O presente trabalho é um recorte da pesquisa de Mestrado, iniciada em fevereiro de 2018, no Departamento de Ciências Humanas e Sociais, na Universidade Federal do ABC – SP, que pretende entender como os aplicativos de relacionamento provocam mudanças sociais na vivência amorosa e na sexualidade na contemporaneidade.
Atualmente, a sociedade é movida pela troca de informações e conhecimento concentradas na tecnologia da informação, que transformou o sistema político, a relação das empresas com a economia e sobretudo as relações sociais em diversas esferas. Nesta direção, o espaço e tempo constituíram um novo lugar, indo além da economia e técnicas materiais, modificou atitudes, valores e modos de pensamento que moldam a sociedade contemporânea.
Dentro dessa nova lógica de espaço-tempo, os indivíduos conectados à rede constituem suas identidades de acordo com seus grupos de interesses, formando novas relações no campo profissional e pessoal, que apontam outros modos de viver, sendo um exemplo próximo desta vivência permeada pela tecnologia digital os aplicativos de relacionamento, que possibilitam conhecer pessoas com o intuito de se ter algum tipo de contato íntimo - seja efêmero ou profundo, através de “perfis compatíveis”.
Porém, os aplicativos de relacionamento estão em expansão no mercado digital e têm modificado não só a forma de conhecer pessoas, mas das pessoas vivenciarem suas experiências sejam amorosas ou sexuais. Logo, a pesquisa quer entender estas mudanças e as possíveis consequências.
Para cumprir com esta proposta, a pesquisa está focada em analisar a relação do aplicativo Happn e a experiência de seus usuários. A escolha deste aplicativo ocorreu por ser um dos mais utilizados pela população adulta brasileira na atualidade, e tem como principal objetivo fazer com que pessoas do mundo real, que passam umas pelas outras no dia a dia, se encontrem.
Trata-se de um aplicativo que utiliza dados compartilhados e geolocalização de pessoas que frequentam ou passaram pelos mesmos espaços – como faculdade, comércios, entre outros locais - mas não se encontrariam, tampouco se olhariam nos mesmos, sendo um app com o intuito de suprir esta necessidade de olhar ao redor para encontrar possíveis parceiros.
Assim, o aplicativo em questão se torna um objeto interessante para analisar como o passado recente – da experiência de encontrar pessoas ao acaso, bairro ou mesma localidade -, se funde com as questões presentes das relações amorosas –a liberdade de escolha, em meio à ausência do corpo, do olhar, da compatibilidade através da análise de dados -, e nos auxilia na busca da mudança social no amor e na sexualidade, que queremos descobrir.
Segundo nossa hipótese, o aplicativo Happn carrega uma série de elementos que desencadeiam a sua grande procura, sendo os principais: um mercado de aplicativos de relacionamentos em ascensão no Brasil e uma forte influência do discurso da sexualidade no mundo ocidental, que modificou a sociedade contemporânea, influenciou a constituição do amor romântico a posteriori, assim como suas formas de vivenciá-lo.
As hipóteses têm sido fundamentadas em pensadores que nos auxiliam a entender a sexualidade como discurso como Michel Foucault e também nos pensadores Manuel Castells e Pierre Lévy que têm apontado em seus trabalhos os efeitos das relações desencadeadas pela cibercultura.
Norteados por esta base histórica e social, pretendemos apresentar os primeiros resultados da pesquisa sobre como o mercado de aplicativos influencia os relacionamentos amorosos na cultura brasileira, entendendo o uso do aplicativo Happn na cidade de São Paulo por análise qualitativa, entre a faixa etária adulta - segundo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) - que utiliza este app, com frequência.
Colocar o amor e a sexualidade na era digital em perspectiva é um tema importante para entendermos as novas maneiras de vivenciar os afetos, em um momento cuja as transformações tecnológicas interferem intensamente os hábitos e conflitos entre os indivíduos.