O paper discute o papel potencial do ativismo fiscal na transformação das relações entre Estado e sociedade em diferentes países da América Latina, no sentido de promover um aprofundamento da democracia e o fortalecimento e expansão da cidadania. O tema da fiscalidade é central para compreender as relações entre Estados e sociedades contemporâneas. As obrigações dos indivíduos com a sociedade; as competências e legitimidade do Estado; a alocação de recursos públicos e privados; a promoção de diversas políticas públicas e a reprodução de desigualdades sociais são alguns dos vários aspectos da vida sociopolítica contemporânea que se relacionam intimamente com a questão fiscal. Pese esta centralidade, tal questão esteve até recentemente em grande medida ausente dos debates da sociedade civil e do âmbito da Esfera Pública, constituindo, enquanto temática, um quase-monopólio das elites políticas e econômicas, em discussões realizadas nos âmbitos do Estado e do Mercado. Tais discussões são caracterizadas, em sua maioria, por um alto nível de tecnicidade, recorrendo a uma linguagem amplamente excludente, e ocorrem predominantemente em espaços vedados à maioria dos atores sociais, principalmente aqueles que pertencem aos setores populares. Desde os anos 2000s, no entanto, no contexto da crise financeira global, da proliferação de paraísos fiscais e da expansão da indústria da evasão fiscal, questões relacionadas à transparência e à justiça fiscal vêm ganhando espaço na agenda política de diferentes setores da sociedade civil. A América Latina não é exceção a tal desenvolvimento, e ainda que tais movimentos sejam incipientes se comparados com movimentos sociais mais tradicionais (com base em identidades coletivas de classe, etnia, gênero e raça), assistimos a uma proliferação do ativismo fiscal na região. Na primeira parte do paper eu analiso o contexto no qual tal ativismo emerge, identificando os fatores que contribuíram para a apropriação da temática fiscal por uma gama mais ampla de atores sociais do que historicamente há sido o caso até então. Na sequência, o artigo explora a trajetória e a prática dos principais movimentos sociais, organizações, redes e iniciativas das sociedades civis da região que lidam com a temática da fiscalidade, tal como a Red de Justicia Fiscal de América Latina y el Caribe, Transparência Internacional e Publish What You Pay, entre outros. O artigo identifica suas temáticas; o enquadramento dado por tais movimentos a questão tributária; seus repertórios de ação coletiva, sua mobilização de recursos, e suas formas de engajamento com o estado. Adicionalmente, o artigo revisa como os diferentes estados da região tem reagido a tais movimentos, e os resultados teóricos e práticos de tal ativismo fiscal. Em seguida, eu exploro o potencial de tais mobilizações e iniciativas no sentido do aprofundamento da democracia e do fortalecimento da cidadania. Meu principal argumento é que a apropriação pela sociedade civil da temática fiscal, até então limitada aos espaços do mercado e do Estado, tem o potencial de fortalecer a cidadania e os aspectos participativos da democracia, dado que a discussão sobre as políticas fiscais envolve necessariamente um debate mais amplo sobre que tipo de comunidade política é desejada pelos cidadãos. Adicionalmente, a apropriação popular da questão fiscal pressiona por uma democracia mais participativa, mediante um questionamento das fronteiras entre estado e sociedade civil. Finalmente, eu aponto os principais obstáculos para que esse potencial se realize. Mais especificamente, mostro como tal ativismo fiscal tem aceitado acriticamente muitos dos elementos e pressupostos do modelo tradicional de Estado, cidadania e democracia. Adicionalmente, a pauta de debates não se adapta as particularidades da região, e a dependência de tais movimentos de recursos de doadores externos limitam sua autonomia e criatividade. Se tais movimentos não mudarem isto, o potencial do ativismo fiscal em contribuir para uma democratização substantiva, e não apenas institucional, se torna impossível