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Resumen de ponencia
A "globalização da indiferença": direitos humanos, religião e política no pensamento social de papa Francisco

*Mauricio De Aquino



Este trabalho propõe apresentar, explicar e problematizar as ideias chave do pensamento social do papa Francisco com ênfase na interpretação crítica que realiza sobre as consequências humanas da globalização. Em seu discurso, o papa latino-americano desmascara as causas sociopolíticas e econômicas das estruturas de injustiça e desnaturaliza os processos de exclusão social ao mostrar que se tratam de processos histórico-políticos. Com isso, põe em evidência a realidade da "globalização da indiferença" que impede uma vida digna para uma grande parte da humanidade.
Pode-se considerar globalização como um fenômeno social e uma categoria analítica para se caracterizar e pensar a contemporaneidade. Pode-se postular ainda que ela substituiu, absorveu e ultrapassou as noções de “modernização” e “desenvolvimento”, tão em voga até os anos 1980, para tornar-se um dos traços definidores do tempo coevo. No magistério social pontifício da Igreja Católica Apostólica Romana, o termo “globalização” foi sendo adotado gradualmente, à medida que o fenômeno se fortalecia, ao longo do pontificado de João Paulo II (1978-2005). No magistério social latino-americano, esse termo apareceu pela primeira vez, citado em uma única ocasião, no Documento de Santo Domingo, fruto de conferência realizada pelo CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho) no ano de 1992, sendo que em 2007, no Documento de Aparecida, o termo “globalização” apareceu 17 vezes.
Sabe-se que o presidente da Comissão de Redação do Documento de Aparecida foi o cardeal-arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, que em 2013 foi eleito papa assumindo o nome de Francisco. Em seu pontificado, o papa Francisco partiu da Conferência de Aparecida para estruturar e desenvolver o seu magistério social expresso na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (2013) e na Carta Encíclica Laudato Si’ (2015). Pode-se considerar esses três documentos eclesiásticos como os textos fundamentais para a compreensão do pensamento social ou do magistério social do papa Francisco. Neles, destaca-se o fenômeno da globalização como traço marcante da contemporaneidade que envolve a humanidade e a Igreja. Esse fenômeno lança luzes e sombras sobre o presente e o futuro dos direitos humanos e da própria missão da Igreja.
Nesse sentido, deve-se destacar a estratégica escolha do tema central da Laudato Si’. Sem dúvida, a ecologia é um tema global por excelência. Sensível aos sinais dos tempos, o papa Francisco seleciona este tema e inaugura uma abordagem sistematizada sobre ele na Doutrina Social da Igreja, em consonância, como se viu na primeira parte deste texto, com as principais análises históricas e sociológicas dos efeitos positivos e negativos da globalização sobre a dignidade da pessoa humana, enfim, sobre os direitos humanos.
Dessa forma, realiza um exercício reflexivo que oferece critérios de interpretação e de ação no mundo globalizado a partir de seu estilo profético e contemplativo, cuja matriz é a Teologia do Povo, um dos ramos da teologia latino-americana da libertação, sustentado nos quatro princípios de seu magistério social destacados na Evangelii Gaudium. A partir do tema da ecologia, o papa apela à consciência da humanidade, de modo a fomentar um dos aspectos positivos da globalização: a aspiração à unidade do gênero humano. Nessa perspectiva, a Terra deve ser pensada e sentida como “nossa casa comum”, uma percepção que reintegra a humanidade no conjunto da natureza ressaltando os vínculos das pessoas entre si e com os diversos elementos dos biomas constituintes da Terra.
Considerando esses pressupostos e propósitos, o trabalho está organizado em três partes principais: na primeira parte, uma apresentação do conceito e do fenômeno social da globalização a partir dos estudos e análises de Zygmunt Bauman, Eric Hobsbawm, David Held e Anthony McGrew; na segunda parte, uma exposição dos princípios e das perspectivas definidoras do magistério social do papa Francisco com base nos estudos e análises de Agenor Brighenti e de Christoph Theobald; por fim, na terceira parte, uma análise panorâmica dos usos e significados do termo “globalização” no Documento de Aparecida, na Evangelii Gaudium e na Laudato Si’ em vista de uma compreensão sistematizada da interpretação crítica do papa Francisco sobre o fenômeno social da globalização que, por suas estruturas injustas geradoras de exclusão social, pode ser chamada de “globalização da indiferença”.




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* De Aquino
Universidade Estadual do Norte do Paraná UENP. Jacarezinho, Brasil