Segundo a OMS, o suicídio é um grave problema de saúde pública, embora não seja priorizado como tal em muitos locais do mundo. Esse desconhecimento impacta diretamente na eficácia de um manejo adequado (WHO, 2014). No intuito de expandir a prestação de serviços associados à questão do suicídio em diversos países, os Estados- Membros da Organização Mundial da Saúde objetivaram uma redução de 10% nas taxas de suicídio até 2020 no mundo, inclusive através de elaboração de materiais para ampla divulgação a fim de conscientizar a população em geral.
O informe “Preventing suicide: a global imperative”, apresentado pela OMS em 2014, elaborado através de consultas globais e dados científicos, ressalta a importância de enfocar urgentemente a análise desse problema de saúde pública mundial e seus significados, tendo em vista os dados alarmantes e a falta de intervenções corretas(WHO, 2014).
Um modo de responder ao suicídio em um país é estabelecendo estratégias nacionais para sua prevenção, "uma estratégia nacional reflete o compromisso claro de um governo em ocupar-se do problema do suicídio" (WHO, 2014, p.8). Todavia, apesar dos fatos científicos indicarem frequentemente que numerosas mortes são evitáveis, o suicídio tem escassa prioridade para os governos e instâncias normativas. Nesse contexto de aumentos de casos e precariedades existentes nos serviços de saúde, mostra-se de grande importância o trabalho preventivo em instituições do terceiro setor como diversas ONGs. No Brasil, podemos destacar o Centro de Valorização da Vida como uma dessas importantes instituições não governamentais que oferecem um acolhimento terapêutico visando à prevenção e posvenção do suicídio.
O Centro de Valorização da Vida é uma instituição jurídica que nasce em São Paulo, na década de 1960, e se descreve enquanto uma sociedade civil, sem fins lucrativos, de caráter filantrópico. A ela estão vinculados alguns programas assistenciais, sendo um deles o CVV de Prevenção do Suicídio. Os serviços de prevenção do suicídio podem ser divididos em três categorias: humanitários, religiosos ou científicos (CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA, 2012). O CVV se insere no primeiro grupo, pela característica voluntária, arreligiosa e apartidária.
Tendo em vista que, segundo a OMS(2014), até o setor referenciado como o especialista para este tipo de manejo também comete atitudes falhas nesse processo, torna-se importante investigar os tipos de sociabilidade do manejo realizado em outras instâncias. Na prática em saúde, os profissionais atuantes nesse setor deveriam ter como objetivo terapêutico central a atitude de estabelecer uma compreensão da subjetividade dos seres em sofrimento, prestar solidariedade e permanente preocupação com o cuidado (TELESI JUNIOR, 2010). A relação de ajuda desenvolvida no CVV, ao adotar a técnica da ACP e não na doença, parece atingir esse padrão idealizado pelos profissionais clínicos na sua relação com os usuários do serviço de saúde.
Nas ciências sociais, Durkheim é o autor que se atribui um maior peso ao pensar sociologicamente o fenômeno. Em O Suicídio (1973), o autor enaltece o risco que existe em pensar o suicídio em termos isolados, ao invés de pensá-lo enquanto um fato social. Contudo, ainda que todas as disciplinas externas às ciências sociais conheçam e citem o livro de Durkheim, é ainda a visão da saúde mental, centrada no indivíduo, que aparece em larga medida na análise dos suicídios (HEILBORN; MENEZES, 2014).
Assim como Foucault (1997) nos mostra que a percepção acerca da loucura veio sendo ressignificada ao longo do tempo, o fenômeno do suicídio percorre um caminho parecido, e isso se expressa nas suas qualificações enquanto: pecado, crime, mais tarde se tornando mentalmente doente e agora com alguns propõe “tratamento”, desde que a “cura” esteja nas mãos dos médicos (SZASZ, 2002). No entanto, comportamento suicida é marcado inevitavelmente por sua contingência. Ele é afetado por determinantes que se interrelacionam: pessoais, sociais, psicológicos, culturais, biológicos e ambientais (WHO, 2014).
O CVV baseia-se exclusivamente numa postura terapêutica de Abordagem Centrada na Pessoa– ACP. O uso dessa técnica Rogeriana pela instituição conflui com o que o autor espera alcançar com a teoria, uma ligação ao autoconhecimento, a possibilidade de gerir os sofrimentos e consequentemente manter-se distante do risco do suicídio (MARTINS, 2016). Nesse sentido, no CVV há uma separação entre a ideia de indivíduo e pessoa, em que o primeiro seria compreendido como um sujeito social e o segundo refere-se a essência deste enquanto ser humano. Essa relação, portanto, “deve ser centrada na pessoa, nos seus sentimentos, e não no indivíduo, nas suas ações ou problemas” (MARTINS, 2016).
No setor clínico, os pacientes com comportamento suicida se mostram por vezes mobilizados por ansiedades, defesas e sofrimentos. Nesse contexto, a equipe de saúde não ressaltando a importância reflexiva do estado do profissional naquela interação, pode ser demonstrado sentimento de raiva, repulsa ou hostilidade por parte deste, o que compromete o vínculo de confiança com o paciente (DOCKHORN; WERLANG, 2008).
É nesse aspecto que nota-se uma relevante distinção do manejo não clínico desenvolvido na instituição a ser estudada. Conforme Blumer (1980, p.122): “Deve-se levar sempre em consideração que os significados desempenham seu papel na ação por intermédio de um processo de auto-interação”.
A pesquisa segue uma abordagem qualitativa, serão realizadas entrevistas individuais e coletivas no formato semi-estruturadas, seguindo um roteiro construído ao longo das observações, tornando possível compreender as interpretações particulares dos voluntários e suas interações com os demais membros em relação às concepções e práticas do trabalho. O lócus da pesquisa será o Posto do CVV sediado em Salvador-Bahia, onde o pesquisador foi voluntário entre julho e dezembro de 2015, o que justifica sua escolha.
Para investigar a prática terapêutica no CVV, nota-se no interacionismo simbólico, instrumentos relevantes na compreensão da alteridade entre voluntários e a Outra pessoa nesse processo. Sendo assim, a pesquisa seguirá influência das contribuições teóricas de autores interacionistas da Escola de Chicago, como Herbert Mead (1953), Herbert Blumer (1980) e Erving Goffman (1988; 2011).