A Psicologia, enquanto ciência e profissão, tem sido duramente questionada pelas lentes acríticas e ahistóricas de análise dos processos de subjetivações e dos modos de viver, e em especial, no contexto latino americano a dependência servil, colonial e imperialista às produções do Norte Ocidental tem legitimizado um sistema de opressões classistas, racistas, sexistas. A Interseccionalidade surge como caminho analítico-metodológico para a compreensão articulada das opressões e a construção de modos de enfrentamento e intervenção não fragmentados. Esse é um conceito apresentado pelas novas correntes dos feminismos, que ao fugir de perspectivas universais e essencialistas introduz elementos e categorias relacionadas à lutas por reconhecimento, como as questões de raça, classe, gênero e sexualidade na compreensão das subjetivações. Objetivamos aqui analisar as contribuições dos estudos interseccionais e feministas para experimentações decoloniais na pesquisa em Psicologia. Para tanto, analisaremos a experiência de uma pesquisa de doutoramento em andamento no bairro periférico da “Barra do Ceará”, no município de Fortaleza, cidade do Nordeste do Brasil. Essa investigação versa sobre as interfaces da prostituição feminina com o campo da saúde, mais especificamente no que diz respeito aos itinerários de cuidados em saúde produzidos por mulheres trabalhadoras do sexo. Para tanto, busca-se conhecer os percursos, as técnicas e as tecnologias que as mulheres estabelecem no território, descrever suas práticas de cuidado pessoais e coletivas, compreender as experiências de cuidado, afim de entender como as interseccionalidades atravessam suas experiências. Teórico-metodologicamente o Feminismo Interseccional, a saúde coletiva e os estudos foucaultianos fundamentam esta pesquisa qualitativa de inspiração etnográfica – destaca-se a escolha por feministas de perspectiva pós-coloniais (Maria Lugones, Ângela Davis, Gloria Anzaldúa, Sueli Carneiro, Claudia Mayorga, Conceição Nogueira, Djamila Ribeiro), bem como feministas referências nos estudos da prostituição (Adriana Pisciteli, Monique Prada e Ana Paula Silva). A Barra do Ceará é o território-referência para a investigação, que transitará pelos fluxos produzidos pelas mulheres, nesse e em outros territórios, visto que é nessa relação com a cidade que o cuidado se produz. Como procedimentos metodológicos desde abril de 2017 têm sido realizadas observações e conversas no cotidiano, entrevistas e o diário de campo, tendo as práticas discursivas como caminho de análise das itinerâncias. Como principais questões, apontamos que os elementos de étnico-raciais, de classe, de gênero, de sexualidade, geração e origem não fazem parte do arcabouço teórico-metodológico hegemônico na Psicologia, fato que afasta o conteúdo programático clássico da experiência diversa dos sujeitos. No reconhecimento desses marcadores sociais é relevante atentar a origem distinta das categorias, por não se tratar simplesmente de somar ou ordenar opressões, mas compreender como essas tornaram-se categorias políticas e como redes de privações e privilégios forjam modos de viver dos sujeitos. Na pesquisa em Psicologia isso se expressa no modo raso como os estudos são localizados/ territorializados e no modo como as categorias e os “sofrimentos psíquicos” tentem a ser universalizados. Dentre as marcas das violências estruturais, laborais e de gênero está o desafio de garantir a integralidade da atenção prestada pelas políticas públicas, percebendo-se tanto os estranhamentos que as tentativas de aproximação causavam nas dinâmicas das zonas de prostituição e dos serviços de saúde, como as práticas de cuidado singulares e desinstitucionalizadas que são produzidos pelas mulheres no território. Ao fazer uso do lugar, ainda privilegiado, da Academia, o faço politicamente questiona-se a produção dos discursos sobre prostituição, dos perversos jogos de silenciamento das violações e das tentativas de desarticular as linhas de fuga que cotidianamente são ensaiadas, traçadas, refeitas. Com as feministas interseccionais há a aprendizagem do quanto que a experiencia de escrever diz de uma luta política pela disputa de narrativas e produção de outras realidades. Poder visibilizar essas questões e esses vozes, por muitas vezes silenciadas e interditadas, é um dos sentidos de escrever. É uma forma de militância, de afrontamento, cuidado. O contexto de desigualdade das relações de gênero e raciais e os atravessamentos das relações de poder exigem uma postura crítica e politicamente engajada, pois despida desses princípios a Psicologia em uma perspectiva pós-colonial é pouco diferente da tradicional, sendo a adição da interseccionalidade apenas mais um tópico de estudo.