Neste artigo tenho como objetivo discutir as atividades desenvolvidas pelo Levante Popular da Juventude (LPJ) no Estado do Ceará/Brasil, que têm contribuído no processo de inclusão social e de cidadania dos jovens que compõem o Movimento. Dentro dos movimentos sociais ou mesmo nos coletivos de juventude os jovens têm encontrado um espaço para construir outros valores, outros modos de agenciamento e de produção da vida em sociedade.
Esse trabalho é resultado de um pequeno recorte de uma pesquisa de Doutorado que se encontra em curso (2015 – 2019), no Programa de Pós-graduação em Educação Brasileira da Universidade Federal do Ceará (UFC). O trabalho de natureza etnográfica acompanhou o itinerário de um Movimento Social de Juventude denominado de Levante Popular da Juventude (LPJ) no Estado do Ceará, utilizando-se de técnicas de observação, entrevistas e o registro de diário de campo.
O LPJ se identifica como Movimento social, uma organização da juventude. No ano de 2006 esse Movimento começou a ser pensado pelos movimentos populares da via campesina composto pelo: Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e a Consulta Popular (CP). Nesse sentido, o Levante surge a partir de outros movimentos que reconhecem a necessidade de se organizar e construir um movimento de juventude, com e para a juventude brasileira.
As condições de opressão, de violência e exclusão vivenciadas pelos jovens pobres, negros, de baixa escolaridade têm permitido a percepção de que as pessoas em suas condições de negação de direitos podem, não apenas serem exploradas ou vítimas da dominação, mas também serem portadoras de uma capacidade de indignação e resistência popular às condições estruturais impostas pela lógica hegemônica (MELUCCI, 2001; ZIBECHI, 2015).
Dessa forma, organizados e em coletivo os jovens são criadores de novas formas de interação no interior das condições estruturais em que estão inseridos e realizam resistência de novo tipo, elaborada pela capacidade de organização em seus territórios, em que a dimensão cultural e simbólica ganha centralidade.
Gohn (2012, p. 19), define os movimentos sociais como fenômenos históricos decorrentes das lutas sociais, sujeitos a mudanças estruturais e conjunturais da sociedade civil e política, nessa medida, eles se transformam e não podem serem vistos como organizações estanques, fixas.
Segundo Abers e Bulow (2011, p. 53) os movimentos sociais têm sido compreendidos nas últimas três décadas “como uma forma de ação coletiva sustentada, a partir da qual atores que compartilham identidades ou solidariedades enfrentam estruturas sociais ou práticas culturais dominantes”.
As primeiras atividades realizadas, no sentido de fundar, efetivamente, o LPJ tem início em 2005, com a participação de um pequeno grupo de pessoas ligadas a Pastoral da Juventude Rural e ao MST. Este grupo inicia as primeiras experiências de organização da juventude nas periferias de Porto Alegre/RS, a partir da realização de encontros, reuniões e trazendo os problemas vivenciados pela juventude como centro da discussão. O nome, Levante Popular da Juventude, surge de modo espontâneo, durante a apresentação da proposta do Movimento em uma escola na periferia de Porto Alegre, no Morro de Santa Tereza.
Nossos jovens eram muito ligados as pastorais e construíram o Levante muito no sentido de dialogar com aquela juventude e construir um instrumento alternativo de vida mesmo. E aí foram feitas várias iniciativas lá em Porto Alegre. Tanto na questão do hip-hop, como na questão da cultura, da dança e ai foi uma coisa que deu bastante certo o Levante no Rio Grande do Sul, porque parte do acúmulo nosso campo tinha, mas a gente precisava construir um instrumento de juventude de novo tipo (MIGUEL, LPJ, 2017).
O LPJ está organizado a partir de três frentes: a Territorial, a Camponesa e a Estudantil. A Juventude Territorial é constituída por jovens da periferia, das favelas, por estudantes secundaristas e da classe trabalhadora. A Frente Estudantil é constituída pelos jovens universitários e a Frente Territorial, formada pelos jovens do campo, do meio rural. Atualmente, o LPJ está presente em 26 Estados do Brasil, mais o Distrito Federal. O modelo organizativo acontece por células, que são grupos que se formam em cada umas das frentes e nesses espaços estudam e discutem as questões de cada território.
A concepção de juventude defendida no trabalho é de que não existe propriamente uma juventude, mas várias, definidas e caracterizadas de acordo com as vivências, situações e identidades sociais. Assim é preciso considerar que “juventude” é noção produtora de sentidos e contribui para o estabelecimento de representações sociais (BOURDIEU, 1983).
“Eis por que abordamos expressamente a multiplicidade das concepções de vida, no âmbito dessa geração, e não uma característica universal da geral” (WALTER, 1968, p. 23). Por isso, pensar a juventude exige compreender seus múltiplos condicionamentos e pertencimentos: sociais, culturais, econômicos, sexuais, étnicos, de gênero, temporais e espaciais/territoriais, portanto, a juventude é uma categoria relacional, complexa, heterogênea e múltipla (PAIS, 2003; GROPPO, 2000;).
Segundo Dayrell (2003) os/as jovens são sujeitos ativos, que agem no/sobre o mundo, e nessa ação se produzem e, ao mesmo tempo, são produzidos no conjunto das relações sociais no qual se inserem. Dentro desse conjunto de relações, podemos destacar os agrupamentos juvenis. As experiências que os jovens adquirem dentro dos grupos também são anunciadas por eles como de grande importância para suas vidas, para conhecerem a si mesmos, suas habilidades, potencialidades e, acima de tudo, como uma oportunidade de enxergar novas possiblidades dentro do coletivo.
Com isso, a dimensão da cidadania também é retomada de modo que por meio da resistência, dos afetos e das ocupações em espaços públicos tragam o sentido de pertencimento a cidade, e a importância dos jovens como sujeitos que buscam autonomia e modos de participação mais horizontalizados e democráticos. A Cidadania, portanto está associada a noção de ter direitos, não se limitando aos aspectos já previstos em lei, mas também inclui a criação de novas políticas públicas e na participação ativa dos sujeitos (DAGNINO, 2004).
Nesse caminhar fui compreendendo que sempre haverá os que resistem e de diversas formas. Grupos sociais em que a esperança sobrepuja o medo, a opressão, o vazio em meio ao caos urbano e a inexistência de um Estado como regulador da sociedade, onde a realidade passa também a ser o campo de possibilidades para a resistência e a criação coletiva.
Esse trabalho que acompanhou os movimentos da Juventude que compõe o LPJ tem revelado que nos territórios em que ocorrem a violência, o genocídio da população negra, jovem e periférica torna-se também território de resistência popular. Exemplo revelador disso tem sido as atividades desenvolvidas pelo LPJ durante os Saraus realizados nas periferias de Fortaleza/Ceará. Os saraus são atividades realizadas em espaços públicos da cidade (praças, centros culturais) em que os jovens tem a oportunidade de se apresentarem, narrarem suas histórias de vida e a situação na qual vivenciam. A partir das expressões culturais e artísticas, como o Rap, a poesia marginal, a dança, a música e o teatro, os/as jovens se expressam e se anunciam enquanto sujeitos portadores de cultura, resistência e criação de uma cultura juvenil que pulsa e traz a marca dos seus territórios de vida, de existência e produção de saberes.
Entre os mais de dois milhões e meio de habitantes da capital do Ceará, os saraus, enquanto atividade de rua, de ocupação dos espaços públicos da periferia, marcado pelo acirramento das violências entre gangues e facções criminosas, são um grito de rebeldia em que o caráter democrático do espaço público ganha atenção para além da rua como lugar de passagem.
Os Saraus realizados pelo LPJ junta e reúne grupos de pessoas do Movimento, mas também envolve toda a comunidade, adultos, crianças e ali constroem debates, suscita reflexões acerca dos dilemas enfrentados pelos jovens em seus territórios. Os Saraus realizados de modo temático envolvem discussões sobre a violência entre os jovens, a mulher e o feminismo, as condições étnicorraciais e as questões voltadas para a orientação sexual (LGBT fobia). De modo itinerante, o LPJ vai até as periferias e com isso amplia sua rede de diálogo com a sociedade civil.
Nesses espaços o LPJ desperta a capacidade criativa e inventiva que os jovens possuem de fazer política. Revelando sua capacidade de autonomia e organização cada vez mais horizontalizada, na medida em que são potencializados a usar sua arte como instrumento de invenção, como arma pela existência negada aos grupos periféricos.
Com isso, os jovens são entrelaçados por uma rede de afetos, tomada de consciência e empoderamento, se configurando em um salto para a condição juvenil periférica, uma vez que suas produções artísticas perpassam por uma escrita-experiência objetivada pelas vivências experimentadas em seus cotidianos. Assim, mais que um culto a poesia, tais práticas realizadas nos saraus do LPJ são reveladoras de performances poéticas que expressam e representam relatos de vida, reivindicação da existência, subversão dos códigos violentos do Estado contra a juventude periférica exposta dia a dia pelas diferentes formas de violência histórica que se materializam por meio de extermínios e chacinas.
Dessa forma, mais do que juntar os jovens em uma organização social, o LPJ coloca o desafio de estabelecer uma compreensão que trate dos processos comuns que atingem a sociedade brasileira em sua estrutura macrossocial e politica, cultural, aliado as especificidades de cada território e de cada cultura juvenil em que a capacidade de transformação social pelos sujeitos ganha centralidade.