Apesar de uma história de desconfianças e rivalidades, que se inicia ainda no período colonial, durante o século XX as relações entre Brasil e Argentina intercalaram períodos de afastamento e desentendimentos e períodos de aproximação e tentativas de cooperação. No entanto, a partir da assinatura do Acordo Tripartite Itaipu-Corpus, em 1979, observa-se uma mudança nas relações entre os dois vizinhos.
Nesse sentido, na década de 1980, a cooperação nuclear entre os dois países foi um marco importante que deu início a uma nova etapa nas relações bilaterais. Esta cooperação foi um fator essencial para a superação das rivalidades e desconfianças mútuas, bem como para o fim das suspeitas internacionais de uma corrida armamentista entre os dois vizinhos. O entendimento dos dois maiores países da América do Sul e interlocutores de peso no nível regional tornou possível a formação de uma parceria estratégica durante os governos de José Sarney e Raúl Alfonsín. A intensificação de suas relações foi imprescindível para o aprofundamento da integração regional, tendo como o resultado mais notório a criação do Mercosul.
Apesar disso, na década de 1990, após a criação da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle (ABACC), acredita-se que a cooperação nuclear se limitou ao aumento da transparência e não houve avanços na cooperação científico-tecnológica. Assim, a cooperação nesta área passou por um período de estagnação. Isso ocorreu por diversos fatores como o contexto neoliberal, o alinhamento aos Estados Unidos, a falta recursos financeiros devido ao aprofundamento da crise econômica e desconfianças geradas nesse período.
Com relação à integração, a criação do Mercosul levou ao aumento significativo dos investimentos e das trocas comerciais intrabloco, além do fortalecimento da democracia. Contudo, também houve dificuldades em coordenar posturas, momentos em que a falta de comunicação entre os dois maiores membros do bloco e graves tensões comerciais levaram a se questionar sobre o futuro do Mercosul.
No iniciar do século XXI, com a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil, e Néstor Kirchner, na Argentina, observou-se uma grande aproximação entre os dois países – podendo ser comparada com a vista nos governos de Sarney e Alfonsín. Nesse período, intensificam-se os encontros e trataram-se de diversos temas da agenda bilateral bem como regional. A permanência da parceria não significou a inexistência de divergências e desentendimentos, porém possibilitou a consolidação e aprofundamento de mecanismos de integração e coordenação política na América do Sul. Por outro lado, no que se trata da cooperação nuclear, essa não avançou como o esperado no decorrer deste século e, na prática, ainda há dificuldades para implementar projetos conjuntos na área, permanecendo, muitas vezes, nos discursos e nas declarações de intenções.
A partir do exposto, esta pesquisa, que se encontra em andamento atualmente, tem como objetivo principal investigar a evolução da parceria estratégica de Brasil e Argentina. Dentro disso, optou-se por dar ênfase ao âmbito nuclear, pois se considera de grande importância a cooperação na área para o fortalecimento da confiança e afastamento das rivalidades, sendo assim, para a sustentação da parceria. Além disso, essa parceria estratégica é vista como o motor da integração regional. Assim, intenta-se compreender também, de modo geral, como a parceria atua para a consolidação dos processos integracionistas sul-americanos.
Dentro deste objetivo geral, é necessário compreender o conceito de parceria estratégica e o emprego deste nas relações bilaterais brasileiras e argentinas. Além disso, examinar como se desenvolveu historicamente as relações entre os dois países para, assim, investigar como se desenvolve a parceria estratégica no decorrer do século XXI.
A justificativa para a pesquisa reside na relevância destes dois países no cenário regional e na história das relações bilaterais que foram marcadas por períodos de rivalidade e períodos de cordialidade, com momentos de ampla parceria e avanços significativos para ambos os países, e para a região, e momentos de retração da mesma. Além disso, a partir da perspectiva da importância da integração latino-americana para o desenvolvimento político, social e econômico dos países, para sua inserção internacional autônoma, para defesa de seus territórios, para terem maior dinamismo frente às demandas regionais.
Esta pesquisa é um estudo exploratório e histórico-conceitual, composto por revisão bibliográfica e documental, utilizando-se de fontes primárias (documentos oficiais, tratados, notas e declarações de governos) e secundárias (artigos, livros, teses, dissertações, entrevistas, notícias e documentários).