Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
Para onde vão os caminhos da acumulação?Terra, produção de commodities e despossessão dos povos e comunidades tradicionais do centro norte do Brasil

*Débora Lima



A crise capitalista, representada no pensamento zapatista pelo monstro da hidra, nos remete ao processo de inexorável de reprodução ampliada, reificação e violência no qual estamos submetidos e alimentamos. A peculiaridade da crise é seu caráter multidimensional (Bartra, 2013) :crise civilizatória, econômica, política, ecológica, alimentaria. Sua dimensão múltipla não é resultado de uma relação unilateral, já que a crise civilizatória expressa conflitos políticos, resultado das correlações de poder e das desiguais disputas de como definir e permitir as formas e os tempos de vida.
A partir de uma mirada sobre o avanço da agricultura mundializada e as formas de modernização e financeirização na sojicultora via planejamento territorial do Estado brasileiro, vemos as tentativas de homogeinização das relações do campo, a entrada dos signos urbanos e a violência (econômica, legal e ilegal) cada vez mais presente; expulsando os camponeses de suas terras, sujeitando-os a relações de superexploração.
Esses processos vêm ocorrendo de forma cada vez mais acelerada nos cerrados do centro norte brasileiro, que aqui consideraremos as áreas dos estados do Tocantins, oeste da Bahia, sul do Piauí e Maranhão que desde 2012 tem recebido massivos investimentos estratégicos para a produção e exportação de commodities (soja, eucalipto, carne, minerais). O mercado de terras da região vem se tornando uma expressão grilagem, com o avanço do Estado e o modo de produção capitalista, já que a financeirização da agricultura cria diversas artimanhas para a captura da terra: moderniza as formas de grilagem,permite a compra de terras por estrangeiros,land grabbing – artimanhas essas ligadas tanto ao processo de ficcionalização quanto como à acumulação por despossessão,nesta última como tentativa de frear a tendência da queda geral da taxa de lucro via rentização da terra indicadas por Marx no livro três.
A concorrência comercial e produtiva,com a gradual ocupação dos mercados de alimentos globais pelos estabelecimentos de maior escala e a intensificação tecnológica vêm lentamente,encurralando outros processos de produção–camponesa,policultora ou extrativista.Assim,os produtores latifundiários e monocultores da soja corroboram com a expansão do capitalismo no campo,mesmo não sendo detentores da maior parcela do lucro do agronegócio.Além das vantagens logísticas das grandes empresas,cerca de 50% dos custos diretos da produção, despesas de custeio da lavoura (operação com avião, máquinas, mão de obra, sementes, fertilizantes, agrotóxicos, despesas administrativas), despesas pós-colheita (seguro agrícola, assistência técnica, transporte externo, armazenagem) despesas financeiras (impostos, juros, encargos sociais) e renda da terra, estão voltados para sementes, fertilizantes e agrotóxico – componentes vendidos pelas grandes empresas como ADM, Cargil, Monsanto,Syngenta, Bunge, DuPont, Pionner. Vale ressaltar que o custo com mão de obra(mão-de-obra fixa e temporária e encargos sociais) gira em torno de 0,9 a 3% do custo de produção (CONAB, 2014- 2017),reafirmando as teorias de acumulação por espoliação–via expropriação e superexploração do trabalho.
Essas formas de despossessão dos povos e comunidades tradicionais representa uma permanente retomada da barbárie configurada pelos assassinatos e outras formas de violência de trabalhadores, lideranças das comunidades rurais, indígenas, quilombolas etc. A Comissão Pastoral da Terra, por meio de seu relatório sobre conflitos no campo, registrou, em 2016, 1.536 ocorrências de conflitos no campo, contra 1.217, em 2015, o que significa um aumento de 26%. Esses dados da CPT também apontam a ocorrência de 61 assassinatos no campo, em 2016, comparados aos 50 ocorridos em 2015 – ou seja, um aumento de 22%. Em 2017, essa situação se agravou, uma vez que foram assassinadas 70 pessoas em conflitos no campo, sendo o maior número de vítimas desde 2003.
A pergunta, que fica (e infelizmente não podemos ainda responder) é como combater o monstro capitalista e suas formas concentradoras e centralizadoras de capital que se multiplica como um vírus? Como construir, ou refletir saídas para além da reprodução e apropriação da hidra via formas de manutenção da vida (e da terra) para os povos e comunidades tradicionais?




......................

* Lima
Faculdade de Educação. Universidad Estadual de Campinas /UNICAMP. Faculdade de Educação. Universidad Estadual de Campinas /UNICAMP - FE/UNICAMP. Campinas, SP, Brasil