Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
Sentipensar las frontetras

*Aníbal Orué Pozzo
*Diana Araujo Pereira



Esta proposta se organiza a partir da constatação de que tanto os temas de pesquisa quanto as práticas metodológicas empregadas para a observação e análise dos espaços de fronteira orientam-se, em sua maior parte, ao escopo institucional da vida social e cultural destes territórios. Mesmo as pesquisas que privilegiam aspectos não contemplados pelo âmbito econômico (voltado normalmente para as relações de trabalho, criminalidade, fluxos migratórios e tráfico), ou das relações de integração e cooperação transnacionais e regionais, portanto pesquisas que procuram submergir-se na vida cultural, com seus trânsitos e fluxos, normalmente atêm-se ao âmbito institucional ou institucionalizado da cultura (processos educativos e/ou linguísticos em contexto escolar, entrecruzamentos de serviços na área da saúde pública fronteiriça, práticas religiosas, etc.). No entanto, entendemos que o âmbito institucional impõe limitações ou, no melhor dos casos, cristaliza relações sociais e culturais para os estudos de fronteira, pois sua prática, geralmente marcada pela lógica do Estado Nação, busca homogeneizar e coisificar as relações e os trânsitos da vida cotidiana dos espaços fronteiriços. O institucional, portanto, não esgota as subjetividades e os processamentos simbólicos, como também as identificações contextuais que se dão nas práticas cotidianas, talvez por não reconhece-las como relevantes para a vida social, normalmente enquadrada em regulamentações que buscam dar objetividade aos seus mecanismos de funcionamento. De fato, institucionalizar estas relações sociais e culturais significa torna-las compreensíveis em relação a comportamentos e práticas que se repetem e se enquadram em leis generalizantes; ao objetiva-las, cristaliza tais relações que são fundamentalmente marcadas pela mobilidade e adaptabilidade, ou seja, pelos fluxos e negociações de sentido. O institucional, portanto, restringe seu escopo aos arquivos ou bibliotecas coloniais (Mudimbe, 1988). Estes mesmos arquivos coloniais foram construídos ao longo dos últimos séculos, privilegiando artefatos tecnológicos e linguísticos controlados e dominados pelos colonizadores, deixando de lado a construção de sentidos e de saberes que partem de outras perspectivas ou suportes. Junto com a colonização do continente, estabeleceu-se uma outra fronteira, que permanece extremamente vigente na construção do conhecimento, aquela que se dá entre a cidade letrada (Rama, 2004) e os que vivem na condição extramuros e que, portanto, estão excluídos do ordenamento e da produção do saber; ou que produzem outros saberes não contemplados pelo primeiro.
Estas diretrizes vêm condicionando uma reflexão acadêmica distanciada do âmbito do cotidiano; e tem levado, em muitos casos, a repetir os esquemas presentes em situações de colonialidade. Neste sentido, esta proposta pretende estabelecer relações e diálogos com o repertório (Taylor, 2013), ou seja, com os âmbitos performativos, orais e visuais que compõem as “práticas promíscuas” (ou as outras racionalidades, de Milton Santos, 2001) que extrapolam as regulações institucionalizadas e de recorte nacional que regulamentam a religiosidade, a saúde, as políticas, o educacional, o cultural e artístico, o linguístico, etc.
Propomos uma observação situada que priorize a invenção do cotidiano (Certeau, 2009) de homens e mulheres, pessoas que sistematicamente convivem com as culturas e espaços sociais fronteiriços, elaborando conjuntamente uma série de acordos – que vão do econômico ao simbólico e afetivo – para sua constante reorganização social. Tais “guerras culturais” (Coelho, 2000), baseadas em táticas e estratégias de subjetivização das relações interpessoais e/ou identitárias, fomentam um fluxo e um dinamismo que intensificam as especificidades de cada contexto. Aproximamo-nos, portanto, da etnopesquisa crítica que procura “compreender as ordens socioculturais em organização, constituídas por sujeitos intersubjetivamente edificados e edificantes, em meio a uma bacia semântica culturalmente mediada” (Macedo, 2010, p. 9). Por outro lado, o estudo dos processos de recepção e das mediações culturais, através da construção de mapas noturnos que levem em conta estas dinâmicas (Martín-Barbero, 2013) também ampliam o olhar investigativo para além dos suportes tradicionalmente vinculados aos estudos de fronteira, incluindo entre os seus interesses práticas muito variadas, que iluminem os processos de interculturalidade e intraculturalidade, sempre oscilantes nestas formações sociais. As mediações que se estabelecem entre pessoas - assim como as interações sociais - assumem, neste contexto, práticas cotidianas não hegemonizadas pela institucionalização. A hibridização (García Canclini, 2000), que em territórios de fronteira compromete diversas contemporaneidades, tradições e significações, juntamente com a mescla destes trânsitos e culturas, também levam a pesar possibilidades não institucionalizadas destas práticas.
Priorizamos, portanto, o entendimento da fronteira como um espaço marcado pela pluralidade e pela mobilidade, tanto de pessoas e de mercadorias quanto de significados. Nossa proposta é ampliar a perspectiva metodológica a fim de que ganhem prioridade, na pesquisa acadêmica, as diversas dinâmicas criativas que geram processos próprios de naturezas diversas: da construção de conhecimento aos modos de convivência. Neste sentido, há que se entender que a fronteira, como espaço territorial, também foi submetida à lógica da cidade letrada, de Angel Rama, que estabelece a escrita como fronteira técnica e epistemológica. Se derrubarmos este muro, precisamos ampliar as formas de observar, escutar e cheirar estes territórios, para que o corpo, a oralidade e a visualidade ganham sentidos críticos e reflexivos.




......................

* Orué Pozzo
Universidad Federal de la Integración Latinoamericana - UNILA. Foz do Iguacu, Brasil

* Araujo Pereira
Universidad Federal de la Integración Latinoamericana - UNILA. Foz do Iguacu, Brasil