Estudar o processo de luto pós-ditadura militar é um desafio, tanto pela memória dolorosa quanto pela pluralidade do tema. A tentativa de “recuperação” da humanidade perdida, individualmente e como sociedade, divide opiniões nas narrativas e nas políticas públicas. Quando levamos este luto para o contexto da produção cinematográfica o desafio não é menor, se algo ele se intensifica. Como transmitir por lentes um sentimento tão latente como a memória dos sobreviventes de governos ditatoriais?
O que é a representação cinematográfica? Essencialmente o que se tem nas telas são imagens, e não seres humanos. Portanto há a problemática de como se faz para que o espectador se identifique com estas imagens que parecem perder algo de sua humanidade quando colocadas atrás de câmeras. Outra influência que devemos considerar é aquela do tempo presente. Estas memórias mesmo que relatadas pelos personagens que as vivenciaram serão modificadas duas vezes pelo tempo presente. Uma vez se tratando do olhar do diretor, da edição do filme. E pela segunda vez por causa das mudanças pelas quais a pessoa que vivenciou esta memória passou, a reprodução que se da no filme é da pessoa do presente e não da pessoa que estava vivendo naquele momento do episódio relatado. Portanto apesar das dificuldades cabe ao diretor a decisão de qual tipo de cinema ele quer apresentar, algo que seja o mais próximo possível da realidade nua e crua, que deixa basicamente o relato falar por si só, ou criar um universo dentro de cena, que ao mesmo tempo que dialoga e depende do ambiente fora de cena, não deixa de ser um universo de possibilidades por si só.
Neste trabalho abordo duas produções cinematográficas, e como estas apresentam a memória de mulheres que foram atingidas por governos militares latino-americanos. A primeira produção que irei analisar é o filme “Que Bom te Ver Viva” de Lúcia Murat, que trata da memória de mulheres sobreviventes da tortura na ditadura militar brasileira. A segunda obra é “Nostalgia da Luz” de Patricio Guzmán, que apresenta a relação do deserto do Atacama com a ciência e com a história de mulheres que buscam entes queridos assassinados durante a ditadura de Pinochet no Chile.
No documentário de 1989 a diretora Lúcia Murat apresenta depoimentos de mulheres que foram torturadas na ditadura militar brasileira. Além dos depoimentos reais, a obra conta com trechos dramatizados pela atriz Irene Ravache, que faz o papel de uma mulher anônima que também foi torturada. A obra é extremamente forte e dolorosa de se assistir, porém de suma importância para a memória do que foi a ditadura militar no Brasil. Dialogando com o capítulo anterior temos neste documentário os dois usos do cinema. Ao mesmo tempo que a diretora apresenta depoimentos crus, sem nenhum roteiro, onde estas mulheres falam o que desejam sem interrupção ou censura, há também o espaço dramatizado com roteiro escrito pela diretora onde se cria um universo virtual dentro de um real. O que fica da experiência é a certeza que se deve falar sobre a tortura, se deve falar sobre os horrores da ditadura, só se conhecendo a parte terrível da história pode-se entender o presente e evitar que ela se repita no futuro.
O documentário de Guzmán trata de maneira singular da relação do deserto do Atacama com a ditadura de Pinochet e a astronomia. O deserto é o melhor lugar do mundo para se observar o céu, e por isso lá se encontra um laboratório de astronomia de suma importância. Um dos fatores que torna o local tão perfeito para o estudo do céu é que ele é inabitado, tanto por humanos como por animais, simplesmente por ser o deserto mais seco do mundo. Este local “inóspito” não atraiu somente cientistas, durante o governo ditatorial o deserto tornou-se destino para o despejo de corpos dos assassinados pelo regime. E não só isto, lá se construíram campos de trabalho para os presos políticos. Devido às condições climáticas do deserto do Atacama, a decomposição corporal é extremamente demorada, ou seja, até hoje existem corpos com cabelos, pele e roupa no deserto, corpos dos mortos pela ditadura de Pinochet. O genial e revolucionário na narrativa de Guzmán foi relacionar a astronomia às histórias destas mulheres que procuram os desaparecidos no deserto. Mas faz todo sentido a associação, ambos os grupos buscam o mesmo: o passado. Os astrônomos buscam nossas origens no céu e as mulheres os corpos das vítimas do terror da ditadura.
Considero que o cinema pode ser uma excelente ferramenta para se difundir uma memória que constantemente é deliberadamente apagada, tanto por parcela da sociedade como por certos governos. A análise destas obras permite um profundo contato com os horrores que ocorreram durante estas ditaduras e como suas vítimas lidam com a memória e o trauma no presente.