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Resumen de ponencia
Gramsci e as tintas da Lavoura: um olhar sobre a atuação das elites letradas da citricultura na Grande Iguassu (RJ) entre 1910 e 1930

*Pablo Augusto Ribeiro Santos Da Silva



Buscar historicamente a formação sócio-urbana do que viria a ser a Baixada Fluminense traz, a nosso ver, para o centro do debate, a relevância de compreendermos a política econômica rural adotada pelo governo Nilo Peçanha (presidente do estado do Rio de Janeiro entre 1903-1906), que em busca da fuga da crise econômica fluminense, empreendeu uma gama de políticas diversificadoras da agricultura, tendo a partir da Grande Iguassu a economia da laranja como mote principal.
Estamos tratando de um momento histórico agroexportador nacional onde as analises macroeconômicas dão relevo, quase exclusivamente, ao café, calando outras atividades econômicas exercidas concomitantemente e, por conseguinte, construindo um vácuo historiográfico sobre história regional. Cabe localizarmos, e atribuirmos, a importância deste quadro num contexto de debates nacionalizados sobre a diversificação da economia, e de crise dos anos 20. Explicamos: atribui-se a superconcentração da produção do Café em São Paulo, força motriz econômica da Primeira República, a uma crise entre frações da oligarquia. Destarte, é nesses marcos que observamos a consolidação da citricultura na Grande Iguassu que seguia o receituário do ruralismo brasileiro pautado na modernização e mecanização, formação de trabalho e especialização produtiva tendo alcançado seu auge entre os anos de 1910-30, este então será objetivamente o recorte temporal adotado.
Estima-se, neste momento, que a citricultura chegou e a ser o segundo maior expediente de arrecadação dos cofres públicos do estado. Com o advento da citricultura emerge uma brusca transformação socioespacial na região, com saneamento, construção de ferrovia e aproveitamento de terras, ocasionando um padrão de formação sociourbana e até mesmo a mudança do distrito-sede do município. É a partir deste cenário, no entendimento das elites locais, que são construídas narrativas, símbolos e representações que vinculam a economia da laranja a um ideal de progresso e modernidade. Não obstante, estas narrativas são postas, por frações desta elite, em circulação na sociedade local como projeto político de hegemonia e reafirmação. Estas frações da elite, que identificamos como uma elite letrada e orgânica, atuam em diversas frentes.
O semanário Correio da Lavoura, periódico mais antigo em circulação na região, foi o maior difusor dos ideais do ruralismo, com um corpo editorial de notáveis
Disto isto, compreendemos que este trabalho tem como objetivo refletir sobre o processo de construção de hegemonia por parte das elites letradas locais à luz do desenvolvimento econômico da citricultura, bem como compreender seu impacto da formação sócio-urbana da Baixada Fluminense.


Quadro teórico
Compreendemos que arquétipos teóricos formulados pelo filósofo italiano Antonio Gramsci, nos ajudam a refletir sobre a organicidade desta elite, a construção de discursos e como atuam na disputa por memória. Segundo Carlos Nelson Coutinho , além da universalidade do pensamento gramsciniano, seus escritos em maturidade, e suas categorias, se mostram em grande validade operatória para compreensão da realidade brasileira.
Entendendo hegemonia, de modo geral, enquanto processo de dominação ideológica perpetrada pela fração dominante, observamos que a instituição dessa dominação se dá por uma rede de valores e símbolos por consenso ou coerção.
Esta hegemonia, tecida pelo bloco histórico da unidade entre estrutura e superestrutura, pôde ser lapidada com elite econômica disseminando sua narrativa pela educação local, comunicação e projetos urbanísticos memorialísticos.
Para Gramsci a definição do tipo de intelectual perpassa entender as relações sociais, no bojo do grupo que o individuo constitui, para desenvolver sua fala, não sendo meramente um cargo profissional executado. Com uma rede e sociabilidade própria, a elite intelectual da citricultura fora composta por médicos, advogados e professores. Desta forma, os grupos de intelectuais orgânicos são, historicamente, construídos pelo grupo social que está inserido e é este grupo capaz de homogeneizar sociedade-economia-política tendo consciência de sua “função”.


Justificativa social/acadêmica
Sem a pretensão de aqui sintetizar uma historiografia da Baixada Fluminense (RJ), daremos enfoque analítico a uma virada historiográfica, sobretudo a partir da década de 90, acometendo na ampliação de pesquisas sobre a Baixada Fluminense. A este fato podemos atribuir influências de uma nova perspectiva historiográfica, como a thompsiniana. Uma história social, vista de baixo, que propicia olhares para regiões e sujeitos marginalizados; a isto combina-se novos objetos, métodos, e diálogos.
Segundo Amália Dias e Nielson Bezerra (2014), nestas últimas décadas, de virada historiográfica, a Baixada Fluminense deixa de ser apenas tangenciada, e negligenciada, na historiografia fluminense emergindo como foco principal de produção regional fluminense, constituindo assim uma ampla rede história e memória responsável por grande parte de produções e divulgação científica da historiografia fluminense. É neste movimento que a região recebe campus de ensino superior público (UERJ e UFRRJ) e ampliação do ensino privado, contando hoje com sete instituições que ofertam curso de História na região.
A explicitação anterior não nega a existência de lacunas no âmbito da historiografia sobre o passado da região e seu processo histórico de formação sociourbana. Apenas apresenta um quadro mais amplo, onde este trabalho é parte constituinte e integrante deste movimento de pesquisadores.
Para Ricardo Salles , há um ponto fundamental na obra de Gramsci, que diz respeito a correlação entre prática historiográfica e prática política; uma acepção filosófica baseada na noção marxiana de práxis. A unidade que orienta seus escritos, em muito contribui para convicção da relevância desta pesquisa, que na inter-relação com o ensino, possibilitará ser mais uma ferramenta contra o silêncio dos livros didáticos sobre a história local.


Metodologia e fontes
Esta pesquisa terá como fonte principal edições do semanário Correio da Lavoura, dentro do recorte temporal supracitado referente ao momento de grande desenvolvimento da citricultura. Cabe-nos destacar o esforço de disponibilização digital das edições do CL, por parte do Centro de Documentação e Imagem da UFRRJ na plataforma RIMA, que já possibilita o acesso remoto às fontes até 1926 pelo usuário, e com as demais preservadas e disponíveis pra acesso presencial.
O Correio da Lavoura, surge em março de 1917, fundado por Silvino Azeredo e sendo o principal meio de comunicação na Grande Iguassu. Constituiu-se como um grande propagandista do ruralismo brasileiro entre as décadas de 20 e 30, com o apoio da administração local e das elites.
Segundo Maria Lucia Bezerra da Silva Alexandre , este semanário age abertamente em defesa da moralidade e instrução, agindo decisivamente na promoção do ensino na região, bem como interferindo em seu destino. Não obstante, é intrigante o fato do o próprio fundador do semanário, ao mesmo tempo que atrela sua linha editorial à modernização da agricultura, atuar na fundação de escolas e emerge como liderança do movimento do campo, saneamento e instrução. É a partir desta correlação de fatores, tendo por base levantamento de edições do semanário, que cremos apreender sobre a literatura do passado da região escrita por esses sujeitos.
Para isto, consideramos a relevância no pós primeira geração das Escola dos Annales , da ruptura com o fetichismo documental e do alargamento do que é lido como fonte documental, ocasionando, sobretudo no Brasil, num maior uso de fontes periódicas pós 70. Contudo ao passo que periódicos são cada vez mais utilizados para a pesquisa histórica, seu uso como fonte de pesquisa requer rigor e delimitações metodológicas .
Nesse sentido, empreenderemos uma leitura crítica da linha editorial com atenção à primeira edição publicada e às notas do editor/fundador. Acreditamos ser relevante uma pesquisa biográfica de seu fundador, pela também posição política de destaque regional, para além disso, a fuga da noção de verdade ou de contexto total por parte do uso restrito de uma fonte, nos traz o desafio de cotejar os tipos de fontes. Ao passo que igualmente se faz necessário o conhecimento dos demais notáveis que compõem o corpo editorial para busca de elementos subjetivos e objetivos da escrita; e se possível o acesso ao alcance médio do periódico, sua tiragem, circulação no município e distribuição.




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* Augusto Ribeiro Santos Da Silva
Universidade do Estado do Rio de Janeiro UERJ. Rio de Janeiro, Brasil