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Resumen de ponencia
SOBRE OS QUE CHEGAM: POR ONDE ANDAM AS CRIANÇAS REFUGIADAS

*Fernanda De Azevedo Milanez



Este texto partilha questões de uma pesquisa de doutoramento em fase de desenvolvimento, situada no campo dos Estudos da Infância, cujo olhar se lança especificamente sobre crianças em situação de refúgio ou deslocamento interno. Objetiva tornar visíveis as experiências das crianças refugiadas, por meio de suas relações espaçotemporais, como refazem territorialidades. O que vivem ao refazerem territorialidades? Como percebem seus (novos) territórios? Como lidam com as situações de deslocamentos? Como vêm e vivem em suas cidades após as situações de destruição? Estas indagações iniciais surgiram quando este tema passou a ter relevante divulgação na mídia em geral, especialmente no ano de 2016 e a partir de então, comecei a buscar compreender porque e como esse tema me afetava.
Minha memória de infância guarda a experiência de perder de vista um espaço de moradia próximo a minha casa – a favela da Praia do Pinto, situada num bairro do município do Rio de Janeiro, no mesmo Estado – que fora abduzido do meu campo de visão infantil levando além das casas, as pessoas, e entre elas, colegas da escola pública freqüentada por nós. Esta remoção forçada, vivida em tempos de ditadura militar ficou silenciada durante toda minha infância e por esta razão, aparentemente adormeceu. Muitos anos se passaram quando vivi uma experiência de desastre socioambiental na região serrana do Estado do Rio de Janeiro, onde passei a residir. O ambiente de destruição e mortes se manteve presente durante um prolongado tempo de reconstrução dos diversos bairros periféricos mais atingidos, uma vez que, por razões políticas e econômicas são continuamente invisibilizados, como o são em todo desastre anunciado, aquele que atinge majoritariamente pessoas pobres destruindo suas moradias, que frequentemente são construídas nas encostas, sem nenhum planejamento, segurança ou apoio técnico governamental.
Aqui brota a possibilidade que essa pesquisa oferece, de entrelaçar ciência e política com questões da vida, do cotidiano, que de tal forma me afetaram na infância e afetam na vida adulta, necessitando, portanto existir enquanto pesquisa sobre crianças refugiadas.
Para adentrar nesta conversa, apresento um contexto que situa superficialmente a movimentação de pessoas em situação de refúgio no Brasil e no mundo, de forma a ir descortinando algumas invisibilidades, afirmando que não vejo como novidade trazer para pesquisa, esse tema no contexto do mundo contemporâneo, tampouco fora novo em outros tempos espaços. Tal fenômeno segue afetando a humanidade em todos os seus continentes, considerando a movimentação de homens e mulheres de todas as idades, circulando por territórios vizinhos, desbravando e disputando espaços.
Por muito tempo, pessoas deslocavam-se interessadas por diferentes lugares e suas riquezas, pelo comércio de coisas que circulavam pelo mundo e também por outras pessoas, dando início aos processos de colonizações, com longos períodos de escravidão e mais adiante produzindo grandes e pequenas guerras, impondo importantes deslocamentos forçados, levando populações inteiras para campos de refugiados ou situações de clandestinidade.
Em tempos remotos, noticiários nos dão a ver recorrentes informações sobre o movimento migratório que alardeia fortemente nas fronteiras do continente europeu, apesar da consciência de que tal fenômeno afeta todos os continentes, uns mais aparentemente do que outros. A amplificação midiática divulga parte da rota humana se dirigindo para o hemisfério norte considerado desenvolvido, para onde supostamente caminham os movimentos de massa em busca de abrigo, trabalho e segurança, saindo muitas vezes de territórios sem Estados legitimados, muitos oriundos de regimes ditatoriais afundados em guerras e assassinatos coletivos de longos prazos. Mundialmente, essa demanda que “invade” a Europa tem sido apontada como o “problema da migração”, em que as pessoas em situação de refúgio são confundidas com terroristas, gerando graves hostilidades sociais, estigmatizando pessoas que deveriam ser protegidas pelos estatutos de direitos internacionais (BAUMAN, 2017).
Entretanto, o Relatório Tendências Globais 2017, divulgado pela ACNUR – Agencia da ONU para Refugiados – afirma que expressiva quantidade de refugiados, algo em torno de mais de oitenta por cento da totalidade das pessoas, encontram-se abrigados não na Europa, mas em países periféricos, do hemisfério Sul, de renda média ou baixa. Estão espalhados em outros países, mas aqui importa ressaltar que milhões de pessoas deslocam-se internamente dentro de seus próprios países, por não terem possibilidades, principalmente financeiras, de sair.
Como estão presentes na sociedade e na cultura, as crianças fazem parte deste contexto que se apresenta para todas as pessoas em situação de refugio. Vivem cada momento histórico, compartilham a vida junto aos seus grupos sociais e seguem, acompanhadas ou sozinhas, resignificando seus (novos) territórios. Algumas organizações como a ONU, afirmam crer que as crianças representam a metade do contingente de refugiados de todo mundo. Considerando as entradas clandestinas nos países e as possíveis divergências na comunicação entre e os órgãos, podemos concluir que as estimativas quantificadas podem estar longe e aquém de retratar o número real dos refugiados de pouca idade. Por esta razão esta pesquisa pretende debater a invisibilidade das infâncias refugiadas, aprofundando a reflexão sobre a ubiquidade de estarem em toda parte e não aparecerem em parte alguma.
Se estão em toda parte, podemos partir da premissa que a infância pode se oferecer como uma fecunda perspectiva a partir da qual é possível formular uma análise crítica da cultura, como sustenta o filósofo Walter Benjamin, ao afirmar que a infância implica num mundo próprio inserido mundo maior: encontram-se articuladas uma experiência singular materializada no cotidiano das crianças e os indícios das dimensões sociais, econômicas, políticas e culturais que transcendem a vida de cada criança.
Fazendo coro com estudiosos de diversas áreas das ciências, que consideram pessoas de pouca idade como atores sociais em sua plenitude, com o aporte da filosofia benjaminiana, em especial as memórias do autor relatadas em sua obra Infância em Berlim em 1900 e sua contundente crítica aos tempos de barbárie que previu para a humanidade contemporânea, tema sempre presente em seus escritos, a presente pesquisa pretende captar o que seja, pelas experiências infantis em sua forma miniaturizada, o espírito desta contemporaneidade permeada por deslocamentos e destruições semelhantes às experiências de barbárie que o autor viveu um século atrás. É preciso fortalecer a ideia de as crianças serem reconhecidas como pessoas capazes de negociar, disputar, compartilhar seus espaços com seus pares e com adultos, tornando-se cidadãos visíveis.




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* De Azevedo Milanez
Universidade Estadual do Rio de Janeiro UERJ. Rio de Janeiro, Brasil