede Globo, e R7, portal da Rede Record. Foram selecionadas matérias divulgadas entre janeiro de 2016 e outubro de 2017. A escolha desses dois veículos de comunicação se deu pela popularidade, pelo fácil acesso e pela repercussão das matérias, já que pertencem a grandes corporações de telecomunicação do país que contribuem para a construção do imaginário social no que se refere à lesbofobia e à morte de mulheres lésbicas. Aliado a este procedimento, realizou-se também uma busca de dados divulgados no site “Lesbocídio – as histórias que ninguém conta”, projeto que resgata, em diversos portais da internet sem grande divulgação, informações e histórias de lésbicas assassinadas especialmente no Brasil. Como base teórica, recorre-se ao conceito de lesbofobia em estudos de Lorenzo (2012), que afirma ser a lesbofobia uma construção cultural que funciona como o mecanismo político de opressão, dominação e subordinação das lésbicas na nossa sociedade e que implica em uma especificidade vivida pelas mulheres lésbicas, visto que essas sofrem uma dupla opressão – o machismo e a homofobia. O conceito é central na produção deste trabalho, uma vez que essa forma de opressão afeta apenas lésbicas, impactando sobre a sobrevivência e qualidade de vida dessas mulheres. Por este motivo, defende-se, no presente estudo, que a lesbofobia é a causa de alguns dos assassinatos de lésbicas. Para sustentar as análises de materiais jornalísticos, foram úteis as pesquisas sobre comunicação e mídia relacionadas à comunidade LGBT, especialmente Auad e Lahni (2013), Junior e Costa (2015), Ouverney-King e Filha (2015) e Leal e Carvalho (2012). A metodologia do trabalho envolveu uma primeira pesquisa exploratória utilizando quatro palavras-chave, sendo estas: “lésbicas”, “morte-homofobia”, “casal-namoradas” e “casal-lésbicas”. A busca resultou em cerca de 200 notícias para cada uma das palavras-chave no portal G1 e aproximadamente 100 no R7. Ao ler as notícias, observou-se que em nenhuma o termo lesbofobia foi empregado explicitamente. Além disso, foram encontradas poucas matérias sobre assassinatos de lésbicas, demonstrando que a maioria das mortes é invisibilizada. Como o propósito da pesquisa era analisar notícias sobre os assassinatos de lésbicas, recorreu-se ao site Lesbocídio. Assim, uma segunda pesquisa exploratória envolveu a coleta dos nomes de todas as que foram assassinadas entre janeiro de 2016 e outubro de 2017 constantes no referido site. Em seguida essa lista de nomes foi buscada nos portais G1 e R7 para a observação de quantas foram noticiadas e a maneira como isso foi feito pelos dois veículos. Constatou-se que um número muito reduzido de nomes apareceu nos portais, em comparação ao número divulgado no Lesbocídio. A última parte da metodologia envolveu a seleção de uma notícia relacionada a cada morte encontrada, totalizando 26 notícias. As informações foram sistematizadas em um quadro-síntese contendo o primeiro nome da vítima, título da manchete, data de publicação e veículo. Para a análise aprofundada das matérias reunidas, foram realizadas leituras e, posteriormente, construídos eixos analíticos. Os resultados mostram que os portais citados utilizam duas estratégias principais para veicularem os assassinatos de mulheres lésbicas: a primeira diz respeito a minimizar a sexualidade da vítima com o apagamento de termos como “lésbica” ou “lesbofobia” e a segunda estratégia consiste em colocar sob suspeita a conduta da vítima, por meio de comentários sobre passagem pela polícia, formas de reação e atividades ilícitas, por exemplo. Foi possível observar, ainda, que apenas em uma das notícias (no site G1) há o uso da palavra “lésbica”, mesmo todas as vítimas sendo mulheres lésbicas.




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* Bonin Liebgott
Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS. Porto Alegre, Brasil