Passaram-se 12 anos desde o início do convênio entre a Fundação Universidade de Brasília e a FUNAI (2004) que promoveu o ingresso dos indígenas à Universidade de Brasília (UnB). A fim de observar a luta estudantil indígena por direitos dentro da universidade, foram analisados quatro eventos organizados pelos estudantes indígenas da instituição, a saber: o o “1º Congresso Brasileiro de acadêmicos pesquisadores e profissionais indígenas” (2009), a “1ª Semana dos acadêmicos indígenas” (2010), a “2ª Semana dos acadêmicos indígenas” (2016) e a “3ª Semana dos acadêmicos indígenas” (2017). Esses eventos foram entendidos como manifestações de reafirmação política da conquista do espaço universitário que denúncia entraves e propõe mudanças e reflexões a respeito dessa presença. Portanto, foi possível percebê-los como espaços de reavindicação que expressam de forma institucional as dicotomias enfrentadas por esses estudantes desde a entrada dos primeiros indíegnas na universidade em 2004.
A compreensão dos eventos passou pelo prisma de quatro referenciais teóricos. Por se tratar de um movimento no qual os estudantes indígenas formam um grupo coeso que possuem proximidade temporal - espacial, agindo dentro de um local bem delimitado e sendo as implicações da ação comum a todos membros desse corpo, utilizei-me do conceito de ação-coletiva (RUANO, 2013). Os eventos ocorrem dentro da universidade, e, portanto, imbricado nas relações específicas do campo científico, sendo essa parte analisada a partir de Bourdieu (1976). O entendimento da forma como um evento científico é estruturado teve como base as discussões de Neyra e Targino (2006) sobre comunicação científica. Tendo em vista se tratar de um fenômeno intrinsicamente intercultural, a inserção indígena na universidade foi compreendida a partir do conceito de interculturalidade crítica de Catherine Walsh (2009).
A análise do 1° Congresso dos acadêmicos indígenas (2009) se fundamentou na pesquisa documental, construída a partir da análise da carta circular emitida pelo Centro Indígena de Estudos e Pesquisa (CINEP 2 ), (LUCIANO, 2009); pela programação oficial do evento e por áudios da relatoria do evento. Esse corpo documental foi analisado de forma crítica e pragmática, tendo em vista cinco dimensões propostas por Cellard (2008): 1) Contexto, 2) O autor ou autores, 3) A autenticidade e a confiabilidade do texto, 4) A natureza do texto e 5) Os conceitos-chave e a lógica interna do texto.
A descrição analítica da 1ª Semana dos acadêmicos indígenas (2010) se apoiou nas narrativas obtidas nas entrevistas com estudantes indígenas. Essa técnica de coleta de dados se mostra importante justamente por tornar possível acessar a informações indisponíveis em outras fontes. Reconhecida sua importância impar para a pesquisa nas ciências sociais a entrevista permite a “[...] obtenção de dados referentes aos mais diversos aspectos da vida social”, sendo seus resultados “suscetíveis de classificação e quantificação” (GIL, 1999, p. 115).
A compreensão da 2ª e 3ª Semanas dos Acadêmicos Indígenas (2016 e 2017 respetivamente) se nutriu principalmente da observação participante. Tive a oportunidade de participar desses eventos como ouvinte, podendo observar de perto as especificidades, tensões e relações. A importância da observação nas ciências sociais foi destacada por Neuma Aguiar (1978) quando afirmou que uma das vantagens dessa técnica é a profundidade dos dados, que permite atingir melhores níveis de compreensão dos fatos sociais em questão.
Entende-se que tais eventos carregam uma ampla bagagem de informações que podem dizer a respeito das incongruências e desafios enfrentados pelo movimento estudantil indígena na universidade, e suas respectivas propostas de mudança. Foi possível percebê-los como sendo formas específicas de movimentação desses estudantes, nos moldes e padrões acadêmicos, porém sem que perdessem a especificidade que fazem deles indígenas propriamente ditos.
Os eventos indígenas apresentam caraterísticas de “eventos científicos” propriamente ditos, adotaram a sua formatação - mesas, conferências e GT’s - e formalidade, para adquirir uma competência científica nos termos de Bourdieu. O que se discute é que, o campo científico é exposto a influências de diversos outros campos, e nesse caso ficou claro a presença do campo de lutas política indígenas. (Bourdieu, 1976). Dessa forma possuem o caráter de serem politizados, propiciando a reunião e debate entre indígenas sobre uma discussão central, a saber o “ensino superior indígena”. Portanto, por se tratarem de eventos indígenas em ambiente acadêmico, são formatados observando a idiossincrasia cientifica, embora possuam uma complexidade diferenciada. A partir disso, percebe-se a vertente funcional da interculturalidade na inserção dos indígenas no ensino superior: ela parte do reconhecimento das diferenças culturais afim de incluí-las na lógica dominante.
O Estado não é capaz de notar (e se nota ignora) que está relação entre os indígenas e a universidade está se dando de forma forçosa, sem os devidos cuidados e especificidades que ela exige. O indígena é tido como o exótico dentro de um espaço dominantemente moderno, europeu e ocidentalizado (Walsh, 2009). A atual inserção dos indígenas na UnB aparece limitada a certo reconhecimento das diferenças culturais afim de integrá-las à lógica dominante. O Estado brasileiro parece incapaz de compreender (e se compreende ignora) que a presença dos indígenas no ensino superior brasileiro constitui uma estratégia governamental de aculturação forçada. Logo, a relação entre os dois grupos é explicitamente a de dominação. Nessa lógica, os eventos promovidos pelos estudantes indígenas para evidenciar o ensino superior como espaço de dominação eurocêntrico ganham pertinência sociopolítica.
Porém, o que se percebe da movimentação indígena na UnB é que a presença destes na universidade é um projeto por si só decolonial, pois questiona justamente a colonialidade do poder (Quijano, 2005), implicando em mudanças institucionais. Como o slogan da terceira semana dos acadêmicos indígenas já explicitava: “A presença faz a diferença”. A ocupação desse espaço por esses estudantes por si só já exige o questionamento da práxis tradicional da academia, colocando em debate o conhecimento que é passado e tirando dele status quo de universalidade.
Assim sendo, os eventos são entendidos como uma reafirmação da conquista do espaço, manifestação política que propõe mudanças e reflexões a respeito dessa presença. A presença indígena na universidade, gera, invariavelmente, mudanças na própria instituição. O sincretismo, de danças tradicionais, com mesas redondas é característica de um contato cultural específico. Não é possível que tal contato seja unilateral, pois a realidade não opera dessa maneira. Os dois lados se modificam, de uma forma ou de outra. O que se pede é que essa modificação se dê da forma mais franca possível e é por isso que proponho a interculturalidade crítica como a forma que essa relação deve almejar a se tornar. Essa proposta visa repensar não apenas as estruturas políticas e institucionais da universidade, mas também a própria construção do saber. De nada adianta possibilitar (de forma ainda incipiente) a convivência entre diversas culturas se apenas uma é considerada válida.