Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
A Universidade como espaço para o diálogo de saberes: discutindo Epistemologias do Sul em disciplinas de graduação

*Nina Paula Ferreira Laranjeira



Trataremos aqui da experiência desenvolvida pelo Núcleo Transdisciplinar de Pesquisa em Alimentação Sustentável e Produção Agroecológica – NASPA, vinculado ao Centro UnB Cerrado, um espaço de ensino, pesquisa e de extensão da Universidade de Brasília (UnB) situado no município de Alto Paraíso de Goiás, na região da Chapada dos Veadeiros. A iniciativa teve como objetivo reunir os três pilares da Universidade, de forma a proporcionar o diálogo entre saberes acadêmicos e camponeses e experimentar inovações pedagógicas no ensino de graduação.
A experiência começou no início de 2011 com a criação de programas de extensão desenvolvidos por meio de metodologias no contexto da pesquisa participante e da pesquisa-ação. Tais programas aproximaram a Universidade de agricultores familiares, para que juntos pensassem em alternativas para a situação opressiva (capitalista e colonial) vivenciada pelas comunidades da região do Nordeste goiano, politicamente dominada pelo agronegócio. Posteriormente, em 2017 foi oferecida disciplina de graduação, denominada “Estudos Interdisciplinares do Cerrado”, aberta a estudantes de todos os cursos da UnB. Esta incorporou a pesquisa e extensão como espaços pedagógicos de diálogo entre saberes, aproximando realidades e discutindo as epistemologias do Sul. Santos e Meneses (2009) chamam de epistemologias do Sul o conjunto de intervenções epistêmicas que denuncia a supressão de saberes desencadeada, ao longo dos últimos séculos, pela norma epistemológica dominante, sob o manto de uma pretensa universalidade. Portanto, sublinha o diálogo horizontal entre os conhecimentos e busca a ampliação do leque de saberes tidos como válidos, credíveis e relevantes.
A disciplina “Estudos Interdisciplinares do Cerrado”, com 60 horas de aula, foi oferecida de forma concentrada a turmas com cerca de 16 estudantes de cursos variados – ciências ambientais, administração, nutrição, biologia, engenharia florestal, políticas públicas, história, educação física, geografia, gestão ambiental, entre outros. Os objetivos da disciplina, focados na ocupação do Bioma Cerrado, giraram em torno da ideia de se trazer à tona o contexto capitalista, colonial e patriarcal que dita as políticas públicas e a mentalidade dominante na sociedade brasileira. Tal olhar, baseado nas epistemologias do Norte global, faz com que comunidades tradicionais, camponesas e povos indígenas permaneçam na invisibilidade. Considerando a realidade da região, foi estudada a ocupação do Cerrado a partir do conflito entre o agronegócio e a agricultura familiar, como forma de ampliar a discussão epistemológica para além da ciência convencional.
Em sua última edição, a disciplina teve início com uma primeira etapa de estudos teóricos, abordando os seguintes temas: a história da ocupação do Cerrado e da invisibilização de seus povos; crítica à ideia de desenvolvimento; alteridade e diálogo intercultural; epistemologias do Sul; disputa de territórios rurais e os atores envolvidos; territórios materiais e imateriais (MANÇANO-FERNANDES, 2017); a questão da fome no mundo e da produção de alimentos no contexto político internacional e de dominação dos capitais transnacionais; Segurança Alimentar e Nutricional; Soberania Alimentar. Todos esses estudos foram permeados por um olhar crítico sobre as relações capitalistas, coloniais e patriarcais.
Como objetivos pedagógicos, almejou-se criar metodologias propícias para a compreensão de uma nova lógica de aprendizado e de visão sobre o próprio conhecimento. Baseando-nos em Paulo Freire (1996), acreditamos que os processos educativos devem partir do mundo real e possibilitar o diálogo claro entre teoria e prática. Desta maneira, foram três dias de estudos teóricos intercalados por dinâmicas capazes de estimular a integração dos estudantes e os sensibilizar para novas formas de compreender o mundo em sua diversidade, bem como repensar suas rotinas sociais e acadêmicas. Durantes esses dias, depoimentos contundentes sobre as relações patriarcais e rigidamente hierarquizadas vivenciadas pela turma no espaço acadêmico foram acolhidos e iluminados pelas novas teorias estudadas.
No 4º e 5º dias, os estudantes vivenciaram a rotina da vida de famílias de agricultores (um pernoite junto a cada família) do Assentamento Sílvio Rodrigues, situado na zona rural de Alto Paraíso de Goiás, onde procuraram compreender sua história – incluindo a luta pela terra – sua forma de viver, produzir e gerar renda. Apoiados por um roteiro previamente acordado, realizaram a coleta de dados através de entrevistas semiestruturadas, observação direta e observação participante, explorando os seguintes aspectos: histórias de vida, disputa de território, produção, qualidade de vida, conhecimentos. Ao retornarem das atividades de campo, os estudantes trabalham os dados colhidos, que foram apresentados e discutidos, sempre a partir da conexão entre a realidade observada e a teoria estudada.
Como resultado, foi observada uma profunda transformação na forma de pensar desses jovens ao entrarem em contato com a vida camponesa e ao analisarem a proposta capitalista de desenvolvimento, tendo também aprofundado a crítica sobre a própria Universidade, a epistemologia dominante e as metodologias de ensino. Os depoimentos de avaliação da disciplina mostram o quanto os jovens se ressentem do formato convencional de ensino e o quanto estão ávidos por vivenciar a realidade concreta. A grande maioria dos estudantes expressou a vontade de permanecer mais tempo junto aos agricultores, revelando enorme aprendizado junto às famílias e a facilidade com que a teoria foi compreendida a partir dessa vivência.
Conclui-se que o formato adotado pela universidade, baseado na compartimentação do conhecimento, sua desconexão com a vida e em relações fortemente hierarquizadas, precisa ser superado para que os jovens possam não só aproveitar melhor esse tempo-espaço de formação, como também aprofundar os vínculos entre a teoria e o mundo real. Além disso, o fato de compreenderem a validade de outras formas de conhecimento e a necessidade de diálogo entre diversos paradigmas epistêmicos parece tê-los levado a se sentirem mais felizes e seguros de si mesmos, bem como mais estimulados a atuarem sobre o mundo que os cerca.


FREIRE, Paulo. “Pedagogia da Autonomia”. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
MANÇANO-FERNANDES, Bernardo. “Territorios y Soberanía Alimentaria”, Revista Latinoamericana de Estudios Rurales, v. II, nº 3, 2017, 22-38.
SANTOS, Boaventura de S.; MENESES, Maria Paula. “Introdução”, in: Boaventura de Sousa Santos e Maria Paula Meneses (orgs.), Epistemologias do Sul. Coimbra: Almedina/CES, 2009, 9-19.




......................

* Laranjeira
Universidade de Brasília - UnB. Brasília, Brasil