O Jogo do Bicho é uma atividade que surge no final do século XIX, constituindo-se como um elemento típico da cultura popular brasileira. Ainda que classificado como contravenção penal a partir do art. 58º da Lei n. 3.688, de 3 de outubro de 1941, a atividade ganhou imensa popularidade perante a sociedade brasileira e atualmente é a loteria mais bem sucedida financeiramente do país (movimentando cerca de R$ 12 bilhões/ano – Instituto Jogo Legal, 2014). Para além de um forte componente do imaginário popular no Brasil, o Jogo do Bicho é do ponto de vista objetivo uma loteria, que incorpora traços comuns à especulação financeira tão característica do Capitalismo contemporâneo. Há certa controvérsia sobre quem foi o idealizador da “loteria de animais”, mas, é consenso que a atividade surge no Parque Jardim Zoológico na cidade de São Sebastião no Rio de Janeiro em 1892, como uma estratégia de arrecadação de recursos financeiros para saldar os gastos do Parque Jardim Zoológico, que estava passando por sérias dificuldades financeiras. Soares (1993, p. 22) lembra que “[...] com apenas 3 meses de existência e mesmo com o corte da subvenção federal, o Barão já tinha lucro suficiente para manter o zoológico, com o já conhecido jogo do bicho.” A loteria, então, despertou o interesse de diversos agentes por se mostrar um negócio financeiramente rentável e, ao longo de mais um século alcançou uma capilaridade vultuosa por todo meio urbano no Rio de Janeiro e também por outras cidades e estados brasileiros. Apesar da já mencionada proibição histórica à atividade, um elemento que merece bastante destaque em relação ao Jogo do Bicho é a criação de diversos Projetos de Lei no Congresso Nacional, que vêm procurando legalizar a loteria, entre os anos de 1951-2004 foram sugeridos mais de 60 Projetos de lei que buscavam a legalização da atividade (SILVA, 2006). Atualmente é possível encontrar diversas organizações – ainda que sendo uma loteria ilegal – que operacionalizam essa atividade por todo o país. Sendo assim, o presente trabalho pretende compreender o uso do território pelas organizações do Jogo do Bicho a partir de um prisma geográfico. Desse modo, segundo a pesquisa bibliográfica e documental realizada até o momento, constatou-se que o Jogo do Bicho é objeto frequente de análise acadêmica nas Ciências Humanas e Sociais, basta notar os importantes estudos sobre o tema em Freyre ([1933] 1987; [1955] 1987; [1975] 2012), Costa ([1938] 2003), Soares (1993), Santos (1995), DaMatta e Soárez (1999), Magalhães (2006), Silva (2006) e Chazkel (2014). No entanto, apesar da atividade se configurar como elemento típico da identidade brasileira (DAMATTA; SOÁREZ, 1999), poucas foram as investigações realizadas sob um viés geográfico, mais precisamente os três únicos estudos de geografia encontrados acerca do tema foram desenvolvidos por Malachias (1998), Oliveira (2012) e Carmo (2017), todos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) de graduação. Nosso trabalho visa, pois, partir de um esforço interdisciplinar (SANTOS, [1978] 1980) que abranja o conhecimento oriundo das demais ciências sobre o objeto. Contudo, para alcançar tal objetivo é necessário utilizar-se de um rigor teórico-metodológico adequado, sendo assim, a teoria dos dois circuitos da economia urbana proposta originalmente por Santos ([1975] 2008), e recentemente trabalhada por Silveira (2009; 2016), Bicudo Jr. (2006), Montenegro (2011), David (2011), Medeiros (2013) e o conceito de uso do território (SANTOS, 1996), são imprescindíveis para contemplar a análise. Nesse sentido, uma leitura geográfica da atividade, tem possibilitado apreender as diversas modernizações presenciadas pelo Jogo do Bicho, caracterizado por sua difusão em todo meio urbano, combinado com outras atividades tradicionais do comércio e de serviços, sua evolução no uso de objetos técnicos cada vez mais sofisticados, sua capacidade de se desvencilhar do poder coercitivo da norma e seu alcance mesmo naquelas áreas mais opacas do território.