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Resumen de ponencia
A Descoberta da América pelos jangadeiros do Ceará

*Berenice Abreu De Castro Neves



Em abril de 1959, depois de seis meses de viagem, chegava a Buenos Aires a jangada “Maria Teresa Goulart”, conduzindo quatro jangadeiros cearenses: mestre Jerônimo André, de 56 anos, José de Lima, 52 anos, Samuel dos Santos, de 44 anos, e Luís Carlos, com 35 anos. O raid, como foi chamado à época esse tipo de viagem, tinha a intenção de selar a amizade entre Brasil e Argentina e, homenagear os pescadores daquele país, pois, afinal, “o mar é um só”, afirmava o experiente mestre de jangadas, ao jornalista do periódico “Diário da Noite”, do Rio de Janeiro. Jerônimo e seus companheiros passaram alguns dias na capital portenha e a jangada ficou exposta, por alguns dias, em Praça pública, provocando a admiração dos transeuntes, que não entendiam como aqueles seis frágeis paus atados puderam realizar tão longa travessia. Ao chegar, exausto, a Buenos Aires, Jerônimo declarou que não pensou que a travessia seria tão difícil. De outubro de 1958 a abril de 1959, os quatro jangadeiros, saído de Fortaleza-CE, guiados pelas estrelas e faróis, ao longo da costa, enfrentaram frio, fome, tempestades, navegação à deriva, para chegar ao destino almejado. De fato, uma longa e arriscada “aventura”. A jangada “Maria Teresa Goulart”, documento da coragem dos jangadeiros brasileiros, foi deixada de presente ao Presidente Arturo Frondizi, e se encontra hoje depositada no Museu Naval do Tigre. Essa foi, na verdade, a terceira viagem deste tipo empreendida por jangadeiros cearenses, com objetivos de reinvindicação de direitos. Na primeira, para a cidade do Rio de Janeiro, capital da República do Brasil, Jerônimo, juntamente com Jacaré, o líder político do grupo na época, Tatá e Mané Preto levaram ao então ditador Getúlio Vargas as reivindicações da categoria. Bem ao modo da política de massas do primeiro governo Vargas, os jangadeiros foram recebidos festivamente no Palácio Guanabara, residência do presidente, sendo saudados por populares, sindicatos de trabalhadores e por autoridades civis, religiosas e militares. Três dias após a chegada a capital, o presidente assina um decreto incorporando a categoria dos pescadores no Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Marítimos. Durante quinze dias os jangadeiros permaneceram na cidade, visitando ministérios, sedes de sindicatos, monumentos, falando aos jornalistas, participando de programas de rádio, monitorados diretamente por dois funcionários da polícia política do governo, que registraram em relatórios diários todos os passos dos trabalhadores cearenses. A visibilidade do feito foi enorme, amplificada a partir das filmagens do elogiado diretor americano Orson Welles, que incluiu a saga dos jangadeiros da jangada “São Pedro” entre as filmagens que realizaria na América. Vivia-se a Segunda Grande Guerra Mundial e os EUA pretendiam uma aproximação com o Brasil, que dava sinais de aproximação com os países do Eixo. Welles participava, então, com seu filme, da “Política da Boa Vizinhança”. Como desdobramento trágico da saga dos jangadeiros de 1941, morre Jacaré em uma das filmagens de Welles. A partir disso, Jerônimo, até então o mais calado do grupo e destacado por sua capacidade técnica de manejo de jangada, assume a voz da categoria e passa a envolver-se diretamente com a luta política. Realiza outra viagem em 1951, dessa vez tendo como destino a cidade de Porto Alegre, no extremo sul do país, terra do presidente Vargas, realizando, mais uma vez, uma parada no Rio de Janeiro, para cobrar as promessas feitas e ainda não cumpridas. Essa pesquisa investiga a terceira viagem de jangada empreendida por Mestre Jerônimo, entendendo-a como parte da cultura política jangadeira que, desde os anos de 1940, lançou mão da estratégia do empreendimento de arriscadas viagens de jangadas com o propósito de mobilizar a opinião pública e a as autoridades do país para as demandas da categoria dos pescadores em jangadas. Jerônimo e outras lideranças de pescadores cearenses, desde a primeira viagem de jangada de 1941, apostavam politicamente na via da luta por direitos sociais , que acreditavam poder livrá-los da miséria em que viviam, da submissão aos proprietários das embarcações em que trabalhavam, dos atravessadores, que vendiam o produto pescado por eles, e dos falsos dirigentes de entidades que congregavam os pescadores. Trabalhamos com fontes hemerográficas, jornais e revistas publicados no Brasil e na Argentina, que fizeram extensas reportagens sobre o evento. Sendo o destino da terceira viagem um país vizinho geograficamente, mas historicamente distante, supomos que essa viagem se constituiu em um rico momento em que as barreiras culturais e históricas foram enfrentadas e um sentido de identidade foi imaginado, afinal, repetimos com o velho Mestre, “o mar é um só”.




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* Abreu De Castro Neves
Universidade Estadual do Ceará UECE. Fortaleza, Brasil