Esta apresentação parte da seguinte questão: qual a importância da interseccionalidade para a construção de pressupostos e métodos no campo da economia feminista no Brasil? É importante dizer que não apresento, aqui, dados científicos organizados para responder a esta questão, mas encaminho algumas considerações sobre a importância da interseccionalidade na construção da economia feminista no Brasil, que poderão ser desenvolvidas em outro momento, e um caminho teórico-metodológico para isto. Assim, em primeiro lugar, farei uma breve apresentação do que está sendo entendido como economia feminista. Em seguida, farei uma breve exposição sobre o que está sendo entendido como interseccionalidade. Por fim, definirei alguns aspectos da importância de se considerar a abordagem interseccional no desenvolvimento da economia feminista no Brasil.
A economia feminista é, antes de tudo, uma área da ciência econômica. De um modo geral, ela trava uma crítica contundente contra as teorias econômicas predominantes ou hegemônicas, cujos pressupostos e métodos consideram como econômico apenas os processos realizados em função do mercado, o que invisibiliza parte dos trabalhos realizados em nossa sociedade, em geral, aqueles realizados pelas mulheres no âmbito doméstico. Nesse sentido, para as economistas feministas não é suficiente unir a análise das relações de gênero aos pressupostos e métodos já conhecidos pelas ciências sociais, em especial, pela economia. Mas, é necessário que sejam desenvolvidos pressupostos e métodos mais sensíveis às práticas econômicas que são negligenciadas pelas teorias dominantes.
Apesar de se conformar como uma área da disciplina econômica, a economia feminista pode ser compreendida a partir de três níveis. O primeiro nível seria, o acadêmico, ainda é bastante incipiente nas ciências econômicas brasileiras. O segundo nível de desenvolvimento da economia feminista seria o das ações coletivas de grupos feministas, o nível político. O terceiro nível de desenvolvimento das teses da economia feminista, por sua vez, se dá nos próprios grupos de mulheres trabalhadoras, que produzem práticas econômicas bastante diferentes das práticas de mercado.
Diante deste campo, esta comunicação pretende defender a ideia de que o desenvolvimento de uma economia feminista, no Brasil, precisa necessariamente considerar as dimensões de classe, “raça”/etnia e de sexo, entendendo-as como consubstanciais (conforme Danièle Kergoat) ou como um nó frouxo (conforme Heleieth Saffioti). Isto é, no desenvolvimento do debate teórico e das ações políticas no cerne da Economia Feminista, no Brasil, devemos considerar as relações sociais operadas por meio da tríade opressão/dominação/exploração. Relações sociais capitalistas, patriarcais e racializadas, geradoras de desigualdades de classe, gênero e de “raça”/etnia.
Isto porque estão conformadas no processo histórico da divisão sexual do trabalho no Brasil as desigualdades de classe e de “raça”/etnia. Apesar de resistentes, os povos tradicionais do país foram e ainda são brutalmente exterminados. Neste processo, os seus saberes e práticas foram e ainda são invisibilizados e desvalorizados. As mulheres, especialmente as mulheres não brancas, não ricas e não urbanas, estiveram e ainda estão distantes ou pouco representadas nos postos de trabalhos responsáveis pela produção acadêmica brasileira. Isto resulta que esta produção acadêmica, que gera conhecimento e que dá frutos em políticas governamentais, insuficientemente se importe com as práticas e os saberes das mulheres indígenas, das mulheres rurais, das mulheres quilombolas, ou das mulheres ribeirinhas, entre outras tantas práticas econômicas (não monetárias) desenvolvidas por outros tantos grupos de mulheres trabalhadoras brasileiras. Nesse sentido, é importante que a construção da economia feminista no Brasil, se desenvolva no sentido interseccional, considerando contradições mais profundas consubstancializadas nas relações de gênero.
Em outras palavras, na construção de pressupostos e métodos de análise que não negligenciem parte importante dos trabalhos realizados pelas mulheres em nossa sociedade e que não negligenciem práticas econômicas socialmente e ecologicamente mais sustentáveis propagadas por elas, é bastante importante que se considere, no Brasil, aspectos históricos e sociais que vão além dessas atividades e práticas em si e que vão além das relações de gênero. É necessário que sejam consideras as dimensões de classe e de “raça”/etnia, que compõem a divisão sexual do trabalho no Brasil.