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Resumen de ponencia
Da força do trabalho a Força Sindical: a trajetória do Sindicato dos Estivadores de Santos na redemocratização

*Carla Regina Mota Alonso Diéguez



Os estivadores são uma das categorias mais antigas de trabalhadores. Seu trabalho tem sido utilizado há séculos em postos de embarque e desembarque em todo o mundo, incluindo o Brasil.
Desde sua constituição, ainda nos tempos da Colônia Portuguesa, os portos brasileiros, ou melhor, cidades litorâneas com trapiches e píeres como Santos, Salvador e Rio de Janeiro tinham forte atividade de embarque e desembarque de mercadorias. Entre os séculos XVII e XIX a produção de cana de açúcar e café eram escoadas nestes portos por navios cujos porões eram carregados pelos corpos dos estivadores.
Com o fim da escravidão, ao final do século XIX, boa parte dos negros libertos migraram para as grandes cidades e os portos tornaram-se lugar de parada e de trabalho para eles. A crescente imigração europeia para o Brasil também trouxe um contingente grande de mão de obra para os portos. Aos poucos, negros africanos e brancos europeus formaram um grupo de trabalhadores cujos braços erguiam cargas, cujas cabeças seguravam sacas e cujos idiomas, por mais diferentes, se uniam para entendimento do trabalho.
Com tais características, a estiva brasileira se tornou uma das mais diversas do mundo e em Santos, principal porto do país, essa diversidade foi expressa em termos políticos. Conhecido como Porto Vermelho, em função das ideias comunistas presentes entre os trabalhadores, Santos tornou-se, paulatinamente, um porto grande em tamanho e combate. A greve contra o regime de Franco e a resistência ao golpe militar de 1964 são alguns dos exemplos que mostram a combatividade deste porto e de seus trabalhadores (SARTI, 1981).
Neste espectro, os sindicatos ganharam destaque, entre os quais, o Sindicato dos Estivadores de Santos - Sindestiva. Considerado um dos mais importantes sindicatos do país, o Sindicato dos Estivadores de Santos teve importantes líderes sindicais, como Oswaldo Pacheco, que se tornou deputado federal pelo Partido Comunista do Brasil. No entanto, a história desse sindicato é composta pela ambiguidade de sua identidade política, ora para o socialismo, ora para o peleguismo, o que não veio a ser diferente em tempos atuais (SARTI, 1981). Todavia, a posse da gestão da mão de obra, por meio do sistema de closed-shop, fez com que o sindicato mantivesse sua força política durante décadas.
A história, entretanto, não foi conduzida como queria o sindicato. Em 1993 foi promulgada a Lei nº 8.630, de 25 de fevereiro de 1993, conhecida como Lei de Modernização dos Portos, cujos dois objetivos principais eram conceder as áreas do porto pública à exploração das operadoras portuárias e transferir o controle da mão de obra aos empresários do setor.
Desde então, o Sindestiva tem lidado com o desafio de manter o mercado de trabalho para os seus associados e para isso tem mobilizado repertórios diversos de ação coletiva. Conhecidos por sua combatividade, pela mobilização em greves políticas expressivas, os repertórios utilizados Sindestiva desde 1993 não foram diferentes. No entanto, sua associação a uma nova central sindical recém constituída apresenta alguns questionamentos.
A Força Sindical, central sindical fundada em 1991, como “expressão ‘da modernidade’ do movimento sindical”, cuja a “marca que procura veicular era a de uma central que aceitava o capitalismo, a economia de mercado e o predomínio da negociação sobre o sindicalismo de confronto” (TROPIA, 2008, p. 89), foi a central escolhida pelos estivadores de Santos para sua associação. Vanderlei José da Silva, presidente do Sindicato dos Estivadores de Santos de 1987 a 1996 e de 2000 a 2002, em entrevista concedida à Fundação Arquivo e Memória de Santos (SILVA, 2008) conta que participou da fundação da Força Sindical e sua maior motivação foi fazer frente a Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Dada a ambiguidade em sua história, a associação a Força Sindical não parece estranha. No entanto, no momento da associação o Sindestiva lutava contra a privatização dos portos e as ideias neoliberais. Por ser uma central fortemente identificada com o neoliberalismo e com repertórios diversos, e por vezes opostos, aqueles trabalhados pelo Sindestiva, questões sobre os motivos do Sindestiva para associar-se a Força Sindical em tal conjuntura, a influência da Força Sindical nos repertórios do Sindestiva neste período e a relação destas ações com a privatização dos portos surgem.
Com o objetivo de responder a tais questões, o presente capítulo propõe discutir a trajetória empreendida pelo Sindestiva no período da redemocratização e a influência da Força Sindical no seu repertório de ações.
Referências
SARTI, Ingrid. O Porto Vermelho. Os estivadores santistas no Sindicato e na Política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
TROPIA, Patricia Vieira. O sindicalismo brasileiro em disputa nos anos de 1990: origem, raízes sociais e adesão ativa da Força Sindical ao neoliberalismo. Estudos de Sociologia. v. 14, n. 26, p. 79-102, 2008. Disponível em




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* Mota Alonso Diéguez
Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo FESPSP. São Paulo, Brasil