O campo permanece como um dos marcadores centrais da identidade profissional do Antropólogo, fator evidenciado pela ubiquidade dos considerados grandes etnógrafos nas discussões da disciplina. No entanto, enquanto categoria analítica, o campo permanece, de certa maneira, negligenciado, e resguardado a uma espécie de senso comum. Este lugar misterioso que guarda o conhecimento nele produzido sob uma espécie de égide da “verdadeira antropologia”, raramente é visto para além de uma localidade onde se exerce a função, e, por esta razão, permanece carente de análise.
Todavia, o trabalho de campo se encontra, também, envolvido em extensa trama micropolítica que por sua vez é definidora das práticas e comportamentos engendrados durante a pesquisa. Processo que, por sua vez, diferenciam a Antropologia de outras ciências, considerando a hegemonia das instituições que guiam estas discussões.
Este mesmo campo, contudo, apresenta outros desafios. A prática etnográfica estabelece, ainda, uma “hierarquia de pureza” entre campos mais e menos dignos de análise. Em larga medida, um “bom campo” não só elenca o conhecimento produzido à categoria antropológica, como hierarquiza práticas “boas” e “ruins”, e fundamenta o que é ser um “antropólogo verdadeiro”.
Influenciados especialmente pelo texto Anthropological Locations: Boundaries and Grounds of a Field Science, de Akhil Gupta e James Ferguson (1994), procuramos neste texto lançar alguma luz sobre a dimensão política das práticas antropológicas concernentes ao trabalho de campo. Para isso, investigamos textos que ou foram produzidos fora do padrão clássico de etnografia, levando em consideração as relações de poder das instituições, que abordassem temáticas que cruzassem com o proposto.
A justificativa desta produção parte das mesmas premissas: um esforço para uma maior conciliação entre temáticas que contemplassem em alguma medida e ao mesmo tempo, as linhas e abordagens temáticas tão distintas de ambos os autores deste texto. E, consequentemente, este esforço esteve presente em todos os momentos da produção desta pesquisa, influenciando, inclusive na escolha das obras tocantes ao nosso objetivo, que serão tratadas adiante.
É importante lembrar que por “não clássicas” tomamos produções e discussões que extrapolem as relações de poder que moldam, no âmbito de uma micropolítica acadêmica, práticas intelectuais e profissionais, embasadas em uma construção hegemônica do que é o trabalho de campo.
Optando por produções que nos permitissem repensar trabalhos de campo “tradicionais”, procuramos nos afastar, então, de uma etnografia obsessiva com seus graus de alteridade e que detém, em seu cerne, a figura de um pesquisador de etnia, gênero e classe específica. A fundamentação básica para tal escolha se encontra, justamente, nos modelos etnográficos empregados pelos pesquisadores que confeccionam este texto.
O ideal de um “bom campo” não raramente nubla o que compreendemos enquanto “verdadeira antropologia”. Supõe-se um campo distante, fruto de uma narrativa de descobertas heroicas. Um campo inóspito, de difícil acesso, que (idealmente) nos leva aos limites da imaginação antropológica e da nossa capacidade de investigação. O próprio exercício antropológico, e, mais ainda dificilmente na cidade permitiria nos desligássemos dele. Trata-se de um campo que atrai e persegue, que instiga e desperta. O campo não necessariamente apresenta saída, logo, sequer temos a oportunidade de “adentrá-lo”.
Objetivamos, com isso, trazer luz à possibilidade de que discussões profícuas para o campo antropológico ocorrem, também, longe do tradicional, e que a revisitação da técnica se mostra proveitosa, ainda quando vai de encontro à solidez de suas premissas. Desejamos, com esta produção, evidenciar que o fluxo de ideias acerca da produção etnográfica ultrapassa a adequacidade de seus métodos tradicionais, originalmente empregados para estudar sociedades de pequena escala, incapazes de tratar desafios políticos de um mundo pós-colonial, mutável.