Os estudos sobre colonialidade e decolonialidade do poder são uma importante ferramenta para explicar fenômenos sociais complexos da nossa realidade latino-americana. Neste trabalho, observo como eles se aplicam na comunicação: é possível pensar os meios de comunicação em uma perspectiva pós-colonial e de libertação?
Para me debruçar sobre esta interrogante, analiso se a emissora multiestatal TeleSUR, cujo slogan é “Nosso Norte é o Sul”, traz uma práxis diferenciada que possa ser pensada no marco da decolonialidade.
Esta análise é feita a partir da proposta de centramento presente no pensamento decolonial, que nos lembra que nada escapa da classe social, das questões sexuais, de gênero, e raciais, não sendo, portanto, uma análise objetiva ou isenta, mas comprometida, visto que quem a escreve é uma mulher, negra, periférica e jornalista. Entende-se aqui que, como aponta Grosfoguel, todos os conhecimentos estão localizados ou do lado subalterno ou do lado das relações de poder. Assim, a neutralidade e a objetividade sem corpo ou localização da ego política é um mais um dos mitos ocidentais. (Grosfoguel, 2006, p. 22).
Mas o que é colonialidade?
A colonialidade se refere a um padrão de poder que emerge do colonialismo moderno, mas não se limita a uma relação formal de poder entre os povos ou nações, mas à forma como o trabalho, o conhecimento, a autoridade e as relações intersubjetivas se articulam entre si por meio do mercado capitalista mundial e da ideia de raça (Maldonado, 2007, p. 131).
Ela perpassa todos os setores da sociedade e encontra eco na comunicação. Em sua face mais cruel, representa o silenciamento de povos e nações, na medida em que os países do aqui chamado Sul global não têm as mesmas condições para serem ouvidos nos meios de comunicação hegemônicos, como agências internacionais de notícias.
Assim, as distorções econômicas mundiais se refletem também na distribuição e no fluxo de informação existentes. Por ter mais condições técnicas, tecnológicas e financeiras, os chamados países do Norte global distorcem a imagem dos países do Sul, concentrando-se quase que exclusivamente nas notícias quentes, nas informações excepcionais: distúrbios políticos, golpes de Estado e catástrofes naturais.
Soma-se a isso a debilidade da formação de nossos jornalistas, como pontua o fundador da TeleSUR, Aram Aharonian:
En América Latina se han graduado miles y miles de comunicadores sociales que tendrán una gran capacidad para manejar un taxi, pero que están totalmente divorciados de la realidad tecnológica del mundo y de la realidad social de su propio país. Hay señores y señoritas que hacen cinco años de universidad para poder moverse en televisión. (Aharonian, 2008).
A necessidade de uma comunicação que seja instrumento de superação da colonialidade e represente uma ferramenta para a emancipação de nossos países tem sido abordada por diversos especialistas que se debruçam sobre o “como fazer” dessa comunicação.
O professor Dennis de Oliveira avança neste debate e propõe um jornalismo emancipatório que, em suas palavras,
Primeiro, [deve ser] uma posição contra todas as formas de opressão estabelecidas, o que significa tomar o lado dos segmentos sociais oprimidos (trabalhadores, negros, mulheres, homossexuais, etc.). Essa tomada de “partido” não significa empunhar bandeiras na redação, mas procurar entender os fenômenos sociais dentro da perspectiva de que há essa relação de opressão e que é necessário superá-la. Segundo, [deve] procurar entender as experiências cotidianas singulares dentro dessa dimensão das relações de opressão expressas sistemicamente ou não, como dispositivos no sentido foucautiano. As personagens envolvidas nos fenômenos, o cotidiano expresso e a ambiência narrada são permeadas por esses elementos de poder. Saber detectá-los possibilita a narrativa “densa” do fenômeno e afasta ou reduz a mediação deste por dispositivos do espetáculo. (Oliveira, 2017, p. 209).
Oliveira aponta que “um jornalismo emancipatório se faz, necessariamente, por um ponto de partida de criticidade do contexto vivido como opressor. E há uma posição tomada, que é a do oprimido” (Oliveira, 2017, p. 195). Dessa forma, dentro desta práxis, haveria uma superação do dilema que tem pautado o jornalismo hegemônico que, de acordo com o autor (p. 195), “oscila entre um empirismo cético e até cínico (‘as coisas são assim mesmo’) com um opinismo que se legitima pelo subjetivismo marcado pela superficialidade dos argumentos e pelo ‘direito de opinião’”. Assim, ele destaca ainda a ideia de mundo em construção contida em Paulo Freire para formular que “não se trata apenas de compartilhar experiências cotidianas, mas mediá-las pela interpretação crítica e mediadas pela perspectiva da emancipação” (p. 196).
É neste contexto que nos debruçamos sobre a TeleSUR, emissora multiestatal com sede em Caracas, na Venezuela. A iniciativa tem fundos totalmente públicos, não contempla publicidade comercial, apenas de algumas empresas estatais venezuelanas, transmite 24 horas com satélites que cobrem quase toda a Europa, o Oriente Médio, o Norte da África e todos os países da América Latina, além de uma parte dos Estados Unidos.
A TeleSUR tem como missão desenvolver um novo paradigma para a comunicação da América Latina, promovendo o direito à informação e a verdade como princípio, além de estimular a produção, promoção e distribuição de conteúdos próprios da região, como escreveu Aharonian, seu diretor-geral à época (Aharonian, 2005).
Além disso, o canal tem como objetivo fazer frente às agências de notícias internacionais que monopolizam o espectro midiático e definem a maneira como nossa história é contada.
Em seus 13 anos de existência, a TeleSUR entrou fortemente na disputa da narrativa dos acontecimentos latino-americanos. Ao longo desse período, a emissora conseguiu demonstrar uma outra visão política — ainda que a chavista — para o restante do mundo. O sociólogo argentino Atílio Borón conta que a criação da TeleSUR sofreu, inclusive, críticas do governo estadunidense. O congressista Connie Mack, do Partido Republicano, chegou a apresentar um projeto de lei, em 2005, para obrigar o governo dos EUA a interferir no sinal de transmissão por satélite da TV sul-americana (Almeida, 2018, p. 69).
Não são poucas as críticas à emissora multiestal e a maioria delas oscila em torno da falta do “multi” tanto na grade e tom das informações, quanto na linha de comando da TeleSUR, fortemente marcados pelo direcionamento do governo venezuelano, a ponto de a empresa ter sido apelidada pejorativamente de “A TV de Chávez”. A ideia é resumida pelo jornalista e crítico de televisão Omar Rincón, que considera a TeleSUR “uma boa ideia, uma ideia necessária para o continente. (…) [Mas que] não representa a América Latina, a não ser o pensamento chavista”. (Moraes, 2009, p. 131).
Parafraseando (Oliveira, 2017), se o jornalismo emancipatório não é quem vai mudar o mundo, mas contribui para pensar o mundo e sua transformação, a TeleSUR não vai mudar a hegemonia dos meios de comunicação nem consolidar por si a integração latino-americana como se propõe, mas contribui para pensar as políticas integracionistas e para que o povo latino-americano tenha diante de si um espelho, do qual fala Quijano na abertura deste capítulo, em que possa se ver com seus próprios olhos, não com a visão da colonialidade que distorceu completamente o que é dito, visto, sentido e pensado no Sul.
Referências
Aharonian, A. (13 de Julho de 2005). Un canal para la integración - todo lo que usted quiere saber de TeleSUR. Acesso em 25 de maio de 2018, disponível em http://www.rebelion.org/noticias/2005/7/17715.pdf
Aharonian, A. (18 de novembro de 2008). TeleSur no ha sabido convertirse en representante de las transformaciones de América Latina, afirma su vicepresidente. (E. Pardo, Entrevistador) Acesso em 25 de março de 2018, disponível em https://www.aporrea.org/imprime/n124220.html
Almeida, D. A. (Fevereiro de 2018). Poder (contra) hegemonia midiática na América Latina: um estudo a partir da cobertura da TeleSUR e CNN em espanhol sobre o desaparecimento forçado dos 43 estudantes mexicanos de Ayotzinapa em 2014 . (Tese de mestrado na Universidade Federal da Integração Latino-Americana Unila). Acesso em 20 de Março de 2018, disponível em http://dspace.unila.edu.br/123456789/3497
Grosfoguel, R. (2006). La descolonización de la economía política y los estudios postcoloniales: transmodernidad, pensamiento fronterizo y colonialidad global. Tábula Rasa, 19-46. Acesso em 24 de novembro de 2017, disponível em http://www.scielo.org.co/pdf/tara/n4/n4a02.pdf
Maldonado, N. (2007). Sobre la colonialidad del ser: contribuciones. Em S. y. Castro, El giro decolonial: reflexiones para una diversidad epistémica más allá del capitalismo global (pp. 127-168). Bogotá: Siglo del Hombre. Acesso em 18 de Maio de 2018, disponível em http://www.unsa.edu.ar/histocat/hamoderna/grosfoguelcastrogomez.pdf
Moraes, D. d. (2009). A Batalha da Mídia - Governos progressistas e políticas de comunicação na América Latina e outros ensaios. Rio de Janeiro: Pão e Rosas.
Oliveira, D. d. (2017). Jornalismo e Emancipação - Uma prática jornalística baseada em Paulo Freire. Curitiba-PR: Appris.