Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
SLAMS NA CIDADE DE SÃO PAULO: CORPOS E PALAVRAS FLECHAS

*Ariane Aboboreira



O slam pode ser definido de diversas maneiras: uma competição de poesia falada, um espaço para livre expressão poética, uma ágora onde questões da atualidade são debatidas ou até mesmo mais uma forma de entretenimento, mas é inquestionável que ele se tornou, além de um acontecimento poético, um movimento social, cultural e artístico que se expande progressivamente e é celebrado em comunidades em todo o mundo. Na cidade de São Paulo atualmente há em torno de 30 slams que espalham por todas as regiões.
Por muito tempo pairou a ideia da poesia como algo circunscrito a círculos acadêmicos, ou pertencendo a um ou outro determinado grupo. Assim como nos saraus mais tradicionais, a ideia do formato em que o slam é concebido tende a democratizar a poesia e devolvê-la novamente às pessoas tendo como ponto de partida um jogo cênico onde, como em todo jogo, a torcida, a emoção e o senso de participação façam parte do encontro. Um Slam de poesia é poesia performática. É o casamento do texto com a habilidade de apresentá-lo no palco, e com um público sendo constantemente convocado a participar.
Esta batalha de poesia, que é embate e aconchego, que é denúncia e partilha, que é ágora e aprendizado chegou ao Brasil em 2008 e foi se espalhando por todos os estados, em uma celebração comunitária com vários sujeitos interagindo: mestre de cerimônia, poeta, público, júri e passantes. Este encontro possui diversas narrativas e três regras básicas – os poemas devem ser de autoria própria do poeta que vai apresentá-lo, deve ter no máximo três minutos e não devem ser utilizados figurinos, adereços, nem acompanhamento musical – estas regras podem sofrer variações, de um slam para outro, desde que convenham aos poetas, organizadores e o público que frequentam, no entanto são fundamentais para que o jogo se desenrole e se identifique os competidores nacionais que disputam a grande final e que garante a vaga para a batalha mundial que ocorre anualmente na França.
Corpo e voz, simultaneamente, dão o tom do espetáculo performático. Al-guns poetas declamam no palco, alternando o uso ou não do microfone; outros caminham por entre a plateia, gesticulam, gritam e silenciam, incorporando às suas poesias fatos que perpassam seus cotidianos.
De acordo com Paul Zumthor (2007), a performance oral é também gestual, ritualística por excelência, exige a participação do corpo e pode se dar em “teatra¬lidade” ou “espetacularidade”, dependendo de sua percepção espacial. É daí que emana o prazer do texto (BARTHES, 2006), gozo da liberdade para quem lê (no caso do slam, para quem declama) com o corpo e para quem ouve com também com todo o corpo. Ain¬da segundo Zumthor (2007), aquele que lê/declama em voz alta toca o outro pelas orelhas, e aquele que escuta é capturado pela melodia e pelo ritmo impressos no ato da leitura/declamação. Ao mesmo tempo em que nos lançamos ao outro que nos escuta, escutamos também a nós mesmos, ao nosso corpo, já que a voz, explica-nos o autor francês, é um corpo que se lança ao outro e retorna a si mesmo. A leitura/ declamação em voz alta implica, pois, corpo e alteridade: é endereçada ao outro, dinamizando língua/corpo e sujeito. Por isso Zumthor (2007) clama por uma poe¬sia vocal, recitação que requer a presença constante do corpo, músculos, vísceras e sangue, lugar central e único modo vivo de comunicação poética – eis a performance.
Nos slams todos os corpos que estão carregados de signos e símbolos interagem pela linguagem que ocorre em um contexto em que todos os participantes (falante e ouvinte) são ativos e se encontram em condição de igualdade. Todo falante está determinado precisa¬mente a essa compreensão ativamente responsiva do seu ouvinte. Ele espera, por assim dizer, uma resposta, uma concordância, uma participação, uma objeção ou uma execução. E no caso dos slams, essa resposta não se restringe às notas do júri, mas também, e principalmente, à reação do público ouvinte. Esse dialogismo está pre¬sente durante todo evento, até mesmo nos intervalos da batalha, quando o mestre de cerimônias anima a plateia com perguntas e respostas, quando anuncia o grito do slam e o público o completa, em coro, como sinal ritualístico para que a fala do poeta seja autorizada, com o punho em riste quando se grita Marielle Presente, com turbantes coloridos que trazem a percepção de que nossos passos vêm de longe, com táticas de visibilidade eleitas por muitos jovens que em outros contextos são silenciados, estigmatizados, e assediados.
A voz, que neste contexto é protagonista horizontal junto ao corpo, ao lado de suas qualidades simbólicas, reflete outras qualidades de cunho material, como o tom, o timbre, alcance, altura e registro. E com estes recursos materiais, o poeta, durante o ato performático, passa a encarnar um poder trazido por essa presença da voz, que remete os griôts, as contadoras de histórias, e a partilha dos saberes populares. Essas vozes subalternas que criam brechas para o seu lugar de fala processam importantes conexões periféricas e desencadeiam em todos os que estão presentes reações sinestésicas.




......................

* Aboboreira
Programa de Estudo Pós-Graduados em Ciências Sociais da Pontifícia. Universidade Católica de São Paulo - PEPG/PUCSP. São Paulo, Brasil