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Resumen de ponencia
Redes Sociais e a Violência do algoritmo: o corpo por meio das hashtags como vozes políticas.

*Luciana Pionório Rocha De Arandas
*Marina Blank Virgilio Da Silva
*Wagner Solano De Arandas



O discurso gerador de valor sobre a imagem do corpo que foi amplamente dominado pela mídia (jornais, revistas, sites), publicidade, e pelo campo da saúde, ao alcançarem as redes sociais da internet, encontrou um território sem fronteiras na forma aberta de conversação característica das plataformas virtuais, na qual a autoridade que confere legitimidade à fala está embaralhada na lógica da rede, uma vez que cada pessoa pode reivindicar para si a especialidade de um tema através da criação de um perfil, um canal ou blog. Isto resultou no surgimento de um exército de “especialistas” por dia, que, de forma considerável, adotam e encabeçam o discurso em torno dos padrões do corpo aceitável e desejável, empreendendo estigmatização a todos que se encontram fora desses padrões pelos rótulos da "preguiça", do "fracasso" e, principalmente, o da "doença", no caso das pessoas gordas.
Sem dúvida, esse fenômeno quando ocorre no ciberespaço, está relacionado ao que Elias (2000) denominou de estigmatização grupal operando no nível da desonra coletiva, uma vez que, qualquer pessoa pode agir como se estivesse habilitada como especialista para prescrever receitas, métodos, dar diagnósticos e fazer inferências nas redes sociais a respeito das imagens corporais de terceiros.
Nada passa despercebido nas redes sociais. Nada está lá em vão. Do mesmo modo que a internet serve para colaborar em causas louváveis, a exemplo de investigações policiais no combate a pornografia infantil e à pedofilia, também tem contribuído para disseminar e enraizar preconceitos e estigmas na rede. Isso se deve ao fato de que tudo aquilo que visualizamos, por mais que pareça randômico, na realidade, está cada vez mais sendo delineado sob a lógica da programação do algoritmo. Essa lógica ao definir questões como relevância e alcance das publicações, assim como orientar as co-relações que são feitas nos sistemas de busca pelos usuários, dissemina ideias, formas de pensar, e visões de mundo que se apresentam por meio da concepção formulada pela cabeça de quem programa o algoritmo.
Essa programação do algoritmo impacta diretamente naquilo que é propagado e consumido na rede, uma vez que os algoritmos têm sua programação orientada por pessoas, pessoas essas que estão programando os sistemas de busca e conteúdos segundo suas concepções e visões de mundo, não raro carregadas de estereótipos sociais. Nesse sentido, tudo aquilo que visualizamos na rede, seja a procura feita intencionalmente ou não, nos é apresentado por meio de uma visão de mundo carregada de valores e normativas de alguém, de algum grupo. O sistema escolhe pelo usuário, o usuário perde capacidade de diálogo com o diverso, com o diferente.
Em contraposição aos processos estigmatizantes e estereotipados as redes sociais tem sido ocupada de forma relevante por movimentos que estão promovendo ciberativismo, especialmente por meio do uso de hashtags. É nesse cenário e na contramão da estetização da vida em torno da busca pelo "corpo perfeito", que surgiu o Body Positive (BoPo) nas redes sociais, propondo-se a subverter a máxima do “corpo que quero ter” na direção do “com o corpo, o que quero dizer?”. Como definiu a ativista do Body Positive Megan Jayne Crabbe:
Body positive não é somente sobre como sentirem-se bem com os seus corpos. Trata-se também de fazer com que as pessoas marginalizadas se sintam seguras e valorizadas nos seus corpos. Para que as pessoas se sintam seguras nos seus próprios órgãos, temos de lutar contra os sistemas que os mantêm marginalizados e inseguros. Isso não significa lutar apenas contra a gordofobia, mas o racismo, o sexismo, a homofobia, a transfobia e etc. Como é possível sentir-se bem no seu corpo sendo oprimido e discriminado pelo seu corpo? O Body Positive é um movimento político que visa libertar os corpos da marginalização. Libertar-nos dos sistemas que nos ensinam que nossos corpos não são valiosos é política. A positividade corporal luta por todos os tamanhos, todas as cores de pele, todas as idades, todos os sexos, todas as capacidades. Não pode fazer isso sem política.
O surgimento do movimento Body Positive dentro das redes sociais não tem data e autoria específica, mas é possível identificar acontecimentos e pessoas que contribuíram para a ideia se disseminar de modo significativo, impactando para além do ciberespaço. Um exemplo está no ativismo liderado pela modelo plus size americana Tess Holiday, que conta com mais de 1,5 milhões de seguidores, e é considerada a líder do movimento BoPo on-line. Tess, ao publicar suas reações a ataques gordofóbicos no Instagram, desde 2011, viralizou o assunto, criando e passando a utilizar diversas das hashtags associadas ao BoPo em suas redes sociais. Iniciou também um movimento em torno da #EffYourBeautyStandards (traduzido livremente como “danem-se os seus padrões de beleza”), lançada por Tess em 2013 no Instagram, quando convocou as mulheres a postarem suas fotos tais como são, sem retoques tecnológicos e assumindo suas identidades e diversidade de corpos. Essa e outras hashtags atualmente derivam e representam o movimento, tais como: #bodypositive, #bopo, #bodyacceptance e #CelebreteMySize, #HonorMyCurves, #PlusIsEqual, #AllBodiesAreGoodBodies, #boycottthebefore, dentre outras.
No Brasil, também é possível identificar representantes que se autodenominam ativistas do Body Positive com perfis diversos: são youtubers, blogueiras/os, profissionais da saúde, mães, dançarinas etc., que adotaram a perspectiva do movimento na sua atuação nas redes sociais, dentre eles, a Alexandra Gurgel e o Bernando Boechat possuem canais no YouTube e estão movimentando juntamente com outros ativistas as hashtags já citadas e inserindo novas, tais como: #corpãoquerido, #gordofobianãoépiada, #positividadecorporal, #todagrandona, #corpopositivo, #tourpelomeucorpo, e a mais recente #gordofobiamédica, entre outras.
A #bodypositive conta hoje com mais de 4 milhões de postagens e a #EffYourBeautyStandards conta com mais de 2 milhões, ambas no Instagram. Para Malini e Antoun (2013), a indexação das mensagens em uma hashtag por um perfil de uma rede transforma a tag em um movimento de ação política, criando um regime de atenção. Quando uma hashtag viraliza, ela é dissociada de um autor ou "dono”, caracterizando-se como uma representação coletiva pela sua apropriação por outros usuários da rede. Desse modo, ao criar uma hashtag, o usuário contribui para facilitar a classificação e busca das conversas na rede, formando um sumário. O usuário, ao clicar numa hashtag, é encaminhado a uma espécie de índice remissivo, no qual o assunto pode ser tratado de qualquer forma, está aberto para ser negado, afirmado, criticado, não existindo controle ou forma pré-determinada; a conversa está aberta, em disputa, e em negociação constante.
Com o ativismo nas redes sociais sob a perspectiva do Body Positive, o etiquetamento associado à produção de estigmas entra em disputa com o autoetiquetamento das pessoas fora dos padrões, que se utilizam das hashtags derivadas do BoPo. Ao se autodenominarem por meio delas, entram no jogo das disputas de relações de poder em torno do etiquetamento social frequentemente associado à chacota, ao constrangimento e à rotulação. Nesse sentido, o ato de etiquetar-se por meio das hashtags tem a ver com o “como me vejo” e com o “como quero que os outros me vejam”, ocorrendo ao mesmo tempo no processo de comunicação no ciberespaço, numa tentativa de controle das impressões sobre si que impactam nos grupos estigmatizados. Principalmente no ciberespaço, os discursos de ódio funcionam como marcadores dos signos de normalidade dos tempos atuais, imediatamente expostos quando os corpos marginalizados (negras/os, trans, gordos etc.) insurgem-se.
Sendo assim, o etiquetamento positivo é uma reivindicação da identidade pelo próprio sujeito, no caso, das pessoas fora do padrão ou outsiders, considerando o Body Positive, nos termos de Elias (2000), representando um movimento de contra estigmatização que atua interseccionando diferentes pessoas, pontos de vistas, propagando ideais, opiniões e atuando estrategicamente dentro e fora das redes sociais da internet. Partindo do pressuposto do crescimento do Body Positive como uma mudança que se dá no virtual e impacta na visão social do corpo, tomando-o por um fenômeno que ocorre nas redes sociais, mas não se restringe a elas, a investigação tem rastreado o ciberativismo presente no discurso do BoPo, apoiada na metodologia de Análise de Redes Sociais da Internet.
Nos termos de Hine (2004), ao considerar a internet como artefato cultural, concebendo-a como produto da cultura e geradora de práticas sociais, é possível combinar a produção acadêmica existente nos estudos do corpo, do estigma e desvio na sociologia para verificar a atual emergência do discurso do Body Positive inserido num campo de disputas pautado pelas noções de normalidade, que são imediatamente expostas quando os corpos marginalizados (negras/os, trans, gordos, e etc.) insurgem-se. O discurso de ódio da internet é, sem dúvida, um marcador dos signos de normalidade dos tempos atuais, que insiste em colocar num mesmo bloco de desviantes todo o resto, indo de encontro a definição de Becker de que o “desvio não é uma qualidade que reside no próprio comportamento, mas na interação entre a pessoa que comete um ato e aquelas que reagem a ele” (BECKER, 2008, p. 27). Nesse sentido, o objetivo da apresentação é demonstrar como as vozes políticas em torno de movimentos que atuam contra a estigmatização sobre os corpos fora dos padrões estão ocupando as redes socais da internet, de modo especial o Instagram e tem pautado debates em torno de questões como padrão corporal, estigma e autoestima por meio do uso das hashtags.




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* Pionório Rocha De Arandas
Universidade Federal da Paraíba - UFPB. Paraíba, Brasil

* Blank Virgilio Da Silva
Universidade Federal da Paraíba - UFPB. João Pessoa, Brasil

* Solano De Arandas
Centro Universitário Boa Viagem - UniFBV WYDEN. Recife, Brasil