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Resumen de ponencia
“Sou um negro em movimento”: a presença no cinema e a luta antirracista de Antonio Pitanga - segunda metade do século XX.

*Adriano Da Silva Denovac



O cinema é um potencial objeto de análise e construção do discurso histórico, levando em consideração a perspectiva que se pode contra analisar a sociedade, “revelar o seu avesso” através de um filme (FERRO,2010). Por tratar-se de um fenômeno de massas, o cinema pode ser analisado visando evidenciar a construção dos mais variados discursos, ideias, conceitos, estereótipos, pré-conceitos, pois lida com o imaginário e articula essa experiência no presente de uma pessoa ou de uma sociedade que vê e experimenta os filmes. Nesse sentido, a presente proposta de comunicação busca, a partir da análise filmica do ator afrobrasileiro Antonio Pitanga, pensar o discurso elaborado sobre mulheres e homens, negras e negros, no cinema, pensando em que medida se deu a atuação de Pitanga no cinema brasileiro, sul americano e africano, seu posicionamento político, suas contribuições e debates sobre a luta antirracista.
Antonio Pitanga nasceu em 1939 em Salvador, estudou arte dramática na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA), tem mais de 50 longas metragens em sua carreira, seu primeiro filme foi em 1960 no longa de Trigueirinho Neto, Bahia de Todos os Santos. A carreira do artista está associada a história do cinema novo e marca de maneira indefectível a presença do negro no cinema brasileiro e mundial. Protagonizou Barravento (1962) dirigido por Glauber Rocha e no mesmo ano coestrelou outra obra clássica do diretor Nelson Pereira dos Santos: O Pagador de Promessas (1962). Os dois filmes fazem parte do início do movimento cinemanovista (1956 – 1972), que se caracterizava pela crítica social e se constituiu em uma das correntes mais politizadas do cinema no século XX e colocou o cinema brasileiro no cenário mundial. Pitanga foi um dos atores mais atuantes desse movimento, ele trabalhou em 28 produções entre 1960 e 1972. Ele se declara “o único negro desse conjunto do Cinema Novo, pensando igualmente que nem eles”, os brancos. (PITANGA, 2017), comenta demonstrando seu lugar como pensante no movimento, e denotando sua experiência como homem negro ocupando espaço de prestígio e visibilidade, algo raro no período histórico em questão.
O pesquisador de cinema João Calos Rodrigues, afirma que as representações dos afrodescendenstes parte de um escopo único que “provém da imaginação do branco, forjada por medo, solidariedade, amor ou ódio (...) muitos desses tipos são oriundos do tempo da escravidão, outros estão ainda hoje em formação no inconsciente coletivo...” (RODRIGUES. 2011, p.22).
A classificação apresentada pelo autor permite que possamos observar a constituição de alguns tipos representados por Pitanga e sua relação com o imaginário cinematográfico, “na ficção brasileira, no cinema ou fora dela, todos os personagens negros pertencem a uma das classificações a seguir, ou são uma mistura de várias delas” (RODRIGUES, 2011 p.22) que seriam: “pretos velhos”, “mãe preta”, “mártir”, “negro de alma branca”, “nobre selvagem”, “negro revoltado”, “negão”, “malandro”, “favelado”, “crioulo doido”, “mulata boazuda”, “musa” e mais recentemente o tipo “afro-bahiano”. Diversos desses “tipos” fazem parte das personagens vividas por Pitanga ao longo de toda a sua carreira. Em que medida a carreira do ator se relacionou com esses tipos? Desconstruindo-os ou os reforçando?
Vamos analisar essas perspectivas com base na filmografia do ator entre 1960 e 2017, com a intenção de problematizar essa questão a luz dos estudos Pós-Coloniais, Decoloniais e da História do tempo presente; discutindo o racismo com base na construção das imagens e na análise fílmica.
A história de Antonio Pitanga não está acabada, não se resume na experiência passada, certamente ela se articula com o presente, que também é aberto e inconcluso, em nossa percepção essa dinâmica teórica estabelece acuidade na produção do discurso historiográfico e para além dele um discurso sobre os indivíduos, sobre a experiencia de ser. Nesse diálogo entre tempos os filmes são documentos privilegiados para pensar a experiência de Antônio Pitanga, relacionando sua cinebiografia com a presença subalternizada dos (as) negro (as) na experiência social (FANON, 1968), essa perspectiva apresenta a possibilidade de discutir identidades a luz da cultura.
Consideramos fundamental discutir a trajetória desse ator negro de origem periférica, que conseguiu destaque no cinema, mas durante muito tempo foi relegado ao papel secundário pela grande mídia. A reconstrução de sua trajetória e ascensão de sua carreira inicia no tempo presente, com a luta do movimento negro por representatividade em diversos setores, inclusive na televisão. O ator tem então sua trajetória rememorada, recontada pelos veículos de comunicação. A memória e o discurso sobre esse artista são tecidos de uma simbiose entre passado, presente, com algumas cristalizações e esquecimentos. Narrar a trajetória de Antonio Pitanga é a possibilidade de discutir a partir do lugar de ser e estar no mundo de uma pessoa, de um grupo, a luta antirracista e pelos diretos humanos. Pitanga viveu e vive da arte, e ao mesmo tempo fez de seu oficio uma experiência de luta, para que mais negros e negras tivessem a oportunidade de estar não apenas no mundo das artes, mas em todos os mundos.




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* Denovac
Universidade do Estado de Santa catarina UDESC. Florianópolis, Brasil