Este trabalho é uma versão adaptada de uma pesquisa de doutorado concluída em 2013, onde realizou-se um estudo de caso com mulheres não-heterossexuais, que tiveram acesso ao ensino superior e residiam nas cidades de Ilhéus e Itabuna-BA. A pesquisa revelou que a forma como essas mulheres lidam com a publicização de suas identidades sexuais expressa a presença/ausência e a intensidade com que o padrão de poder heteronormativo atua na sua construção identitária, permitindo perceber quais as alternativas de questionamentos a este padrão elas têm acesso, e de que maneira os contradiscursos à heternormatividade podem afetá-las e informar as autoconstruções de si.
Apesar do discurso favorável à diversidade sexual a cada dia encontrar mais espaço e visibilidade na mídia, na internet, nos debates em programas de TV, nas escolas e no cenário político e, apesar das conquistas de uma série de direitos civis por parte do movimento LGBT, a matriz cultural heteronormativa é ainda um padrão de poder bastante vigoroso em nossa sociedade e que apenas recentemente começou a sofrer seus primeiros golpes. O que esta pesquisa apontou foi que a incorporação de concepções valorativas favoráveis à diversidade sexual depende de mais do que o acesso cognitivo a essas concepções veiculadas por meios televisivos ou pelas redes sociais: a reivindicação de legitimidade e valor de sua identidade sexual depende, como afirma Axel Honneth (2003), do reconhecimento social obtido por meio da experiência amorosa produzida por meio de relações sociais significativas em nossas vidas, como são as relações familiares, as relações de amizades e relações amorosas românticas. No caso das entrevistadas dessa pesquisa, a construção de uma autocompreensão positiva sobre si mesma esteve relacionada principalmente à experiência de fortalecimento identidade sexual não- heterossexual graças ao reconhecimento social construído por meio de relações de amizade construídas por meio do movimento estudantil universitário.
O acesso a um conjunto discursivo de resistência à heteronormatividade juntamente com a experiência de serem reconhecidas em sua diferença sexual (e não a despeito dela) equipou as entrevistadas com a autoconfiança e a autosegurança capazes de fazê-las compreenderem suas sexualidades como tão legítimas quanto a heterossexual, levando-as, inclusive, a ter coragem de afirmá-las publicamente. Este fortalecimento identitário foi possível devido a um estilo de vida que lhes permitiu não apenas acessar um conjunto de saberes de resistência à heteronormatividade, mas principalmente, pelo reconhecimento social que este estilo de vida lhes propiciou, devido à experiência de convivência intensa com um grupo de amigos com quem puderam viver a experiência de serem aceitas e reconhecidas não a despeito de sua identidade sexual, mas também em sua identidade sexual.
Os resultados desta pesquisa reforçam os argumentos em favor da problematização das condições de vulnerabilidade e despossessão de certas identidades, em que grupos inteiros são condenados e punidos pela sua “diferença”, por não estarem de acordo com as identidades inteligíveis produzidas pela heteronormatividade. Seguindo as inspirações da teoria do reconhecimento, Judith Butler (2010) afirma que todos somos seres carentes de reconhecimento social. Contudo, para alguns grupos, a provisão deste reconhecimento é impedida por condições que são sociais: segundo ela, “as condições em que as vidas corporais são expostas a esta dependência mútua não são equitativas, de modo tal que esta precariedade – que é social – possa ser distribuída distintamente, produzindo vidas mais valorizadas que outras” (CULT, 2013: 43). Neste ponto, é bastante importante retomar a discussão realizada a partir de Axel Honneth, frisando sua afirmação de que o processo de luta social compreende a condição de que as experiências individuais de desrespeito precisam ser interpretadas como “experiências cruciais típicas de um grupo inteiro”, para que elas possam influir, “como motivos diretores da ação, na exigência coletiva por relações ampliadas de reconhecimento” (HONNETH, 2003: 257). Fica evidente, com isso, a importância política primordial que possui o movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Travestis e Transgêneros) como motor de mudanças sociais em direção a uma sociedade mais justa e igualitária.
Por fim, este trabalho busca apontar também a necessidade de romper com o que Walter Mignolo chama de “constituição colonial dos saberes, das linguagens, da memória e do imaginário” impostas pelo padrão de poder colonial/moderno que opõe razão à sentimento, sujeito à objeto, cultura à natureza. Como afirma Anzaldua (2005: 707), “Extirpar de forma massiva qualquer pensamento dualista no indivíduo e na consciência coletiva representa um início de uma longa luta”. Esta longa luta é também aquela que visa descolonizar o pensamento dualista hegemônico que nos impede de perceber que a construção de nossas subjetividades não ocorre de maneira isolada, mas que, na verdade, depende, como afirma Axel Honneth, completamente da relação com o outro. Assim, a partir da pesquisa realizada, buscou-se problematizar as concepções epistemológicas que priorizam uma visão individualista e racionalista como as formas por excelência de produção do conhecimento, desconsiderando o papel desempenhado pelos sentimentos, emoções e afetos na construção da subjetividade e da ação política.
Referências
ANZALDÚA, Gloria. La Conciencia de la meztiza/ Rumo a uma nova consciência. Revista Estudos Feministas. Florianópolis, 13 (3): 320, setembro-dezembro/ 2005.
BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
CULT. São Paulo: Editora Bregantini, ano 16, n.185, novembro, 2013.
HONNETH, Axel. Luta por Reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Ed. 34, 2003.
MIGNOLO, Walter. Desafios Decoloniais Hoje. Revista Epistemologias do Sul. Foz do Iguaçu/PR, 1(1), PP. 12-32, 2007.