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Resumen de ponencia
Decodificação entre as faixas etárias: Leitura de desenhos animados a adultos e crianças

*Manoel Carlos Aguiar Kuhne



Este trabalho parte de um projeto iniciado em agosto de 2017, que inicialmente busca compreender a dupla recepção etária sobre uma mesma produção cultural. Trata-se de desenhos animados norte-americanos produzidos na década de 1990, pertencentes ao bloco Nicktoons, transmitido pelo canal de televisão a cabo, Nickelodeon. O público pensado pelos produtores era o infanto-juvenil, mas é recebido de forma notável entre crianças e adultos como resultado de sua audiencia.
Através da seleção e análise dos títulos escolhidos, busca-se pensar quais foram estratégias pensadas nas transmissões desses desenhos animados para que fosse possível a dupla decodificação etária, e quais os códigos que operam no processo comunicativo construídos nas produções, em uma concepção de industria cultural e metodologia dos estudos culturais. Por fim, problematiza-se essa relação entre o sentido dominante da mensagem emitida e a leitura pelo público que a recebe, afim de que se pense a disputa hegemonica e cultural pelos códigos presentes nessas produções culturais, uma das principais perspectivas dos estudos culturais é senão, como posiciona-se politicamente o individuo visto a priori como um reprodutor passivo, manifesta-se ativamente por sua recepção e ressignificação na cultura, no potencial de suas leituras divergentes.
A metodologia apoia-se nos estudos de Stuart Hall(2003), Umberto Eco(2003) e Douglas Kellner(2001). Este último autor oferece-nos a concepção sobre como situar o objeto nos estudos culturais, contextualiza-se o objeto em meios aos fenomenos sociais de sua época com base em um referencial interdisciplinar da comunicação, da história e da teoria social, de modo que, aplicada a um estudo concreto, compreenda-se a produção e a recepção enquanto sentido implícito enquanto modelos de análise que pertencem aos estudos culturais. Para captar os processos de codificação, busca-se analisar as diversas interações entre os personagens com uso do double coding de Umberto Eco e a codificação-decodificação do arcabouço teórico de Stuart Hall. Os critérios de seleção se deram ao contexto de sua produção no ambito cultural, político e economico, como a ampla audiencia entre crianças e adultos, embora pensado como uma produção para o público infanto-juvenil.
A primeira série animada escolhida para esse estudo, The Ren & Stimpy Show(1991-1996), criada pelo canadense John Kricfalusi, foi o primeiro título encomendado para o bloco de animações da Nickelodeon. O desenho animado é composto por dois personagens principais, um cão da raça Chihuahua, chamado Ren, de aspectos e traços grosseiros, apresenta um temperamento do mesmo aspecto, que serve de alívio comico ao manifestar versões caricatas de psicopatia ao se irritar com o segundo personagem, Stimpy, um gato vira-lata sem rabo, de aspectos e traços arredondados, cuja personalidade oscila entre o pateta e o genio. Este é punido por Ren pelas situações adversas no desenho, normalmente, de sua autoria. Embora conte com diversos personagens secundários, o foco se dá na interação entre os dois personagens, como lidam um com o outro e com os eventos que ocorrem no cenário em que estão inseridos, o título não apresenta universo fixo, mas situações de realidades diversas, com foco nos mesmos protagonistas.
Adorno e Horkheimer(2006) definem como indústria cultural, o sistema onde a produção dos bens de consumo, como a reprodução cultural, são frutos de uma padronização imposta pela raciondalidade técnica existente de forma independente ao sujeito que busca prever essas ações, como a mimese, que permite a identificação do consumidores com suas mercadorias, de modo que ocorre uma previsão deste sistema quanto as preferencias do indivíduo. Concebe-se esses indivíduos como reprodutores passivos, sujeitos a repetição do que lhes foi programado a consumir, a disseminação de bens padronizados para a satisfação de necessidades iguais (ADORNO, 2006: 100). Jesús Martín-Barbero(1997) é crítico a esta concepção de industria cultural pois evidencia a existencia dessa unidade, ao exercício de Adorno de não permitir convergencia da arte as massas, visando uma arte negativizada, que cause estranhamento, de modo que resista a dominação cultura e alcançe a utopia. Para este autor, Adorno estabelece uma relação de cúmplice com a própria ideologia, demonstrando um aristocratismo cultural, nega-se uma reconciliação da arte com as massas. Por meio da concepção de Walter Benjamin, Martín-Barbero aborda sobre uma nova forma de compreender a cultura das massas, através da experiencia. A aproximação de artes ditas “menores” passam a revelar o declínio de uma recepção que reclama por distancia entre o espectador e a obra, exacerbando o múltiplo diante de uma totalidade das produções culturais tradicionais.
Posteriormente, surge uma nova forma de ver a industria cultural nos anos 1960, surge um novo olhar para estudar a recepção, a possibilidade de resistir aos códigos impostos pelas produções. Ocorre o esgotamento de um paradigma analítico e emerge um novo, em meio uma crise de ordem economica que se relaciona com uma crise cultural.
Stuart Hall (2003) elabora seu modelo de análise codificação/decodificação (encoding;decoding) com base na lógica de produção marxiana, onde se concebe uma estrutura complexa presente nas produções culturais que se sustenta pela articulação de práticas conectadas, momentos distintos, mas interligados – produção, distribuição/consumo, reprodução (HALL,2003). Uma resposta ao aspecto linear das pesquisas de audiencia, a unidade de sentido atribuído as mensagens midiáticas, que se insere em uma estrutura complexa de significados. O emissor, o codificador, faz uso de um código e produz a “mensagem”, e através do receptor, o decodificador, traduz a “mensagem” em práticas sociais. É por meio desse modelo de análise que contrapõe a noção de comunicão perfeita que nada mais é que o discurso dominante, onde a má-compreensão se torna uma forma de resposta, contrária as expectativas da naturalização de códigos hegemonicos, é na verdade não se resignar. Travam-se disputas, portanto, em diferentes áreas da vida social, e é por meio da noção de “não- correspondencia” que surge a brecha para discursos completamente opositores, torna-se um espaço de disputa e de códigos, politiza-se o discurso em meio a interação com as produções culturais, contra a unidade de sentido.




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* Kuhne
Programa de Estudo Pós-Graduados em Ciências Sociais da Pontifícia. Universidade Católica de São Paulo - PEPG/PUCSP. São Paulo, Brasil