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Resumen de ponencia
Cultivando resistência: cuidado e proteção frente aos riscos nas práticas de uma chazeira quilombola

*Dirce De Christo



Este trabalho relata uma experiência de pesquisa etnográfica em uma comunidade quilombola localizada na zona rural do Município de Portão, no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. As comunidades quilombolas são territórios ocupados por grupos de pessoas negras que escaparam dos cativeiros durante a escravidão que aconteceu no Brasil entre os séculos XVI e XIX. Atualmente, em todo o país, há diversos territórios ocupados pelas gerações descendentes desses grupos escravizados, denominadas comunidades remanescentes de quilombos.
A pesquisa se estende de 2015 a 2018, com pequenos períodos de tempo vividos com a comunidade, que foram ampliados no último ano. Foi através de relações pessoais, principalmente com mulheres e baseadas no cuidado, que se deu meu contato com a comunidade. Sem auxílio de entidades estatais que me dissessem onde ir, ou o que seria interessante que eu observasse, fui seguindo a rede que as mulheres da comunidade criaram e me deram licença para transitar.
O trabalho com o cuidado e a reprodução da vida, que fica a cargo das mulheres e é invisibilizado no contexto da colonialidade esteve presente em todo meu trabalho de campo. A disposição de espaço para dormir, comer e conversar, e os cuidados compartilhados da minha filha pequena, que me acompanhou em parte do processo, são expressões desse cuidado que eu recebi das mulheres da comunidade e foram fundamentais para a execução da etnografia. Na escrita deste texto, procuro assumir uma ética do cuidado na pesquisa (MARQUES e GENRO, 2016). Os nomes da comunidade e das pessoas citadas serão preservados, assumindo-se nomes fictícios para todos. Tal opção é parte deste cuidado, que se baseia na escuta etnográfica (SEGATO, 2012), definindo o enfoque e a abordagem da pesquisa de acordo com o que emerge do campo. A decisão pela proteção dos nomes surge da própria vivência com a chazeira Dona Flores. Tendo recebido de sua mãe o dom de preparar xaropes medicinais para problemas respiratórios, ela está ciente de que este trabalho envolve riscos e prefere evitar que eles sejam ampliados com a sua exposição em meios de comunicação.
O objetivo deste trabalho é percorrer as práticas de Dona Flores com as plantas medicinais, investigando as motivações que a levam a querer evitar que seu ofício seja publicizado. Neste processo, vem à tona um forte sentido de resistência e proteção nas posturas desta chazeira quilombola em relação ao conhecimento que adquiriu com as gerações anteriores e transmite através da oralidade. Uma contextualização da comunidade em que vive, com olhar mais aprofundado para a realidade experienciada pelas mulheres e as respostas que elas criam aos riscos que percebem, permite localizar as práticas de Dona Flores em um panorama mais amplo. É possível entrever um modo de vida quilombola que navega através de gramáticas de uma africanidade, que revive e se recria mesmo após séculos de ataques do projeto colonizador.
A partir de uma contextualização da comunidade, com enfoque na experiência das mulheres, surge a percepção do risco como fator presente no cotidiano. Através da articulação de estratégias de proteção, as mulheres do quilombo criam resistências aos perigos que rondam a comunidade, relacionados às muitas formas que assume o projeto colonizador. O aprofundamento desse olhar sobre as práticas de uma chazeira da comunidade permite perceber tais estratégias em sua relação com as plantas medicinais, onde há também risco, envolvendo a legitimidade de seu saber não-hegemônico.
O conhecimento sobre plantas medicinais de Dona Flores se reflete a um tempo em potência e perigo. Suas práticas de produção de xaropes medicinais se refletem em uma atuação comunitária que lhe permite transcender o ambiente doméstico, colocando-a em contato com pessoas de dentro e de fora da comunidade, o que lhe proporciona reconhecimento e trocas, de conhecimentos, plantas, afetos. Por outro lado, seu saber sobre as plantas medicinais, que lhe permite voos maiores do que o trabalho reprodutivo a que a divisão sexual do trabalho destina as mulheres, também lhe traz riscos. O temor de que autoridades estatais condenem sua atuação se faz presente. Em resposta, ela cria estratégias de salvaguarda dos conhecimentos, as quais atravessam seu corpo e a extensão dele, o terreno ao redor da casa. Seu corpo-território é lugar de produção da resistência, carregando seus saberes onde quer que ela vá, e transmitindo-os através da oralidade a quem esteja aberto a receber.
A exposição da experiência de uma mulher quilombola com o saber e a prática, a partir de plantas medicinais, pode deixar pistas de como trabalhar e aprender com este tipo de conhecimento em outros contextos. Também fala sobre onde procurar e produzir as estratégias de enfrentamento: o corpo, espaço privilegiado da exploração e perseguição às mulheres, é terreno fértil para a criação de resistências e proteção do conhecimento. E não só o corpo das mulheres, mas o das plantas também. Dona Flores nos ensina que as plantas escolhem onde querem ficar. Elas também são capazes de nos dizer onde é seguro permanecer. Quando encontra olhar treinado e percepção aguçada, o conhecimento, aparentemente disperso pelas múltiplas informações do espaço, é potência que se perpetua e expande.

REFERÊNCIAS
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* De Christo
Programa de Pos-Graduaçao em Sociologia. Instituto de Filosofia e Ciencias Humanas. Universidade Federal de Rio Grande do Sul - PPS/UFRGS. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil