A expressão “desemprego”, tão comumente mencionada em jornais, revistas e televisão, faz parte da vida cotidiana de grande parte da classe trabalhadora, em especial, nos momentos de crise, como a que vivemos hoje no Brasil. O desemprego que atinge vastos setores da população, se torna um verdadeiro problema social. Há trabalhadores, dos níveis rebaixados aos mais qualificados buscando trabalhar, entretanto, sem conseguir os tão sonhados empregos. A falta de emprego é expressão das mais brutais facetas do modo de produção capitalista. Se o trabalho é entendido como central na constituição da vida social, a sua ausência traz consequências drásticas na esfera da reprodução social para a classe que vive do trabalho. Discutir o assunto, assim, está na agenda do dia tanto dos setores ligados à classe dominante – que tentam naturalizar e justificar a problemática, criando o consenso necessário a manutenção da sua hegemonia - quanto dos setores progressistas - que contestam as bases dominantes e defendem os interesses dos trabalhadores. Considerando a relevância da discussão, temos como objetivo neste trabalho esboçar uma aproximação ao debate teórico desenvolvido sobre a questão do desemprego. Um questionamento – já exposto no título acima – será a guia de nossa exposição: o desemprego é uma “nova expressão” ou revela, com características atuais, uma dimensão estrutural do modo de produção capitalista? Além de introdução e conclusão, dividimos esse artigo em três principais partes. No primeiro tópico, temos os elementos do real como ponto de partida. Buscamos trazer dados de realidade (mundiais, latino-americanos, nacionais e regionais) que evidenciam o quadro agravante do desemprego na contemporaneidade e, a partir daí, destacamos a relevância de realizar um debate teórico sobre tal questão. No segundo item, iremos expor o debate acerca do desemprego no limiar do século XX-XXI. Em particular, partiremos das formulações de Robert Castel, em sua obra “As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário (1995). Iremos abordar os elementos que fazem o autor colocar a temática do desemprego como núcleo do que chama de “nova questão social”. Por fim, no terceiro tópico, travaremos o debate tendo por base os elementos da crítica marxista acerca da questão, cujo argumento central é: a superpopulação relativa ou exército industrial de reserva é parte constituinte do sistema do capital, sendo sua produção funcional ao processo de valorização. A problemática do desemprego será tratada enquanto resultante do elemento básico de reprodução capitalista, a sua lei geral de acumulação. Portanto, abordaremos como a conjuntura atual, de metamorfoses do mundo do trabalho e profunda ofensiva aos direitos sociais, impacta diretamente a classe que sobrevive do trabalho. As mudanças na organização da produção e as alterações nas formas de contratação, têm agravado a precarização e deixado parcela significativa de trabalhadores em condições pauperizadas de sobrevivência. Em contraposição ao decréscimo dos empregos formais e regulares (consequência do modelo flexível que rege o capitalismo na contemporaneidade), os empregos informais e a massa de trabalhadores desempregados têm crescido. Longe de ser um problema apenas brasileiro em contexto de crise, o desemprego apresenta-se como tendência mundial. Castel, ao tratar da degradação dos eixos que eram pilares da “sociedade salarial”, na qual o trabalho seria a forma e possibilidade de “integração social”, discorre sobre o que chama de “nova questão social”. Essa “nova questão social”, produto da reconfiguração do capitalismo moderno, seria marcada pela “desestabilização dos estáveis”, precariedade do trabalho e um profundo déficit de “lugares” na estrutura social. O desemprego, em síntese, para o autor, é entendido enquanto núcleo da “nova questão social” no contexto de crise da “sociedade salarial”. Na apreensão a partir dos escritos de Marx, a análise do desemprego perpassa, necessariamente, a dimensão estrutural do modo de produção capitalista. Diante do desenvolvimento das forças produtivas, a composição orgânica do capital (capital constante e capital variável) tende a alterar-se. Na produção, aumenta-se o capital constante (os meios de produção) e diminui-se a necessidade do capital variável (a força de trabalho). Com isso, como explicaremos, tem-se um número excedente de trabalhadores, a chamada superpopulação relativa ou exército industrial de reserva. O excedente de trabalhadores possibilita a dinamização dos ciclos de rotação do capital - deixando disponível força de trabalho sempre renovável -, o rebaixamento dos salários e, até mesmo, o próprio aumento da produtividade - a medida em que cria-se o antagonismo “trabalhador ocupado x trabalhador desocupado” e os primeiros submetem-se ao ditames do capital por temerem ser substituídos pelos segundos. São trabalhadores funcionais a produção e reprodução da estrutura capitalista, segundo Marx, a condição e alavanca da existência do sistema. Da nossa perspectiva, o que é “novo” na configuração atual do desemprego, é a escala que este alcança, que não pode ser explicada meramente pela expansão do trabalho morto – como querem os discursos dominantes que falam da inexorabilidade da substituição da força de trabalho humana pela informatizada - mas sim pelo movimento do capital em sua dinâmica global – que faz com que, inclusive, em determinados contextos, a busca pelo trabalho humano, superexplorado, não cesse. E evidentemente, o que ganha faces contemporâneas, e a isto se refere Castel, são as consequências da extinção das redes de integração via trabalho, em uma sociedade de trabalhadores, como sintetiza o autor, especialmente nos contextos em que o pleno emprego foi alcançado, como é o caso da Europa e da França, em particular. Apresentamos, neste artigo, duas análises distintas, mas que colocam em “causa” uma problemática cujas consequências são diretas nas condições de vida da classe trabalhadora. Entendendo as análises não como mera síntese teórica, e sim como aparato contributivo para as transformações sociais, concluímos que analisar o desemprego como núcleo de uma “nova questão social” ou problema cuja dimensão é estrutural, interfere concretamente nas reflexões dos caminhos da superação da questão. Se entendido como “conjuntural”, pode ser superado sob o capitalismo. Se entendido como estrutural, são as próprias bases capitalistas que precisam ser transformadas. Afinal, como nos diz Marx, “assim como na religião o homem é dominado pelo produto de sua própria cabeça, na produção capitalista ele o é pelo produto de suas próprias mãos” (MARX, 2013, p. 697).