Órgão estruturador da Indústria cultural brasileira, as emissoras de TV adentram em novos cenários a partir da segunda metade dos anos 1990. Além de registrar uma diminuição sistemática de público durante toda a década pela disseminação dos videogames, dos aparelhos de videocassete, dos de DVD, pela TV a cabo e, já ao seu final, por conta da internet, as emissoras perderam audiência em maior proporção justamente nas camadas mais privilegiadas da sociedade – de 1993 a 1997, o número de assinaturas de TV a cabo saltou de 205 mil a 2,5 milhões, atingindo 30% dos domicílios nas chamadas classes A e B (cf. Borelli & Priolli, 2000, p. 137); em 1998, 85% dos 1,5 milhões de internautas pertenciam a esses mesmos estratos (cf. Idem, ibidem, p. 155). Porém, ao lado dessa migração de parte importante dos estratos de maior renda, o mercado televisivo sentiria os reflexos de um movimento capaz de desdobrar uma reação inversa – com o Plano Real, inicia¬-se um processo de aumento do potencial de consumo das camadas mais populares, repercutindo quase imediatamente em sua dinâmica concorrencial. Entre 1993 e 1995, houve um acréscimo de renda para todas as classes sociais de cerca de 12% ao ano, reduzindo a proporção de brasileiros abaixo da linha de pobreza de 35,3% para 28,8% (cf. Neri, 2006, p. 9). No período lulista, a expansão dos programas assistenciais e a política de valorização do salário-¬mínimo desencadearam, entre outros fenômenos, uma significativa redução no nível da desigualdade econômica, alterações qualitativas no mercado consumidor e uma profunda mudança na estrutura de classes brasileira. Enquanto o PIB nacional cresceu, em média, 2,88% entre 2003 e 2009, a renda dos setores populares elevava-¬se à taxa de 6,79% (cf. Idem, ibidem, 2010, p. 10), destravando a mobilidade de amplo contingente populacional a um inaudito patamar de renda e de consumo. Tendo em vista o conjunto dessas transformações, o objetivo desta comunicação é problematizar alguns dos seus efeitos sobre a grade de programação da TV Globo e, em especial, na representação de personagens oriundos de camadas populares em sua teledramaturgia recente. Se, durante período importante da história da televisão brasileira, era reservado um lugar apenas marginal – ou em registro quase exclusivamente cômico – à base da pirâmide social do país nas telenovelas, o acréscimo substantivo do nível de renda desses estratos nessas últimas décadas parece inverter esse persistente viés. Mais do que um simples redirecionamento de suas estratégias comerciais até então hegemônicas, tal encaminhamento das questões se desdobra em uma problemática sociocultural mais profunda. Mesmo que a disparidade de renda e a concentração de riquezas sejam persistentes do Brasil contemporâneo, tendências socioeconômicas apontam para a consolidação de uma sociedade de consumo de plasticidade suficiente para integrar, em seus termos, a grande maioria da população. Qual é o significado dessas dinâmicas no mais importante produto de entretenimento de massa no Brasil, e de que modo elas condicionam o desenvolvimento do mercado televisivo nacional nortearão as questões a serem debatidas.
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