Diante da hegemonia das políticas neoliberais nas últimas décadas e do avanço do conservadorismo na América Latina em um contexto no qual a crise econômica é uma constante, a retomada do pensamento crítico latino-americano, especialmente no campo do desenvolvimento torna-se premente. Nesse sentido, é necessário questionar o modelo de desenvolvimento que fundamenta o tradicional modelo de cooperação internacional Norte-Sul e lhe dá sentido enquanto instrumento de poder e problematizar o emergente modelo de cooperação internacional Sul-Sul que se inscreve dentro dos limites do arcabouço institucional internacional em conexão intrínseca com o ideário de desenvolvimento capitalista consolidado a partir do período pós-guerra (1945) e, nesse sentido, contém uma funcionalidade na manutenção da disparidade entre os países e organizações que compõem a dinâmica política internacional contemporânea.
Neste sentido, o Objeto do estudo é a cooperação internacional protagonizada historicamente por Cuba com países que compõem a periferia do sistema internacional e como essa cooperação se difere da cooperação internacional de desenvolvimento capitalista, configurando-se como modelo paradigmático distinto e estratégia de (re)existência. A pesquisa analisa a cooperação internacional protagonizada historicamente por Cuba com países que compõem a periferia do sistema internacional em contraste com a cooperação internacional de desenvolvimento capitalista, atentando às suas particularidades à luz da noção de Internacionalismo Proletário bem como debate a categoria Sul para além dos conceitos geográfico e político de modo a compreender como se configura a atual agenda de cooperação cubana para o desenvolvimento, quer seja, que tipo de cooperação se está inaugurando.
No que consiste a Cooperação Internacional para o Desenvolvimento? Qual é o sentido deste desenvolvimento? Como Cuba, uma ilha, um país economicamente embargado por mais de meio século, periférico segue resistindo e brindando cooperação internacional? O que representa uma oferta de cooperação ao seu maior antagonista apesar da disparidade de recursos? Qual é o fundamento que subjaz a Cooperação Internacional cubana enquanto modelo paradigmático distinto? Quais são os elementos que caracterizam a particularidade do processo de “abertura” de Cuba? Qual é o impacto doméstico e internacional do internacionalismo cubano? Dos resultados de pesquisa, seguem alguns pontos-chave: 1. A política de cooperação internacional para o desenvolvimento protagonizada historicamente por Cuba caracteriza um modelo de cooperação internacional distinto da tradicional relação Norte-Sul e da emergente relação Sul-Sul, uma vez que não se fundamenta sobre o ideário de desenvolvimento capitalista. 2. A política de cooperação internacional protagonizada por Cuba tem como estrutura o internacionalismo proletário e, sendo assim, tende a transcender as fronteiras do Estado nacional, priorizando os povos do “Sul”. 3. Que o internacionalismo cubano cumpre uma função simultaneamente doméstica e internacional – retroalimentando os princípios do internacionalismo proletário e contribuindo para a sobrevivência da própria revolução cubana.
O internacionalismo proletário é um traço estrutural da Revolução Cubana e fundamento orientador das práticas de cooperação internacional protagonizadas por Cuba com os países que compõem a periferia do sistema internacional. A especificidade do regime político revolucionário cubano e sua posição diante do sistema internacional têm como estrutura a ideologia socialista e, em decorrência disto, fundamenta um ideário de desenvolvimento específico que subjaz as práticas de cooperação internacional de Cuba desde o advento da Revolução (1959).
As matrizes ideológicas que constituem a política externa cubana no que tange à prática de cooperação internacional são um reflexo de um processo endógeno, a partir da implementação de um programa de transformações que alteraram drasticamente as diretrizes políticas, econômicas e sociais de Cuba com o advento da Revolução Cubana em 1959.
No decorrer de sua trajetória histórica, o país logrou desenvolver uma política de cooperação internacional global e ativista em áreas chave de desenvolvimento – como saúde e educação - nas quais os notáveis logros atingidos tornou o país referência internacional.
A cooperação internacional cubana atua no sentido de prover instrumentos de capacitação nas áreas de atuação. Esta característica particular permite levar o “desenvolvimento de capacidades às bases e aumenta as contribuições da Cooperação Sul-Sul para o empoderamento dos pobres e marginalizados, para que possam reivindicar seu direito ao desenvolvimento” (ANDERSON, 2010; ALOP, 2010, p. 24).
A CSS Cubana prioriza o atendimento das populações mais pobres das regiões mais marginalizadas – as periferias da periferia - onde serviços básicos inexistem ou são escassos. É por meio da ação prática, no contato com a realidade externa das periferias do mundo subdesenvolvido, em áreas de extrema pobreza e privação, que os princípios do internacionalismo socialista cubano são reavivados, reafirmando sua atualidade histórica.
Os princípios do Internacionalismo Proletário estruturam o ideário de desenvolvimento cubano e, consequentemente, sua política externa de cooperação internacional, exercendo um papel fundamental que mantém aceso o ideário revolucionário.
A política externa cubana tem como uma de suas prioridades o desenvolvimento de recursos econômicos, políticos e ideológicos capazes de atuar no sentido de conferir apoio à sobrevivência da revolução e resguardo de seu modelo político
O internacionalismo cubano, para ser realisticamente compreendido, deve ser colocado enquanto um componente central da Revolução Cubana. Ainda que a ênfase posta em muitas análises sobre o tema tende a priorizar as implicações externas – missões internacionalistas – em detrimento das dimensões internas, é necessário um olhar capaz de compreender a unidade indissociável entre estas dimensões. O internacionalismo proletário cubano é mais do que uma característica de política externa e está dialeticamente conectado ao processo de desenvolvimento socialista em Cuba, atuando diretamente sobre a formação e consolidação da consciência socialista o que, em contrapartida, contribui para a continuidade e sobrevivência da própria Revolução.